Atualidade (pág. 11)
Jornal de Espiritismo nº 71 · Junho 2015Página 118 min
grandes jornais diários, como o hoje extinto jornal “O Comércio do Porto” e o ainda existente “Jornal de Notícias”. Ambos os médicos foram fundadores da Federação Espírita Portuguesa, anos depois dizimada pela ditadura. Hoje em dia há até em Portugal várias associações sem fins lucrativos conhecidas como associações médico-espíritas, formadas por médicos e, supomos, outras pessoas com profissão ligada aos serviços de saúde, a exemplo do que ocorre há décadas no Brasil.
Com esta onda, que se generaliza a outras profissões (por exemplo, militares, jornalistas), já que só nos tempos livres pós - -profissionais se ocupam os espíritas destas atividades, encontramos uma entrevista que fizemos antes de haver computador lá em casaera máquina de escrevercom António Ferreira Filho, esculápio que foi um dos fundadores da primeira associação de médicos nos seus tempos livres adeptos do espiritismo do mundo, a AMESP – Associação Médico-Espírita de Estado de São Paulo (Brasil).
Veja como se interessou ele a dada altura da sua vida adulta pelo espiritismo... À conversa com o Dr. António Ferreira Filho Estamos em meados da década de 1980. António Ferreira Filho era na altura vice-presidente da AMESP e a entrevista foi possível graças à gentileza da Dr.ª Maria Júlia Prieto Peres, na Rua Maestro Cardim, em São Paulo, Brasil. Este médico, na altura com 73 anos, hoje obviamente desencarnado, filho de pais europeus (Portugal e Itália), de voz encorpada e tão frontal a responder quanto simpático, era membro honorário da Sociedade Portuguesa de Radiologia, assinalou, pelo facto de saber que o entrevistador é português.
Cursou a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1938, exerceu clínica geral durante 25 anos, após os quais se especializou em gastroenterologia. Era no momento da entrevista radiologista-chefe do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, e já tinha sido presidente do Colégio Brasileiro de Radiologia, dando diversos cursos nessa especialidade. Durante 12 anos foi também presidente da AMESP e, como espírita, colaborou no Grupo Espírita Batuíra, no Brasil.
Faz um reparo: «Batuíra, que nasceu em Portugal, e, na época, como grande espírita que foi, trabalhou muito na causa de libertação dos escravos, no Brasil». A alcunha tem a ver com uma ave habitual em zonas húmidas, que caminha em passos rápidos quando não voa, e cujo género ornitológico é “Charadrius”; o nome vulgar é borrelho, em Portugal. A primeira pergunta que lhe colocámos foi curta: É adepto do espiritismo porquê?
António Ferreira FilhoIsso é uma história meio comprida. Sou de formação católica. Fui aluno de um colégio de padres, interno durante 10 anos. Depois saí do colégio e fui para o Rio estudar Medicina, tendo-me formado em 1938. Depois, em 1954, eu tinha uma irmã que era professora de canto orfeónico, muito católica, crente, que ficou muito doente. Eu estava na Europa nessa ocasião e quando voltei encontrei-a muito doente, com um problema intestinalera um tumor maligno no intestino.
Foi operada e, depois da operação, observou-se que já havia a propagação do tumor para o fígado, pelo que ela viveu mais ou menos mais seis meses depois disso. E, nessa propagação do tumor, sofria muito. Dores, falta de ar, tinha abatido todo o pulmão. Ela disse-me que quando morresse queria ser enterrada por cima do túmulo do meu pai, que tinha morrido em dezembro, ela morreu em abril seguinte. Pediu-me que fizéssemos o túmulo bem fechado para que, quando chovesse, não entrasse água, nem barro.
Prometi-lhe isso e todas aquelas coisas que se prometem nessas alturas. Ela veio a falecer. Foi sepultada com tudo o que tinha pedido e quando se passaram 15 dias, mais ou menos, na minha casauma casa moderna, toda de vidro, não tinha persianasdesabou uma tempestade tremenda, com muitos relâmpagos e trovões. Acordei pela meia-noite com aquele barulhão. Olhei para a porta que dava para o quarto das minhas filhas e vi a minha irmã, à minha frente, a olhar para mim, muito zangada.
Morri de medo! Acordei a minha esposa para ela ver se as crianças estavam a precisar de alguma coisa. A minha esposa passou por ela, foi até lá, e voltou. Quando ela voltou, perguntei: «Não viu ninguém?». E ela: «Não vi, não». É que a minha irmã estava à minha frente, a olhar para mim, muito zangada. De repente, ela desapareceu. Fiquei muito assustado. Pelas 7h00 da manhã toca a campainha de casa. Eu morava num bairro que ficava próximo do cemitério mais ou menos 500 metros.
Fui ver quem era. Era o homem que tomava conta do túmulo no cemitério. Dizia-me assim: «Olhe, Dr. Ferreira, com esta chuva tremenda, o caixão dela foi levado pela enxurrada e ela estava no meio da água e do mato». Fui até lá. Ela estava já meia decomposta, 15 dias depois. Comprámos um novo caixão. A partir desse facto é que me comecei a interessar pelas coisas espíritas. Fui estudando Allan Kardec, fui a sessões espíritas e fui-me integrando bastante.
Depois, também eu tinha uma certa faculdade mediúnica. Comecei a colaborar e fui estudando cada vez mais. Há 14 anos que faço palestras sobre o evangelho num dos centros da Capital. É verdade que um médico que não conhece o espiritismo tem vantagens em informar-se sobre ele? António Ferreira FilhoAcho que o conhecimento doutrinário é muito importante para um médico, mas é muito difícil para um médico com formação materialista aceitar muitas coisas da doutrina.
Principalmente as chamadas cirurgias espirituaisé muito difícil aceitá-las, não é? Porque, em toda essa peregrinação que fiz para conhecer, já vi muita mistificação, já vi muita fraude, vi muita sem-vergonhice. Mas isso não quer dizer que não existam curas verdadeiras. Como médico, digo sempre: eu sou médico, e depois sou espírita. Não posso abrir mão do meu conhecimento científico de tantos anos, com tanta observação de tantos doentes, e largar tudo para abraçar uma teoria que se diz muito boa, em certo aspetoa literatura é grande, mas não é uma literatura muito bem observada, nem muito bem controlada, não fala de um seguimento dos pacientes.
Bom, então é a teoria básica que temos aqui dentro também: procuramos examinar os pacientes, quando há problemas espirituais específicos, especialmente do ponto de vista psiquiátrico, obsessivos, aí sim, a coisa funciona melhor que segundo a medicina oficial. Os métodos desobsessivos são muito razoáveis e melhores para o tratamento da obsessão. A fluidoterapia, o chamado passe magnético, funciona bem, frequentemente, pelo menos na minha observação, em doenças psicossomáticas, sem lesão estabelecida nos órgãos.
Estou a lembrar-me de um rapaz, nosso amigo, que é espírita fervoroso, e apresentou-se com um cancro no pulmão. E ele disse: “Vou fazer o tratamento espiritual (fluidoterapia). “ “- Olhe, pode fazer tudo que quiser, mas você vai fazer radioterapia e vai fazer quimioterapia se for necessário, correto?”. Porque a medicina oficial trata de uma série de coisas muito bem, ela absorve uma série de casos muito bem. Porque é que a gente vai largar o certo pelo incerto?
Incerto, no seguinte sentido: a fluidoterapia e o tratamento espiritual são muito bons, desde que o paciente esteja em condições de recebê-los. Porque existe muito doente que não tem fé e as condições necessárias pera receber o benefício. Então, aconselho sempre a fazer o tratamento médico oficial, que pode resolver muitas coisas; no caso, por exemplo, do cancro do pulmão, pode dar sobrevivência de cinco anos ou mais, dependendo do tipo de moléstia...
porque é que vou eu abandonar todas essas coisas seguras, certas, bem observadas e fazer um tratamento puramente espiritual? É difícil, não é? Seria uma falta de consciência do médico, no meu modo de ver. Então pode-se fazer as duas coisas concomitantemente. Como compreender à luz da doutrina espírita o problema das curas? António Ferreira FilhoBom. A teoria é muito bonita, mas a teoria na prática é diversa, não é? Dizem que todas as doenças são de fundo espiritualeu não aceito muito isso!
A Dr.ª Maria Júlia aceita, vários colegas aceitam. Eu, por mim, acho muito difícil todas as doenças serem de fundo espiritual. Existem muitas doenças que estão dentro da lei de causa e efeito. Mas é que existem vários fatores contingentescontingente é o fator que não obedece a essa lei de causa e efeito. Então, como tratar, por exemplo, uma apendicite aguda, uma úlcera perfurada, se tem várias moléstias que são fatores contingentes?
JULHO.AGOSTO.2015 Por outro lado, tratando-se de doenças, por exemplo, a asma, a bronquite asmática, as moléstias alérgicas, devem ter uma origem lá no passado e provavelmente seriam de origem espiritual, de cunho espiritual. É muito perigoso, e isso nós temos observado aqui os doentes que vão a centros espíritas (mal orientados) que fazem uma consulta espiritual e dizem ao doente: “A sua doença é de fundo espiritual, precisa de tomar passe, fazer isso, fazer aquilo...
”. E o doente perde um tempo enorme, às vezes, e quando vai ao médico está com uma lesão incurável, não é? Acho que a teoria é bonita, importante, mas é preciso alertar o leigo, o não-médico dos perigos de seguir uma rotina deste tipo. Nos centros espíritas os tratamentos espirituais devem ser feitos depois dos pacientes passarem pelo médico, de terem um diagnóstico médico. Essa é a minha posiçãoea melhor maneira de fazer com que os doentes não percam tempo, principalmente no problema do cancro, que e um problema de diagnóstico precoceisso ainda é mais importante!
Nós sabemos hoje que o diagnóstico do cancro, quando precocemente detetado, tem possibilidade de cura muito alta. Os japoneses, por exemplo, em que o cancro do estômago é muito comum, já desenvolveram métodos de diagnóstico muito precoce (doentes com 15 ou 20 anos que foram operados e ficaram curados). Não se pode jogar fora todo esse conhecimento científico, a troco de uma teoria que diz que todas as doenças são de fundo espiritual.
Como médico e espírita, gostava de deixar algumas impressões dirigidas aos médicos portugueses que ainda não conhecem o espiritismo? António Ferreira FilhoDiria apenas o seguinte: a doutrina espírita dá ao médico uma visão mais ampla de todos os problemas humanos, não só do ponto de vista de doenças, mas do ponto de vista humano propriamente dito, relacionamento social, problema de relacionamento no lar. Existem uma série de situações em que o médico pode atuar espiritualmente, através da sua palavra, dos seus conselhos, muito melhor se ele conhecer a doutrina espírita.
Porque somente é médico operante, mesmo que ele saiba um pouco de psicologia médica, se ele tiver um “background” de conhecimento doutrinárioele terá melhores condições para ajudar o doente. E isso é tanto mais importante quanto se compreende que há doenças muito gravesos pacientes moribundos, se o médico tem um conhecimento doutrinário firme, conhece bem o problema da sobrevivência da alma, se ele conhece o problema da reencarnação, então pode auxiliar muito o doente, e se ele tem conhecimento dos trabalhos da Dr.
ª Elisabeth Kubler Ross (EUA), então pode auxiliar mais o doente. Ele será assim um médico excelente, não por ser médico, mas por ser um grande psicólogo, um grande conselheiro da família, como o antigo médico de família que conhecia todos os problemas e era o amigo, o conselheiro da família. Por Jorge Gomes * Parte 1, https://youtu.be/s4C5HSHRhKg e parte 2, https://youtu.
