Editorial / Conto Setembro.outubro.2015
Jornal de Espiritismo nº 72 · Maio 2015Página 25 min
EDITORIAL / CONTO SETEMBRO.OUTUBRO.2015 Neste mês de setembro começa uma mão-cheia de cursos básicos de espiritismo pelo país fora. Alcobaça, Caldas da Rainha, FEP, S. João de Ver, Porto, Barcelos, Braga… irão abrir turmas, tudo grátis. É forçoso «dar de graça o que de graça se recebeu». Alguém dirá: e dá diploma no final? Não precisa de complicar! Não é, nem será profissão: é coisa de tempos livres, pós-profissionais, o que não diminui em nada o teor de responsabilidade, com pedido certeiro de coerência progressiva entre o que se diz e o que se faz.
Se vive na ilusão de que a vida após a morte do corpo físico ou a reencarnação são sonhos conturbados de quem vive no mundo da lua, vai poder tirar o cavalinho da chuva. Os factos são estuantes, vivos, sucessivos, reveladores. Quem faz o curso com competência percebe isso. Contudo, também não será difícil vislumbrar que informar-se não é necessariamente saber. É um primeiro passo para tanto? Sim, porque não? Quando alguém se informa fica na posse de dados.
Examina-os, ora duvida e fica ancorado, ora esclarece e passa ao item seguinte. Mas nem aí o assunto se conclui – pode assimilar, mas não entender. Quando entende pratica. Pode nem começar a 100%, mas pouco a pouco, conseguiu aplicar a 20%, que bom! Muitas vezes, em diversas oportunidades, essa quantidade de eficiência é melhor que um solitário ensaio de 100%, à maneira de oásis no deserto. Tudo depende. É verdade que para quem sabe o que quer, os cursos agregam muita informação, que se pretende seja passada de forma acessível e interessante.
Depois, assenta tudo num processo de entendimento e trabalho. Não falamos de Por cinco dias Mais de seis lustros passaram. Francisco Teodoro, o industrial suicida, experimentara pavorosos suplícios nas trevas... Defrontado por crise financeira esmagadora, havia aniquilado a existência. Tivera vida próspera. À custa de ingente esforço, construíra uma fábrica. Importando fios, conseguira tecer casimiras notáveis. E o trabalho se lhe desdobrava, promissor.
Operários e máquinas eficientes, armazéns e lucros firmes. Surgira, porém, a retração dos negócios. Humilhavam-no cobranças e advertências, a lhe invadirem a casa. Frases vexatórias espancavam-lhe os ouvidos. - Coronel Francisco, trago-lhe as promissórias vencidas. - Sr. Francisco, nossa firma não pode esperar. O capitão de serviço pedia mais tempo; apresentava desculpas; falava de novas esperanças e comentava as dificuldades de todos.
Meses passaram pesadamente. Cartas vinagrosas chegavam-lhe à caixa postal. Devia a credores diversos o montante de 800 contos de réis. A produção, abundante, descansava no depósito, sem compradores. Procurava consolo na fé religiosa. Por toda a parte, lia e ouvia referências à Divina Bondade. Deus não desampara as criaturas – pensava. Ainda assim, tentava a oração, sem abandonar a tensão. E porque alguém o ameaçava de escândalos na imprensa, com protestos públicos, em que seria indiciado por negociante desonesto, escreveu pequena carta, anunciando-se insolvível, e disparou um tiro no crânio.
Com imenso pesar, descobriu que a vida continuava, carregando, em zonas sombrias de purgação, a cabeça em frangalhos. Palavra alguma na Terra conseguiria descrever-lhe o martírio. Sentia-se um louco encarcerado na gaiola do sofrimento. Depois de 30 anos, pôde recuperar-se, internando-se em casa de reajuste, reavendo afeições e reconhecendo amigos... E agora que retornava à cidade que lhe fora ribalta ao desespero, notava, surpreendido, o progresso enorme da fábrica que lhe saíra das mãos.
Embora invisível aos olhos físicos dos velhos companheiros de luta, abraçou, chorando de alegria, os filhos e os netos reunidos no trabalho vitorioso. E após reconhecer o seu próprio retrato, reverenciado pelos descendentes no grande escritório, veio, a saber, que acontecimento importante sucedera cinco dias depois dos funerais em que a família lhe pranteara o gesto terrível. À face da alteração na balança comercial do país, ante a grande guerra de 1914, o estoque de casimiras, que acumulara zelosamente, produziu importância que superou de muito a 4 mil contos de réis.
Mostrando melancólico sorriso, o visitante espiritual compreendeu, então, que a Bondade de Deus não falhara. Ele apenas não soubera esperar... Livro: Ideias e Ilustrações, Francisco Cândido Xavier (médium), Hilário Silva (Espírito). serviço remunerado – falamos de atividade útil, como explica «O Livro dos Espíritos» no ponto sobre a lei do trabalho enquanto lei da natureza. Em essência tudo continua a funcionar assim: há os muitos que entram no movimento espírita e ficam por aí; outros muitos há que fazem isso e deixam que os conteúdos luminosos do espiritismo sejam interiorizados de alguma maneira, e pensam que nada mais há a fazer; há ainda os poucos que fazem essas duas partes e concluem-na com uma terceira, deixando a doutrina espírita sair de si, nas próprias atitudes do dia a dia, em atitudes essencialmente auto-iluminativas, fazendo-se melhores pessoas, mais preocupadas em dar do que em receber – estes preocupam-se claramente menos com a sua reputação do que com a sua própria consciência.
Recordam, além das muralhas do próprio tempo e da geografia das suas experiências no roteiro das vidas sucessivas, o alvitre altissonante da Espiritualidade – “sem amor no coração não há olhos para a luz.” Se vive na ilusão de que a vida após a morte do corpo físico ou a reencarnação são sonhos conturbados de quem vive no mundo da lua, vai poder tirar o cavalinho da chuva. Mostrando melancólico sorriso, o visitante espiritual compreendeu, então, que a Bondade de Deus não falhara.
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