História
Jornal de Espiritismo nº 72 · Maio 2015Página 83 min
Portugal: as “mesas girantes” em 1853 revelações inéditas sobre os primórdios Os anos de 1848-1849 foram, nas palavras de Eugénio Nus, a “fase de incubação do espiritualismo moderno, o futuro espiritismo na Europa”. Em Março de 1853 os primeiros missionários americanos da nova “fé positivista” desembarcavam na Escócia e Inglaterra, sobraçando uma profusão de livros, brochuras e revistas sobre o fenómeno. Portugal não escapou à fascinante proposta que desembarcara no litoral do Norte europeu na Primavera de 1853.
A assimilação da modalidade das “mesas girantes” no catálogo do divertimento dos estratos burgueses nacionais dessa época não desvanece ou anula, por variados exemplos recolhidos, a continuidade das sessões de magnetismo animal, em prática desde há uma década nos usos e costumes da cultura popular urbana. No “Jornal do Povo”, folha portuense, topámos o primeiro sintoma daquilo que se tornaria numa febre, uma virose incontrolável e cujo meio de propagação preferencial era o jornal e o passa-palavra.
O dia 19 de Maio de 1853 fica marcado pela primeira informação sobre os incríveis efeitos da “cadeia magnética” – título da notícia – sobre uma peça de mobiliário tão comum e vulgar – a mesa. O exemplo vem da Alemanha e da França onde a curiosa experiência era já atração principal dos convívios. Consistia “em colocarem-se umas poucas de pessoas em volta de uma mesa de madeira, pousando sobre ela as palmas de mãos, de maneira que o dedo mínimo da mão esquerda de uma pessoa assente sobre o mínimo da direita de outra, e assim por diante até acabar o turno.
Estas pessoas permanecem assim por algum tempo, sem desanimarem, porque ao cabo a mesa lá começa a girar, quase indistintamente ao princípio, depois mais depressa, e por fim com tal rapidez que é de pasmar! É mister que a mesa tenha o menos metal possível”. Em Lisboa, o café do napolitano António Marrare, no Chiado, tornar-se-ia no “ponto de encontro de todos os elegantes e homens superiores de Lisboa” – como testemunha Passos Manuel e Sousa Bastos confere.
Ali SETEMBRO.OUTUBRO.2015 Em Lisboa, o café do napolitano António Marrare, no Chiado, tornar-se-ia no “ponto de encontro de todos os elegantes e homens superiores de Lisboa” – como testemunha Passos Manuel e Sousa Bastos confere. convergia uma seleta freguesia, como Herculano, Bulhão Pato, Garrett, José Estevão, tal como outras elites geracionais o fariam nas décadas seguintes. O mesmo sucedeu com o Grémio Literário, câmara de ressonância do nosso Romantismo fundado por alguns dos luminares, já citados, em 1846, votado à “cultura das letras e ilustração intelectual”.
Ou seja, os salões mais nobres do ambiente cosmopolita transformam-se em palcos de acolhimento inicial das surpreendentes “mesas girantes”. Na imprensa da capital, no mesmo dia 19 de Maio, A Revolução de Setembro coincidia com o recém-chegado fenómeno de êxtase coletivo para definir desde logo o interesse científico do problema. José Maria Latino Coelho, engenheiro militar, jornalista, par do Reino, deputado, ministro da Marinha, lenta da Escola Politécnica de Lisboa e secretário perpétuo da Academia Real das Ciências, assinava um longo texto em que analisava a novidade importada da Europa, via EUA.
Além das considerações teóricas sobre o estado da arte do magnetismo, e da sua relação com as “mesas dançantes”, Latino Coelho revela-nos preciosas notas acerca da intervenção da “intelligentzia” nacional nessas emocionantes experiências. (Excerto da obra de Joaquim Fernandes, “História Prodigiosa de Portugal. Magias & Mistérios” (Vila do Conde, Verso da História, 2015).
