Entrevista
Jornal de Espiritismo nº 72 · Maio 2015Página 95 min
Entes queridos: perdas e ganhos A algumas delas não foi possível responder no tempo disponível, pelo que, estando escritas, foram entregues aos expositores dos diversos temas. O tema “Entes queridos: perdas e ganhos” também teve interpelações. Ana vive no subúrbio de Lisboa. Indagou: «O meu pai, que não é espírita, oferece alguma resistência a ajudas vindas deste meio. Vive em função da perda de minha mãe, que aconteceu o ano passado.
Vive em sofrimento, (…) quase preferindo acreditar que minha mãe é apenas a cinza dentro de um pote que ele possui e controla. Como poderei ajudá-lo?». JorgeBom dia, Ana. Fizeram-nos chegar a pergunta. Colocou-a nas Jornadas de Cultura Espírita, onde estivemos a apresentar o tema «Entes queridos: perdas e ganhos». Como as demais apresentações está disponível em vídeo no canal da ADEP no Youtube. Lida a sua questão, compreende-se perfeitamente a pertinência da mesma.
Compreende melhor que eu que seu pai viveu décadas em comum com a sua mãe, cuja partida chegou em altura ditada pelas leis maiores que regem a nossa evolução. Não havia volta a dar, não é? Sobre a sua mãe, o que temos de certo é que é sempre bom recordá-la com paz e alegria, a fim de que ela prossiga a caminhada evolutiva no Plano Espiritual, onde também nunca falta oportunidade de ajudar o próximo. E o seu pai? Está no momento dele.
Isso também vai passar. Em situações como essa, sabe Ana, costuma vir à mente o ciclo de quatro momentos das borboletas que vemos aí a voar. Ovo, lagarta, crisálida e por fim o inseto esplendoroso com asas de voo. Não existe o ovo para voar nem para comer plantas. Para isto tem de ser primeiro lagarta. Ao olhá-la ninguém diria que virá a ter asas e eventualmente percorrer milhares de quilómetros, se for espécie migradora.
Primeiro tem de parecer que morre, faz-se crisálida. Nessa imobilidade externa, muda tudo no seu organismo, até que ganha asas que estica para voar e reproduzir-se. Com este exemplo, queremos dizer que cada um de nós, o seu pai também, passa por fases interligadas de entendimento, que têm de ser completadas de forma ordenada, para que as seguintes tenham lugar. Tantas vezes conversamos no intuito de ajudar Espíritos que nem perceberam que já estão na vida espiritual há anos, e que a receiam como um terreno novo que não sabem pisar.
O final de cada fase associa uma crise, uma verdadeira ponte para o momento seguinte. Esses momentos são bivalentes. Pertencem a Deus e ao próprio indivíduo. Por isso, resta amar seu pai. O melhor que lhe pode oferecer é o seu exemplo de entendimento e amor, já que ele, e nós próprios em tempo certo, seremos chamados à nossa origem, esperamos que com um respaldo razoável de bons sentimentos concretizados no dia a dia e aprendizado adquirido.
Procure ficar tranquila. Não há força maior que a do amor. A vida chamará o seu pai com a suavidade possível a um novo entendimento a médio prazo. Espero ter ajudado de alguma maneira. Estamos certos de que todos caminhamos, há tanto, tanto tempo, mesmo sem sabermos, numa estrada chamada amor. “Ele já aceitou que está noutro plano?” Outra pergunta resulta ainda das mesmas jornadas de Cultura Espírita e reflete a preocupação de muitas pessoas pelo mundo fora.
M.F. questionou: «Só após dez anos de casada nasceu o Paulo. Aos 19 anos desencarnou em dez minutos vítima de atropelamento. Com a gestação fui mãe 20 anos; pelo caminho dois abortos espontâneos… hoje teria 30. Porquê a mim que tanto quis ser mãe? Mas acima de tudo: como posso saber se o Paulo está bem? Ele já aceitou que está noutro plano? Passaram 11 anos desde esse dia… obrigada.» JorgeBom dia, M. F. Li a sua questão e creio compreender o que lhe vai no coração.
Quando se trata de um filho é ainda mais forte, não é? Na perda que vai passando e nos ganhos que se solidificam desde a infância. Recorda, M. F.? Embalar ao colo em bebé, dar o biberão, a canção de ninar, a carita suja das brincadeiras no quintal, os primeiros passos, as primeiras vezes que chamou por si, as conversas doces de menino, e por aí fora. Nada se perdeu. Tudo continua... no eterno bem. Faça por reter as memórias boas, para que a sua dor vá descaindo paulatinamente e seja substituída por sentimentos que se fazem ondas vibratórias de carinho a alentar o filho que continua a amá-la na Vida Maior.
Na verdade, não lhe sei dizer como estará ele. Quem sabe está mesmo bem? É natural. O que podemos apontar é que, num ou noutro caso, a atitude deve ser a mesma. Nas suas preces, lembre-o com carinho, nos tantos momentos felizes que teve com ele. Se no dia a dia o recordar, como é normal ocorrer, exclua o mais possível os pensamentos de sofrimento, pois são momentos passageiros da caminhada evolutiva rumo a melhores horizontes de amor e sabedoria.
O talento que nos resta reter nessa vivência é o de não nos fixarmos tanto no desgosto, substituindo a nossa atenção natural nesse ponto pela compreensão da continuidade da vida, de um reencontro que Deus venha a permitir não quando nós queremos, mas quando se tornar possível. Sabe que o fenómeno mediúnico é como outro fenómeno qualquer. Requer a ocorrência de diversos requisitos factuais que se conjuguem para se tornar possível a sua produção.
Por outro lado, face a circunstâncias do nosso passado, que não é bom lembrar para já, surgem essas compensações de consciência com desencarnações em plena juventude. Deus sabe, e não cessa de amparar. Quanto às tentativas “frustradas” de ser mãe, não se iniba pela circunstância presente. Mais tarde, quando subir à montanha figurativa que lhe permitirá ver o vasto caminho recentemente trilhado das vidas sucessivas, perceberá que tudo afinal fazia sentido.
Quando parecemos impossibilitados de ter filhos, podemos sempre amar os filhos dos outros como se fossem nossos. Por vezes, podemos adoptar. Quem o faz afirma que é igual a ter filhos biológicos. Porém, quando se faz isso, é caminho de um sentido só, não dá para voltar atrásehá exigências de muito amor que não vergam. Esta passagem terrena é breve, por isso urge ser bem aproveitada e isso passa pelo controlo de nós próprios no que pensamos e no que sentimos.
Não basta viver, é bom amar. Veja as flores dos campos que não só se fazem lindas para atrair os insetos que potenciam as sementes e frutos, como também espargem doces odores. Espero ter ajudado de algum modo. Foram inúmeras as perguntas colocadas pelo meio milhar de pessoas presentes nas Jornadas de Cultura Espírita, que decorreram em 1 e 2 de maio, em Caldas da Rainha. foto UL Tantas vezes conversamos no intuito de ajudar Espíritos que nem perceberam que já estão na vida espiritual há anos, e que a receiam como um terreno novo que não sabem pisar.
SETEMBRO.OUTUBRO.2015 Tantas vezes conversamos no intuito de ajudar Espíritos que nem perceberam que já estão na vida espiritual há anos, e que a receiam como um terreno novo que não sabem pisar.
