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Jornal de Espiritismo nº 69 · Dezembro 2015Página 88 min

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“Consigoouvi-lanomeuquarto” Maria do Céu – Dr.ª Gláucia, por vezes, a minha filha de 8 anos de idade, mais nova que a irmã, acorda recorrentemente por volta das 2h00 da manhã, a meio do sono, com uma respiração ofegante, a tremer. Consigo ouvi - -la no meu quarto, levanto-me e falo com ela, mas ela não sai daquele estado, como se a sua mente viajasse num mundo que a aterroriza. Toco-lhe, falo-lhe, mas ela fica por alguns minutos assim, até que acaba por se deitar de novo e dorme normalmente.

De dia não se lembra. Isso ocorre mais quando o meu marido não está em casa, por motivos profissionais. Como posso lidar melhor com ela para não sofrer? Dr.ª Gláucia Lima – A descrição remete para uma perturbação do sono conhecida como “terror noturno” ou “pânico noturno”, que é caracterizada por gritos durante o sono, acompanhada de sensação de terror, pânico, como se a pessoa estivesse a ser assaltada, por algo terrífico durante o sono.

Geralmente começa com manifestações comportamentais: sudorese, taquicardia (aumento da frequência cardíaca) e respiratória, que culminam com o despertar espontâneo da pessoa ou por outrem. É considerada uma Parassonia – que são distúrbios do sono caracterizados por movimentos anormais que perturbam o padrão saudável do sono, causando como consequência sensação de cansaço, sonolência diurna, fadiga, menor desempenho cognitivo e físico durante o dia.

(Nature, 2005: 437 (7063):1279-85. O terror noturno é mais comum em crianças, estima-se que 10 a 20% das crianças tenham pelo menos um episódio destes por ano, não sendo uma condição exclusiva desta faixa etária, podendo também acontecer, na adolescência e na idade adulta. Habitualmente acontece após o 1.º sono REM (entre 15 minutos e duas horas de começar a dormir), na fase de sono profundo e a “crise” dura cerca de 1 a 10 minutos.

Quando a criança é despertada, é como se estivesse em transe, normalmente, volta a dormir, como se nada tivesse acontecido. Por vezes, os pais têm a sensação de que elas não os ouvem ou não os veem. O adulto, pode recordar-se de alguns fragmentos do que estava a acontecer e, caso a pessoa volte a dormir, ao despertar geralmente esquece o conteúdo perturbador. As causas do terror noturno ainda são desconhecidas para a medicina.

Antigamente acreditava-se que era “causado por um demónio que sentava no peito da pessoa dificultando a sua respiração”, mas admite-se que resulte da ansiedade, do stress, de conflitos emocionais, conscientes ou inconscientes. Em crianças, para além dos distúrbios emocionais, admitem-se estados febris como fatores físicos desencadeantes. Para a medicina não existe um tratamento específico e o terror noturno pode acompanhar uma criança durante anos, sendo o apoio psicológico importante na compreensão e abordagem terapêutica da condição.

Para o Espiritismo, este é um capítulo especial, sabendo que durante o sono o Espírito encarnado se emancipa do seu corpo físico e, por vezes, pode ficar aprisionado a outras entidades encarnadas ou desencarnadas, com as quais nutre laços espirituais desta vida ou do passado, numa influência, nem sempre saudável. Pode acontecer, que espíritos jovens, mas Espíritos velhos, e igualmente endividados, ainda na sua infância, pela proximidade reencarnatória com os laços do passado, se sintam assediados por entidades que com eles carmicamente estejam ligadas; como até aos 7 anos a reencarnação ainda não se completou na sua plenitude, as crianças ainda estão muito vinculadas ao mundo espiritual, podendo vê - -los, senti-los e registar-lhes a presença de uma forma espontânea e natural, por vezes, desequilibrada, quando falam mais alto as cobranças do passado, em forma de processos obsessivos, como nos casos do terror noturno.

No caso referido, a criança normalmente, não se recorda das situações de terror noturno, sendo situações mais traumáticas para os pais que ficam inertes sem saberem como agir. Os pais devem dar-lhe o apoio tranquilizador, fortalecendo-lhe a auto-estima, com carinho, afeto, compreensão, desenvolvendo desde cedo, o sentido de autoproteção, inclusive ensinando a orar e a pedir ajuda aos benfeitores espirituais. Podem fazer a evangelho-terapia em casa, melhorando o ambiente espiritual do lar e beneficiarem da fluidoterapia no centro espírita, fonte de equilíbrio, indicada para qualquer idade.

“Acordo de noite a gritar“ João Pedro – Tenho 38 anos, sou casado e desde os 15 anos, acordo de noite a gritar. Pela manhã estou cansado e com dores de cabeça. Por vezes, sou violento, o que fez com que fosse dormir em quarto separado da minha mulher, que já tem medo de mim. Como posso ser ajudado? Dr.ª Gláucia Lima – “Gritar a dormir pode ter várias causas, como, pesadelos, terrores noturnos, crises de pânico, epilepsia ou crises funcionais”.

Paiva, T.(2009). A primeira questão que se coloca é se a pessoa tem ou não consciência, quando acorda, do seu estado. Quando se trata de um pesadelo, habitualmente, ainda que a recordação permaneça de forma fugaz, a pessoa recorda do motivo que a faz estar transtornada, neste caso, a gritar, a ser violenta. Por exemplo: ”acordo como se estivesse num confronto físico, a noite inteira a brigar, cansada, não sei com quem estou a guerrear, mas, sei que me vão fazer a folha ou vão me afogar!

”, assim define uma paciente, que refere nunca ter dormido bem, e ser o seu sono povoado de pesadelos. André Luiz dá-nos inúmeros exemplos de situações em que o encarnado se vê durante o sono, acompanhado, perseguido, cobrado pelas entidades espirituais, que não deixando de ser ainda suas “afins”, penetram-lhe o campo mental, por variadíssimas necessidades emocionais, causando, constrangimento, pânico, pavor, sofrimento.

A título de exemplo, cito a descrição feita pelo autor, André Luiz, no livro “Entre a Terra eoCéu”, no Cap. 5, quando Zulmira, (encarnada) durante o sono, encontrava-se com Odila (desencarnada) e primeira mulher do seu marido, Amaro: “Zulmira despertou, alagada de suor, conservando no cérebro de carne a impressão de que vagueara em terrível pesadelo. Tentou gritar, mas não conseguiu. Faleciam-lhe as forças em colapso nervoso insopitável.

A dispneia castigava-a com violência, enquanto as coronárias se mostravam intumescidas”. Perseguida pela entidade desencarnada durante o sono, sistematicamente era levada para uma praia onde deixara de socorrer o filho da desencarnada, seu enteado, o Júlio, vindo o mesmo a desencarnar afogado. A Odila, inconformada, perseguia a Zulmira, exigindo reparação, culpando-a do crime. Zulmira mantinha - -se ligada a Odila pelos laços do remorso e da culpa e durante a noite era assediada pela entidade desencarnada.

Despertava do seu pesadelo sem plena consciência da sua realidade espiritual, num claro processo obsessivo, gerando processos evitativos de medo em relação ao deixar-se adormecer, génese causadora de muitas insónias. Nos casos de “terror noturno”, a pessoa, não tem recordação do “sonho”, cujo desconforto é relatado por terceiros. Nas situações de crises de pânico noturno, pode acontecer a incapacidade de respirar, o coração disparado, a transpiração excessiva e a sensação de morte iminente, tal como acontece quando “o pânico” se instala durante o dia, com o indivíduo acordado.

Neste caso, ainda associado a sensação de sufocação noturna. Esta condição, geralmente está associada a apneia do sono ou ao laringo-espasmo, situações que se fazem acompanhar de roncopatia, que invariavelmente, é incómoda para o parceiro e, por vezes, causa o despertar do próprio quando demasiado intensa. Uma doente descreve: “Acordei com a sensação de que tinha um elefante em cima de mim, sem conseguir respirar, sufocada”.

O exame do “estudo do sono ou polissonografia” dá o diagnóstico desta situação clínica, que pode não ter a ver com uma causa espiritual! No caso de epilepsia noturna, 1/3 das mesmas são ativadas durante o sono, ocorrendo exclusivamente durante o mesmo. Há crises de violência noturna, gritos, movimentos bruscos (sempre idênticos), com início na adolescência, jovem adulto ou idade adulta, com ausência total de memória para o evento.

Habitualmente cursam também com dores de cabeça matinais e cansaço. O registo através de EEG (eletroencefalograma) elucida o diagnóstico e orienta o tratamento. Tratando-se normalmente, de epilepsias frontais ou temporais, que cedem com a terapêutica farmacológica específica. Em última análise, pode-se pôr a hipótese de crises funcionais, atribuídas ao cansaço excessivo, ao uso de bebidas alcoólicas, à privação do sono, à febre, às preocupações excessivas.

No caso em análise, a hipótese da epilepsia noturna é a mais favorável, devendo em primeiro plano, realizar-se exames auxiliares de diagnóstico a fim de se estabelecer um diagnóstico clínico definitivo. Posto que, sendo esta condição etiologicamente identificável em termos orgânicos, também se admite ser tratável clinicamente através de psicofármacos e com bons resultados clínicos. Em segundo plano, é do conhecimento espírita que as patologias do foro epiléptico têm uma base espiritual, o que não quer dizer que não tenham de ser tratadas fisicamente.

Pelo contrário, se o desequilíbrio, existe a nível físico, ele deve ser equilibrado tambémanível físico, tal como se faz com outras “doenças do corpo”, ou melhor, no corpo, como a diabetes, a hipertensão ou o cancro. Entretanto, a doutrina espírita vem apontar outras diretrizes para a saúde, demonstrando que o equilíbrio no Espírito irá refletir-se no equilíbrio do corpo, num processo permanente, interativo, entre corpo, expressão do perispírito e mente, expressão do nosso Espírito.

O princípio da saúde estará no sentido do seu equilíbrio interior, na busca da espiritualidade. Na perceção da doença como caminho de transformação no seu projeto de vida. O Espiritismo, abre aqui uma possibilidade maior de compreensão das perturbações do sono, incluindo também, em algumas condições uma origem espiritual. Entretanto, não devemos descurar o tratamento físico quando a patologia exista. Ensina-nos que podemos e devemos incluir na nossa higiene psíquica a preparação para o sono.

Sabendo que o dormir é uma porta para a vida espiritual, pela qual nos mantemos ligados diariamente à espiritualidade, queiramos ou não. Enumero alguns itens importantes para uma boa higiene do sono: 1.Evitar bebidas alcoólicas – em vez de facilitar o sono, auxilia na assimilação de entidades espirituais com viciações espirituais negativas. / 2.Evitar filmes, leituras violentas à noite – diminui o padrão vibratório. / 3.

Ler leituras edificantes antes de adormecer. / 4.Praticar um relaxamento (visualização criativa ou imaginação ativa). / 5.Respeitar as nossas necessidades fisiológicas de sono e as nossas rotinas diárias (especialmente importantes para o equilíbrio emocional das crianças). / 6.Hábito da prece. Bom sono e bons sonhos! A Dr.ª Gláucia Lima é psiquiatra e é estudiosa da doutrina espírita. Responde a duas perguntas entretanto surgidas relacionadas com problemas do sono.

foto loucomotiv MARÇO.ABRIL.