Por entre sacudidelas intempestivas e paragens abruptas, repetia este
Jornal de Espiritismo nº 71 · Junho 2015Página 166 min
chorrilho mental para memorizar os movimentos: “Pé esquerdo vais à embraiagem, mão direita engatas a mudança ao cantinho…” E quando já estava pronto para arrancar alguém lembrava, com alguma razão, que não devia esquecer de pôr os olhos na estrada. Ainda mais essa! Era preciso estar totalmente focado para que nada escapasse. Alguns anos depois, dominada a técnica e criado o automatismo da condução, já ninguém manda o pé esquerdo ir ao pedal da embraiagem, ele sabe o que tem que fazer sem que conscientemente lho indiquemos.
Ao estabelecer modelos de ação que não são questionados de um modo consciente, os hábitos permitem diminuir a ansiedade e o stresse. É como se nos programássemos para agir de uma determinada forma: Perante X Faço Y Para Atingir Z. Esta programação fica tão impregnada no nosso psiquismo através da repetição de um comportamento que, perante a situação X, o inconsciente passa a agir de forma automática sem nos perguntar se o deve fazer.
E ainda bem que é assim porque existem tarefas em que o inconsciente trabalha muito melhor sem uma constante intromissão consciente. Os hábitos fazem parte da nossa vida, são eles que dirigem muitas das tarefas diárias que realizamos de forma automática. Mas nem tudo é cor-de-rosa no fantástico mundo dos hábitos. Resvalar para a rotina é um dos problemas mais frequentes. Ao entregarmos a nossa vida ao piloto automático, robotizamo-la, e embrutecidos pelo tédio, embotados na indiferença pelas subtilezas quotidianas, a rotina vai contagiando não apenas as tarefas diárias como também relacionamentos, emoções e ideias.
Outro problema comum são os vícios e as compulsões, hábitos intensos e muito teimosos que se perpetuam apesar de terem um carácter prejudicial ou inconveniente. A resistência à mudança é outra das consequências para quem se deixa acomodar aos seus hábitos. Os hábitos também nos tornam demasiado previsíveis, o que alimenta uma lógica social, política e empresarial construída em função dessa previsibilidade. E existem ainda respostas emocionais e comportamentais que, sendo repetidas e recalcadas ao longo de tanto tempo, por vezes encarnações sucessivas, transformaram-se em reações mecânicas que limitam a resposta consciente face aos desafios da vida.
É como se estivéssemos condicionados a esses comportamentos tal como o cão de Pavlov, que salivava quando ouvia a sineta que ele associava a uma deliciosa refeição. No caso do cão de Pavlov havia uma resposta biológica condicionada a um estímulo criado pelo cientista. No ser humano, existem comportamentos que são reações automáticas programadas pela experiência e pela nossa história espiritual e que, em algumas situações, dificultam uma relação saudável com a vida: Uma provocação faz saltar o comportamento violento e grosseiro de que fizemos um hábito; Uma contrariedade faz ressurgir as rotinas de vitimizaçãoeo costumeiro estribilho de lamentos; Perante uma discussão de ideias reproduzimos a teimosia e intolerância de conflitos passados sempre que alguém não esteve de acordo com a nossa forma de pensar; Expostos à riqueza solta-se a velha ganância, empurrados para posições de destaque desfraldamos a vaidade e o autoritarismo; Os reparos e as críticas acendem o rastilho do melindre, alimentam os habituais ressentimentos; Diante da desilusão e do fracasso, aniquilamos a auto-estima, perpetuando-se a consumição pela culpa; o egoísmo é um hábito cristalizado durante uma longa história de vidas sucessivas; E impotentes diante da incapacidade para mudar, reproduzimos uma expressão gasta, desenxabida: “O que queres que faça?
Eu sou assim!” Há tanto tempo que repetimos velhos padrões comportamentais e sofremos as suas consequências aqui e do outro lado da vida, não estará na hora de criar novos hábitos? O Biólogo Bruce Lipton, pesquisador da Universidade de Stanford e autor do best-seller ”A Biologia da Crença”, escreveu no seu mais recente livro, “O Efeito Lua-de-Mel”, que usamos a consciência apenas durante 5% do tempo, sendo que de resto estamos entregues a procedimentos subconscientes e inconscientes.
Ou seja, durante a maior parte do nosso dia deixamo-nos dirigir em piloto automático, permitimos que sejam os nossos automatismos inconscientes e subconscientes a determinar a forma como interagimos com a vida fora e dentro de nós. Estaremos bem entregues? Nem sempre. E é por isso que é necessário fazer regressar a consciência às nossas vidas. Urge aumentar a atençãoea disponibilidade para compreender emoções e pensamentos, para conquistar uma maior lucidez na percepção dos comportamentos mais adequados, para sermos mais livres na escolha daqueles que mais nos beneficiam e dos que se aproximam das leis naturais que regem o mundo e a vida.
Não há dúvida que é necessária uma grande dose de esforço e vontade para transformar velhos hábitos. Tal como quando aprendemos a conduzir, nos primeiros tempos vai ser preciso dirigir pessoalmente o foco da nossa atenção, suster reações condicionadas em ebulição, recordar técnicas para sublimar emoções perturbadoras, mas, chegará o momento em que, de tanto repetirmos hábitos mais saudáveis, eles passarão a fluir de uma forma tão natural como as mudanças na caixa de embraiagem de um piloto de competição.
Dizem que velhos hábitos nunca morrem mas isso não é verdade. Sendo certo que o homem é um animal de hábitos, a história da sua evolução moral e intelectual fez-se e far-se-á sempre à custa de velhos hábitos desajustados, constantemente transformados pela força do progresso. Por Carlos Miguel Velhos hábitos OPINIÃO foto loucomotiv Recorda-se das primeiras vezes que conduziu um carro? Eu lembro-me bem: concentração no limite, o pé esquerdo não perdia de vista a pedaleira da embraiagem, e era preciso sincronizar a primeira mudança com um cheirinho de acelerador, soltando o pé da embraiagem como uma suave expiração.
Os hábitos fazem parte da nossa vida, são eles que dirigem muitas das tarefas diárias que realizamos de forma automática. Mas nem tudo é cor-de-rosa no fantástico mundo dos hábitos. JULHO.AGOSTO.2015 Foi com surpresa e, ao mesmo tempo, alegria, que lemos «Uma História Luso - -Brasileira» do amigo e confrade de ideal espírita, Paulo Alexandre Baía Mourinha. Trata-se de um trabalho de investigação histórica, na continuidade dos trabalhos pioneiros de Manuela Vasconcelos, que nos resgata a História do Movimento Espírita Português, mas agora referente à vida e obra de portugueses que emigraram para o grande País do hemisfério sul e que se revelariam como eméritos seguidores do legado do fiel discípulo de Jesus — Allan Kardec.
Paulo Mourinha apresenta-nos a vida de 18 espíritas desconhecidos nos meios espíritas nacionais, como sendo portugueses, com excepção do grande médium espírita de Loures, Fernando de Lacerda, muito conhecido, que também emigrou para o Brasil, devido a perseguições da pequenez humana. Com esta investigação ficamos a saber que o já célebre benfeitor “Batuíra” foi um transmontano humilde, de seu nome verdadeiro, António Gonçalves da Silva, nascido no lugar de Vila Meã, freguesia de S.
Tomé do Castelo, concelho de Vila Real. Ficamos também a saber que a Federação Espírita Brasileira foi fundada pelo fotógrafo alfacinha António Augusto Elias da Silva (1848-1903), no dia 2 de Janeiro de 1884. Elias da Silva emigrou para o Brasil no ano de 1862, altura em que Allan Kardec trabalhava incansavelmente na elaboração do Codificação do Espiritismo, tendo já publicado as bases inamovíveis da terceira revelação: O Livro dos Espíritos (1857) e O Livro dos Médiuns (1861).
Tornou-se espírita em 1881 e dois anos depois, já com convicções espíritas sólidas, funda no dia 21 de Janeiro de 1883 a revista «Reformador» no Rio de Janeiro, que no ano seguinte passaria a ser o órgão oficial da FEB, também por ele fundada como vimos. Esclarecemos que a revista «Reformador» está entre os periódicos mais antigos do Planeta, sempre com publicação regular mensal e quinzenal (num determinado período), atingindo hoje a linda idade de 132 anos.
