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Jornal de Espiritismo nº 70 · Maio 2015Página 75 min

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Atendimento de casos de potenciais suicidas foto arquivo Joana Silva – Dr.ª Gláucia, quando fazemos atendimento a quem nos procura na associação espírita com que colaboramos, aparecem casos de pessoas que se sentem sob pressão para se suicidarem. Alguns até já vieram de consultas de psiquiatria, foram medicados, mas continuam sem entender o que se passa e por vezes reincidem. Que “pressão” é esta? Podemos sofrer esta influência ao ponto de cometer suicídio?

Como podemos ajudar mais nestes casos? Dr.ª Gláucia Lima – Quando falamos de suicídio, não podemos cair no engano de querer “espiritizar”, passe a expressão, todas as situações que chegam à casa espírita com esta sintomatologia. Cabe aqui esclarecer que quando fazemos alusão a ideias de morte, não estamos a falar de ideação de suicídio e nem de tentativas de pôr termo à vida. Na primeira situação, a pessoa, sente um desânimo com a sua existência, falta de vontade de viver, mas não tem uma procura ativa da morte, existente na ideação suicida, restrita ainda ao campo da vontade.

Na tentativa de suicídio, este desejo passa a ação consumada, que pode atingir o seu objetivo ou não. Sabemos que a Depressão é uma das causas que leva as pessoas a pensar no suicídio, mas não é a única causa que leva a que aproximadamente um milhão de pessoas morram por suicídio em todo mundo em cada ano. *2 Segundo a OMS, a taxa de suicídio global é de 16/100.000 habitantes, cerca de 3.000/ dia ou cerca uma pessoa a cada 40 segundos.

E por cada pessoa que se suicida, 20 ou mais tenta suicidar-se, configurando - -se aqui um problema de saúde pública. *1 Não podemos deixar de refletir sobre o facto de que a doença psiquiátrica é um forte fator preditivo para o suicídio, e as estatísticas demonstram que mais de 90% dos pacientes que tentam o suicídio têm uma perturbação psiquiátrica major e 95% dos que cometem têm um diagnóstico psiquiátrico. *2,3 Das perturbações psiquiátricas mais comuns associadas à ideação suicida encontram-se: a depressão, a Perturbação Bipolar, o Alcoolismo ou o abuso de substâncias, a Esquizofrenia, as Perturbações de Personalidade, as Perturbações de ansiedade (pânico, Síndrome de stress póstraumático) e o delirium, mas também há quem o cometa sem patologia do foro psiquiátrico conhecida.

O Suicídio encontra-se entre a 13 causas de morte mais frequentes em muitos países do mundo, segundo os dados da Organização Mundial de Saúde, constituindo ainda uma das três principais causas de morte no grupo etário entre os 15 e os 34 anos e a segunda, entre os jovens numa faixa etária entre os 15 e os 19 anos, a seguir aos acidentes de viação. *2,3 Entende-se que o comportamento suicidário, nomeadamente as tentativas de suicídio com intencionalidade, com frequência são recidivantes, demonstram maior gravidade, podendo atingir o seu intento.

Já os comportamentos autolesivos (vieram substituir o termo para-suicídio das décadas de 1960-1970) normalmente não visam atingir um grau de letalidade, têm como objetivo alcançar mudanças secundárias. Em Portugal encontra-se o padrão etário de suicídio mais idoso de toda a Europa, com uma idade média de 64 anos. Este fator está relacionado com um fator de risco de natureza social reconhecido como muito importante para ocorrência do suicídio: a solidão, o isolamento, a falta de apoio.

Outros fatores de risco reconhecidos são a emigração, o baixo nível socioeconómico, o baixo nível educacional, acesso a meios letais, experiências adversas na infância, história de abuso físico ou sexual, doença mental parental, história familiar de suicídio, perdas importantes (social, laboral, financeira, relacional), doenças físicas incapacitantes, TS prévias, depressão (reconhecido como o fator de risco mais importante, 15-20% morrem por suicídio).

*1 Segundo a OMS, a taxa de suicídio global é de 16/100.000 habitantes, cerca de 3.000/dia ou cerca uma pessoa a cada 40 segundos. Alguns fatores de proteção para o suicídio ou comportamentos suicidários: ter capacidade de resolução de conflitos, iniciativa em pedir ajuda, abertura para novas experiências e aprendizagens empenho num projeto de vida, bom suporte familiar e social, relações de confiança, boa relação com os pares, ter um emprego ou ocupação, acesso a serviços de saúde, sentido de religiosidade e espiritualidade.

*1 Esta sensação de “pressão” psíquica para o suicídio pode ser multifatorial, interna, anímica, fruto das fixações mentais e dos seus processos auto-obsessivos. Muitas vezes, é o indivíduo um reincidente do passado, num comportamento autolesivo, repetindo situações já vivenciadas em outras paragens reencarnatórias e até repetidas por motivos provacionais, por oportunidade de transcendência e evolução nesta vida. Tendencialmente, a pessoa recai nos mesmos padrões de pensamentos e impulsos de desistência e desesperança, já automatizados no seu psiquismo.

As características da personalidade do indivíduo marcam uma maior vulnerabilidade, como grande impulsividade, menor resiliência, fracas estratégias de coping, baixa autoestima, perfecionismo exagerado e rigidez excessiva, que são o contrário da saúde mental. Em outras circunstâncias, poderão aproximar-se desafetos do passado recente ou remoto que, desejando o nosso fracasso, estimulem aquilo que encontram em nós, alimentando pensamentos de morte, ruína, suicídio, ruminações em pensamentos negativos e fixações mentais infelizes que levam a pessoa ao desespero e a passagens ao acto, estimulando o indivíduo a comportamentos suicidários.

Na perspetiva espírita, a prevençãoeo controlo deste problema passam não só pelo tratamento eficaz da patologia mental, quando ela existe, mas por medidas educativas desde criança, na adolescência; medidas ambientais do controlo de fatores de risco; consciencialização da população para a problemática do suicídio e das suas causas; mas sobretudo pela educação espiritual, no sentido do ser imortal, que entende a transitoriedade do sofrimento e da dor, dando uma nova dimensão à vida e ao ser espiritual que somos.

O nosso papel como espíritas é de responsabilização, pois só seremos livres quando formos responsáveis no nosso processo de evolução, quando estivermos cônscios da nossa responsabilidade sobre a nossa saúde e sobre as nossas doenças e do nosso compromisso evolutivo aqui e agora, connosco e com os nossos semelhantes. Podemos ajudar através da orientação dada na Casa Espírita sobre: a importância da higiene mental, da vigilância dos nossos pensamentos, do cultivo dos bons hábitos, da libertação dos vícios, do respeito pelo nosso corpo, da importância da vida e da nossa existência, como oportunidade de crescimento e de evolução.

Para o espírita, o suicídio nunca é uma solução, mas sim um processo de negação da nossa grande oportunidade de crescimento e aprimoramento espiritual, tendo em conta este instante como transitório na imortalidade do Espírito. Notas: *1 (Guerreiro, D.et al. Suicídio. Manual de Psiquiatria Clínica. Ed . LIDEL . Out. 2014. *2 ( Schreiber,J.et al. Suicidal ideation and behavior in adults, Up to date. Fev. 2015. *3 (Saraiva et al.

Suicídio e comportamentos autolesivos). Ed. LIDEL. Nov. 2014. *4 (Saraiva e al. Suicídio e Comportamentos autolesivos). Ed. LIDEL. Fev. 2014. MAIO.JUNHO.2015 Gláucia Lima, psiquiatra e estudiosa da doutrina espírita, dá continuidade a esta secção do jornal e responde a dúvidas agora surgidas.