Editorial / Conto Julho.agosto.2015
Jornal de Espiritismo nº 71 · Junho 2015Página 25 min
EDITORIAL / CONTO JULHO.AGOSTO.2015 Palavras sem contexto bem definido induzem conclusões extraviadas. Extraviadas é pouco, é justo dizer transtornadas. Quanto mal-entendido! Quanta suposição alienada. Pessoa que muito estimamos depois de algum tempo passado deu um olá na rede social. Ausente, respondo depois com simplicidade espontânea, sabedor da absorvência da sua profissão, da exigência de formações pós-profissionais e do seu papel de mãe: «Que bom!
Ainda tens tempo para te lembrares de mim? Vou sabendo de ti por amigos comuns», etc. No dia seguinte a chamada escrita surpreendeu: «Bom dia! Não digas isso que me deixas triste. Claro que me lembro de ti... por favor». Percebi por fim que a mesma frase tinha várias leituras, subjetivas, verdadeiramente opostas à minha, uma delas no caso em jeito de cobrança, o que nunca faria nem em pensamento, mas decerto habitual no mundo em que vivemos.
Expliquei, passou. O que aprender com isso? Ponderar mais um pouco o que escrevo ou venha a dizer. Dá que pensar. Esperar o pior mediante um facto parece ser alerta de sobrevivência construído em muitos milénios. Resvalou para o inconsciente. Reaparece, contumaz. Ter expectativas menores sobre a vida que se constrói em todos os agoras que atravessamos é argamassa que ergue obstáculos entre o mundo interior de cada um e a viabilidade de cada um ser bem mais feliz desde já.
Sem se perceber parece que esperamos ganhar mais vantagens, isto é, evitar malefícios, se somarmos expectativas menores sobre o que se desenrola por fora do ser. E com isso tudo o que de bom nos sustenta a toda a hora fica desclassificado no nosso íntimo, verdadeiramente irrelevante, só porque é abundante. O que abunda e nos faz bem não merece mais valor? Não é bom acordar pela escassez que sobrevenha. É evidente: em poucos segundos inspiramos e expiramos… constantemente.
Abundância maior não há, nem bênção que se lhe assemelhe. Quanta vantagem. Anos a fio, nem damos por isso… seremos mesmo infelizes? É de perguntar a quem tem uma crise de asma. Por vezes dou comigo a pensar que uma dor de dentes que me arrasou há alguns anos nunca mais apareceu. Tenho andado tão bem, que nem me lembro do bem - -estar de que usufruo. É tão abundante o bem decorrente dessa parte do organismo material… a maior parte das vezes nem me recordo que estou ótimo.
Não é razão para agregar à lista mais esse precioso facto? Vou na rua e vejo pessoas que não têm a menor noção de que quando o corpo físico delas tombar elas vão sair e passar a existir na dimensão espiritual, sem beliscão na personalidade. Não saberão de imediato que fazer à vida delas. Algumas entrarão em pânico, ficarão chocadas, outras dar - -se-ão bem, verão quem as vem receber e encaminhar, outras poderão cristalizar por alguns anos em sensações indesejáveis… Tenta-se ir fazendo o que se pode para abrir uma janela de entendimento a quem quiser espreitar por ali.
Porém, quantas vezes me dou conta de como as informações obtidas através da compreensão progressiva da doutrina espírita dão tanta cor e entendimento à vida, mais ainda nas crises próprias desta passagem? A toda a hora, mesmo quando pensamos estar completamente sós, há olhares maiores incondicionais, cheios daquele amor que nada pede em troca, prontos a apoiar quando criamos condições para isso. Por vezes, vem aquele abraço de paz sem fronteiras vibratórias tão palpável como a brisa fresca purificada pelas plantas quando num dia de verão se abre ao alvorecer a janela da sala.
Em qualquer dos planos de vida, mesmo sem sabermos, vivemos numa estrada calcetada de vantagens instaladas pela Vida Maior que cria as condições, por vezes remédios amargos, outras vezes não, para que os capítulos de experiências de amadurecimento se coroem de êxito. Valorizar o que nos sustenta o corpo físico e mais ainda a alma é o primeiro passo para sorrir. Com isso, é mais fluído qualquer exercício de caridade, o amor em movimento.
Posto isto, confiamos-lhe o trabalho desta equipa de colaboradores que fraternalmente fizeram com amor este jornal para si. Texto: Jorge Gomes foto loucomotiv É evidente: em poucos segundos inspiramos e expiramos… constantemente. Abundância maior não há, nem bênção que se lhe assemelhe. Quanta vantagem. Anos a fio, nem damos por isso… seremos mesmo infelizes? A tira de papel A sessão terminara. Armindo pensava, enquanto as pessoas deixavam o salão.
Ali viera pela primeira vez por insistência de amigos que lhe indicaram o Espiritismo como recurso para asserenar-lhe a angústia. Ecoavam nele, ainda, as palavras do orador, moço a brandir verbo firme e brilhante: - A fé em Deus traz a alegria de viver. É sol na alma. Tenhamos confiança e, sobretudo, ajudemos aqueles que não a possuem, confortando os desesperados. Ajudar a alguém é ajudar-nos. Servir é servir-nos... E Armindo cismava: O pregador diz essas coisas, mas não creio que as faça.
É muito moço ainda. Cheio de vida. Quero ver quando chegar na minha idade... 56 anos... Quanta decepção! Quanta dor!... E, meditando, não percebeu que quase todos os circunstantes já se haviam retirado, deixando-o quase só... Armindo levanta-se e vê um montículo de papel sobre a mesa. São pequenas tiras indicando os nomes de doentes que haviam recorrido às orações daquela noite no templo espírita. Brota-lhe uma ideia de súbito.
Apanharia um nome e aplicaria os conselhos ouvidos. Consolaria a alguém necessitado, tentando melhorar a sua própria mente. Toma de um pedacinho de papel e lê nele um nome de mulher, com o endereço respetivo. - Amanhã é domingo – refletiu. – Visitarei essa pessoa pela manhã. Realmente, às oito horas batia à porta de pequena casa, a desmoronar-se em bairro distante. Mocinha triste atende. Armindo pergunta pela mulher indicada.
E a jovem fala baixinho: - Meu senhor, Conceição acaba de desencarnar. Entre, faça o favor. Emocionado, Armindo vê junto a catre paupérrimo duas senhoras humildes compondo o corpo inerte de mulher moça, observadas por duas crianças de olhar agoniado. Depois das saudações, uma das senhoras assinala, discreta: - Era câncer. Descansou, coitada. Há três meses vinha sofrendo horrivelmente. Armindo, consternado, ouviu o esclarecimento.
Nisso, um homem penetra no quarto penumbroso. - É o marido da morta e pai dos meninos – esclarece a senhora, falando de novo. Armindo dirige-se para ele, fazendo menção de cumprimentá-lo, e, extremamente surpreendido, reconhece nele o orador da noite precedente, de olhos molhados, mas de fisionomia tranquila. Por Hilário Silva (Espírito); Waldo Vieira (médium); Livro “Almas em Desfile”. São pequenas tiras indicando os nomes de doentes que haviam recorrido às orações daquela noite no templo espírita FICHA TÉCNICA Jornal de Espiritismo Periódico Bimestral Director: Ulisses Lopes Editor: ADEP Redator: Jorge Gomes Maquetagem: www.
loucomotiv.com Fotografia: Loucomotiv e Arquivo Tiragem: 2000 Exemplares Registado no Instituto da Comunicação Social com o n.º 124325 Depósito Legal: 201396/03 Administração e Redacção ADEPRua do Espírito Santo, N.º 38, Cave Nogueira – 4710-144 BRAGA Assinaturas Jornal de Espiritismo Apartado 161 4711-910 BRAGA E-mail jornal@adeportugal.org Conselho de Administração Noémia Margarido, Isaías Sousa Publicidade Apartado 161 4711-910 BRAGA pub@adeportugal.
org Propriedade Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal ADEP NIPC 504 605 860 Apartado 161 4711-910 Braga E-mail: adep@adeportugal.org http://www.adeportugal.org Impressão Oficinas de S.
