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se, no imediato, aqueles de quem o nosso planeta tanto precisa ainda e

Jornal de Espiritismo nº 69 · Dezembro 2015Página 167 min

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E se, no imediato, aqueles de quem o nosso planeta tanto precisa ainda estiverem a aguardar que outros assumam a sua tarefa? O homem entrou na carruagem semivazia com o rosto sério e visivelmente preocupado. Vagueou o olhar por entre os passageiros à procura de vestígios daquilo que o atormentava, parecendo estar na expectativa de algo que teimava em não acontecer. Desalentado, fechou os olhos por um instante e foi desdobrando cuidadosamente o jornal gratuito que mantinha guardado debaixo do braço.

Percorreu o teto da carruagem com o olhar e começou a leitura em voz alta de uma notícia de primeira página. As palavras iniciais saíram enroladas e quase imperceptíveis, como se fosse necessário subjugar uma resistência qualquer para dar voz à sua emoção. Aqueles murmúrios embrulhados fizeram alguns passageiros erguerem-se a custo das amarras de si próprios e descobrir aquele homem, sujo e esfarrapado, de pé ao fundo da carruagem, espécie de tribuno caído em desgraça, de jornal na mão e pronto a discursar.

Ele respirou bem fundo e as palavras surgiram ainda cambaleantes mas com o ímpeto de um vulcão em fúria: - Riqueza dos 1% mais ricos vai superar a do resto do mundo em 2016. O homem ergueu os olhos do jornal para medir os impactos da sua provocação mas recebeu apenas alguns sorrisos trocistas, olhares enfadados e muitas expressões receosas, todos fingiam indiferença desviando o olhar para que não se cruzasse com aquela espécie de louco social que lhes perturbava a viagem com uma notícia gasta e fora de tempo.

Surpreendido por não obter uma resposta à altura do que acabara de partilhar, balbuciou quase entredentes: - Ninguém me ouve? Mas está tudo surdo? E repetiu as gordas garrafais daquele título de jornal que tanto o indignara, desta vez de uma forma mais articulada como se lesse para crianças da pré-primária. E aquela notícia, indecorosa na sua substância em sociedades que se julgam inteligentes e desenvolvidas, era de uma violenta desumanidade ao ser lida pela voz embargada de um indigente perante uma assistência adormecida.

Mal as portas se abriram na estação seguinte, o homem saiu com a mesma inquietação com que entrara, jornal gratuito debaixo do braço, talvez ainda carregando a esperança de encontrar noutras carruagens o que esta não lhe proporcionara. No seu relatório de 2014, os líderes mundiais e os maiores especialistas económicos representados no Fórum Económico de Davos, concordaram que a crescente disparidade entre a riqueza dos cidadãos mais ricos e a dos mais pobres representava o maior risco para o mundo na próxima década.

Mas pouco tem sido feito para combater estas desigualdades. Ouvindo a persistente voz das suas consciências, onde a Lei Natural se encontra esculpida pelo cinzel do mais puro amor, todos os seres humanos são impulsionados por uma secreta vontade de seguirem o caminho certo e participarem na construção de um mundo melhor. Só que, tantas vezes, na hora de serem dados os passos corretos, surgem outras vozes que, gritando mais alto, transformam o clamor da consciência num imperceptível murmúrio relegado à indiferença.

São as vozes da ignorância e do medo, do conformismo e da inércia, da ganância e do poder, os apelos dos instintos e das paixões ainda não dominados que exigem ser satisfeitos e entretêm os Homens na perseguição obsessiva de satisfações pequeninas, tornando-os apáticos e expectantes em relação ao que é essencial. Ainda estamos distantes do tempo em que celebraremos uma sociedade em que o bem prevaleça, sustentada nos princípios da fraternidade, compreensão e respeito pela vida em todas as suas expressões.

Como será possível alcançar esse desiderato? Chegarão Espíritos melhor preparados moral e intelectualmente que ajudarão a elevar o nosso planeta, dizem alguns deixando a batata a ferver nas mãos de quem vier a seguir e desvalorizando a própria responsabilidade. E se, no imediato, aqueles de quem o nosso planeta tanto precisa ainda estiverem a aguardar que outros assumam a sua tarefa? A sociedade em que vivemos é um reflexo de nós próprios: dos nossos medos, implicâncias, interesses próprios e conflitos latentes.

É uma tela gigantesca que despe o que é aparente e coloca a nu as maiores imperfeições humanas. Belas ideias e boas intenções não chegam para mudar a face do nosso mundo. Um novo mundo de regeneração depende da capacidade da Humanidade para construí - -lo e da preparação moral e intelectual dos homens para lhe pertencer. Não é possível erradicar os maiores problemas sociais sem transformar os indivíduos que os provocam.

Como será possível eliminar o egoísmo e o orgulho? O item 914 de “O Livro dos Espíritos” aponta claramente: “Isso depende da educação”. É por isso que a educação transformadora é a maior contribuição que o Espiritismo pode dar à sociedade, abrindo-lhe os seus horizontes para o infinito e libertando-a da visão atrofiada, imediata e egoísta a que esteve desde sempre relegada. Como escreveu Paulo Freire, a “Educação não transforma o mundo.

Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo.” E o primeiro passo em favor da melhoria do mundo é comprometer-se com a melhoria de si mesmo. Ao encetarmos esforços de coerência entre aquilo que somos, o que é certo e aquilo que o Mundo precisa, estaremos a dar passos seguros para mantermos bem vivo o sonho e a esperança de construirmos uma sociedade melhor. O homem do jornal gratuito debaixo do braço andava à procura das mesmas pessoas que esta sociedade precisa: Gente responsável que não permita que os seus interesses pessoais se sobreponham aos mais básicos princípios éticos e à preservação do seu planeta; Pessoas sensíveis e solidárias, sem medo de serem diferentes para agirem e mudarem o que está a precisar de mudança; Homens e mulheres que saibam reconhecer o significado mais profundo da palavra “humanidade” e estejam dispostos a viver novos paradigmas sobre as reais dimensões da vida, dando seguimento à revolução espiritual que o nosso planeta necessita.

As transformações sociais virão logo a seguir. Por quanto tempo mais vamos continuar à espera, fingindo não ouvir este toque a despertar? Carlos Miguel Um Toque a Despertar OPINIÃO foto loucomotiv MARÇO.ABRIL.2015 Obra de 120 páginas que o nosso amigo Jorge Gomes define como “Caderno de notas que toma a forma de livro” e que constitui mais uma contribuição para nos responder de forma clara e pedagógica às “velhas e recorrentes perguntas: Quem somos?

De onde viemos? Que fazemos aqui? Para onde vamos?” O livro está dividido em três partes. Na primeira fala-nos de forma simples e amena, características intrínsecas do Jorge, mas séria, de princípios básicos e fundamentais do Espiritismo. São eles, para lhe darmos uma ordem, a imortalidade da alma (2º princípio) e a comunicabilidade dos Espíritos — a mediunidade (3º princípio). Os sete artigos que integram esta primeira parte estão apresentados de forma didáctica (arte de transmitir conhecimentos) que qualquer pessoa, independentemente dos seus conhecimentos e crenças, pode compreender.

Questões como desencarnação (morte), sintonia mediúnica, experiências próximas da morte, reuniões mediúnicas, etc., são-nos apresentadas baseadas em experiências reais. A segunda parte, com seis artigos, fala - -nos de forma subliminar do 4.º princípio do Espiritismo, a pluralidade das existências (a reencarnação), mecanismo da grande Lei — a Evolução —, a que todos os seres e não só o homem estão sujeitos. O autor mostra-nos um pouco da sua imensa sensibilidade pela Natureza, muito particularmente pelos nossos “irmãos menores” — os animais — que nos ensinam a conhecermo-nos melhor e a respeitarmos reverentemente a obra da Criação.

Questões como o stress e o “bullying”, entre outros contribuem para entendermos a evoluçãoeo patamar em que nos encontramos nessa grande marcha, rumo à perfeição. Na terceira parte constituída por cinco textos, ficamos a saber distinguir conceitos que ainda confundem muitos de nós, como sejam, a distinção entre Espiritismo e movimento espírita; a diferença entre divulgação e comunicação. Ficamos também a saber que concórdia não é o mesmo que igualdade de opiniões, mas sim conciliação de vontades; que a reencarnação é uma ferramenta terapêutica da Evolução, a lei maior da Criação; que o planeta Terra é uma grande escola onde estamos matriculados para aprendermos a rumar para a perfeição.

A propósito, estarão muitos a questionar, qual o 1.º princípio do Espiritismo? Esse princípio é a base primeira de toda a filosofia do Espiritismo, é a existência de Deus, criador de todas as coisas. Como temos milénios de antropomorfismo estratificados no nosso ser temos muita dificuldade em entender Deus como a “Inteligência suprema e causa primária de todas as coisas”. Muitos de nós ainda o confundimos com Jesus. Em todas estas “notas” do Jorge, vislumbramos esse primeiro princípio.

E Jesus? Não é Deus? Não, de maneira nenhuma, é apenas um irmão nosso, portanto, também criatura. O que nos distingue dele é o patamar de evolução em que já se encontra, pois também realizou a evolução que estamos a fazer, por certo em mundos que já se extinguiram, e que também foram conduzidos por Cristos. Segundo os Espíritos Superiores (Q. n.º 625 de LE) é o “Guia de Humanidade em marcha”, que nos legou o roteiro para essa marcha — as lições exaradas no Evangelho.

O livro é prefaciado pela médica-psiquiátrica Gláucia Lima.