Correio Março.abril.2015
Jornal de Espiritismo nº 69 · Dezembro 2015Página 35 min
CORREIO MARÇO.ABRIL.2015 Comofuncionaisso? As questões colocadas vão chegando por e-mail: aleatoriamente, aqui ficam algumas que achamos por bem partilhar com os leitores. Em 20 de dezembro do ano passado, Carmo escreveu: «Boa tarde, sempre tive um grande interesse por assuntos místicos e pelo mundo oculto. Canalizava este meu interesse mais para as questões da astrologia e coisas do género, uma vez que desconhecia a doutrina espírita e até há pouco tempo esse assunto despertava - -me mais receio do que vontade de perceber.
No entanto, a minha curiosidade acerca da doutrina espírita tem vindo a aumentar. Confesso que só agora tenho procurado informação acerca do assunto e sempre com alguma cautela, porque não sei bem as balizas daquilo que é sério daquilo que não o é, visto ser um assunto ainda tão pouco conhecido e esclarecido. Pois bem, ultrapassada esta pequena introdução, o certo é que tenho tido alguma dificuldade em perceber como funciona isso do espiritismo, que género de fenómenos são da alçada do espiritismo, quais as fronteiras que separam ou aproximam o espiritismo dos restantes fenómenos ocultos.
Muito embora tenha sido sempre uma pessoa mística, nunca havia sido confrontada com a hipótese de acreditar que a magia negra existe e que pessoas mal intencionadas podem lançar bloqueios na vida dos outros. O certo é que já não sei bem no que acreditar, considerando algumas coisas que tenho visto acontecer e histórias que tenho vindo a saber de fontes credíveis. Gostava que me esclarecessem qual a vossa posição acerca deste assunto.
Se acreditam que isso possa acontecer. Se este assunto tem alguma ligação com o espiritismo. Se o espiritismo, embora não prometa a cura para nada, pode, de alguma forma, resolver assuntos desta natureza e o que temos que fazer para procurar essa ajuda. Grata pela atenção». A resposta seguiu: «Olá Carmo, Compreendemos bem a sua posição. As questões ligadas à existência de Deus, à imortalidade da alma, ao mundo espiritual têm estado, ao longo de séculos, sob a alçada das religiões tradicionais, ortodoxas, que frequentemente erguem muros de secretismo sobre essas questões centrais da existência humana, e ao povo oferecem apenas uma versão ritualizada, exterior, das suas crenças.
Não o farão por mal, mas por receio de que muita luz deslumbre os que não estão preparados para ela. Não censuramos, cada qual sabe de si. Por outro lado, e como sempre houve fenomenologia mediúnica, a sabedoria popular sempre tentou explicá-la a seu modo. As assombrações, os maus-olhados, as magias (negras, brancas e de todas as cores), as chamadas “possessões”, os “encostos”, tudo isso são também versões populares de realidades que sempre acompanharam a Humanidade, e resquícios da fase mágica da evolução humana, quando as manifestações da Natureza eram tomadas como ação de múltiplos deuses.
Por fim, e desde o século XIX, uma terceira corrente veio juntar-se a estas duas: a do ateísmo, do materialismo científico, da negação obstinada, que põe na conta de charlatães, mentirosos ou ignorantes todos quantos defendam que Deus existe e que a alma é imortal. Não admira que hoje em dia reine a confusão entre tanta gente, porque há muita informação, mas a maior parte de fraca qualidade e contraditória. Sempre presentes, desde os alvores da História, têm sido também os chamados médiuns comerciantes, os feiticeiros, os que fazem negócio com as comunicações com o Além.
No Antigo testamento, no Livro do Deuteronómio, encontramos uma advertência de Moisés ao seu povo que se dedicava a consultar os adivinhos, o que parece indicar que na estadia no Egipto os judeus adotaram práticas locais como a da consulta dos «mortos». O mesmo podemos observar em todas as civilizações do Globo. Hoje, na Idade da Internet, os feiticeiros fazem-se anunciar em vistosas páginas eletrónicas, e sabem, como há milhares de anos, lançar o temor, a dúvida e a dependência no espírito de quem os consulta.
Têm assim, o seu sustento assegurado. Mas de forma profundamente imoral, na nossa opinião. O Espiritismo vem retirar o véu de mistério, de oculto, de esotérico, de sobrenatural, que sempre cobriu essa dimensão da vida humana, tão natural como comer, beber, respirar, viver em família, trabalhar, ou folgar. As assombrações, os maus-olhados, as magias (negras, brancas e de todas as cores), as chamadas “possessões”, os “encostos”, tudo isso são também versões populares de realidades que sempre acompanharam a Humanidade.
O Espiritismo explica – não pela especulação de um pensador, mas pelas comunicações vindas do Mundo Espiritual – quem somos, de onde vimos, para onde vamos, o que são as antigas alegorias de Céu e do Inferno, que recompensas e penas nos aguardam após esta vida, porque existem desigualdades no mundo, como devemos bem proceder, etc. A proposta espírita é o conhecimento. Não pretendemos fazer adeptos, não pretendemos «fidelizar» pessoas, não pretendemos aumentar o número dos que se assumem publicamente como espíritas.
A nossa única intenção é fazer como Jesus disse: colocar a candeia sobre o alqueire, que significa pôr o conhecimento à vista de todos. Qualquer pessoa, de qualquer religião ou sem religião nenhuma, é livre de estudar a filosofia espírita e julgar por si mesma se esta contribui para clarificar a sua visão do mundo. Um dos meios de saber mais acerca do Espiritismo é visitar uma associação espírita (procurar, sff em http://adeportugal.
org/adep/index.php/centros-espiritas/pesquisar-distrito). No nosso site está disponível para download o conjunto das obras do Espiritismo, em http://adeportugal.org/adep/index. php/downloads. Também temos o Curso Básico de Espiritismo, em www.adeportugal.org/cbe. TODOS OS SERVIÇOS ESPÍRITAS SÃO RIGOROSAMENTE GRATUITOS E SEM COMPROMISSOS. Nada como estudar, conhecer, refletir e julgar por si mesma. Sobre magias e encantamentos, podemos desde já dizer que nada dessas coisas tem qualquer efeito, desde que o suposto alvo não se deixe impressionar.
O que provoca o sucesso desses lamentáveis expedientes é o temor que algumas pessoas ainda sentem quando acham que foram vítimas de “trabalhos”. É o próprio que, portanto, causa as suas dificuldades, ao permitir que o medo e a sugestão interfiram com o seu direito de viver em paz e de ser feliz. Quem crê em Deus, no Deus único de Abraão, de Moisés, de Jesus, no Deus omnipotente, justo e bom, não se deixa impressionar por qualquer feiticeiro.
Seria até uma blasfémia estarmos agora com temores dos “vudus” de qualquer pobre ignorante que ainda se compraz e ganha a vida a “fazer mal” a terceiros a troco de pagamentos. Fora com esses temores, portanto!
