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Jornal de Espiritismo nº 72 · Maio 2015Página 104 min

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A Nô conduzia o carro naquele fim de tarde entre duas cidades próximas. Íamos a caminho de uma conferência na associação espírita da vizinhança. O sol ia lindo, meio dourado, naquele dia de abril, a pousar no horizonte. Parecia dizer que apesar da noite que chega voltará certeiro, num novo alvorecer. A meu lado, escutei: «Já ouviste falar do Charlie, Charlie?». Lembrei-me da história de França, do cartoonista abatido, e dos supostos criminosos aparentemente, segundo as notícias, também resolvidos à força de tropa e bala.

Desengano: «Não! É um jogo que os miúdos fazem nas escolas, anda aí uma nova moda!». Ah! É um sucedâneo do famoso jogo do copo. Coisa da criançada, cheia de curiosidade e ignorância quanto baste. Fui saber, adulto que desconhece é mesmo assim. Meti-me com o oráculo, que hoje leva o nome de Google, e percebi que incluía lápis, as palavras sim e não escritas num quadrado, tudo tido como fantástico e eventualmente, se for o caso, algum tipo de fenómeno de efeitos físicos.

Uns brincam outros levam a sério. É caso para isso. O fenómeno recria-se por ilusionismo, mas pode também ser autêntico. Em “O Livro dos Médiuns”, de Allan Kardec, toda esta fenomenologia está enquadrada, quando existe de facto, na categoria dos fenómenos Efeitos físicos: cuidado com o copo! Ao longo dos anos o assunto é recorrente. Aí vem mais uma vez o e-mail com dúvidas de jovens estudantes que descobrem a ADEP pela internet com sede de informação sobre a brincadeira em que se meteram com os amigos, e que os assustou – o jogo do copo.

E, agora, mais do mesmo, mas com lápis e o nome Carlitos pronunciado em língua estrangeira… de efeitos físicos. Faria muito bem a essa maltinha, dependendo das idades, frequentar ora a reunião semanal de infância ou juventude numa associação espírita ou, se já tiver mais de 15 ou 16 anos, um curso básico de espiritismo, onde se estuda quanto baste a escala espírita, constante de «O Livro dos Espíritos», de Allan Kardec, e onde se percebe que os chamados Espíritos são apenas pessoas sem corpo físico e não os supostos semideuses imaginados pelo vulgo, havendo os levianos e os esclarecidos, sendo que estes últimos não perdem tempo com futilidades.

A resposta da mesa Recordo que há pouco mais de duas décadas, durante umas breves férias no Algarve, uma amiga próxima me convidou a participar numa reunião privada na associação espírita da cidade em causa. O fenómeno tem a mesma natureza do que referimos acima e passo a descrever aquilo a que assisti plenamente consciente, e com pessoas conhecidas de inteira confiança. É verdade que depois dos muitos anos passados, pode haver um ou outro pormenor menos rigoroso, mas o que aconteceu foi mais ou menos dentro disto.

Estava na pequena sala eu, a dirigente da associação, minha boa amiga, e outra senhora apenas. Percebi que era uma reunião habitual normalmente feita só com duas pessoas, depois do jantar. Encontrávamo - -nos os três sentados, tranquilos, a uma simpática mesa de pé-de-galo. No tampo da mesa tinham sido colocados vários pequenos papéis que continham diversos casos apresentados por pessoas que pediam ajuda nesta associação espírita.

Como se sabe, este tipo de associação nada cobra, nem aceita, pelas suas atividades, e visa apenas ajudar dentro do possível as pessoas que as procuram. Depois de uma singela prece fraterna, conforme sugerido, colocámos tranquilamente as mãos espalmadas sobre o tampo da mesa. Apenas isso. Depois, um primeiro nome foi lido e a dirigente indagou aos Espíritos esclarecidos orientadores da reunião se a pessoa em causa seria caso de natureza espiritual ou material, para ser conduzida adequadamente.

Dependendo da resposta a mesa deveria inclinar-se uma vez, ou alternativamente duas vezes seguidas. Nunca tinha assistido presencialmente a este fenómeno que data das reuniões próprias da segunda metade do século XIX. Fiquei curioso. Será que a mesa ia mesmo mover-se? Bem, não consegui manter dúvidas. Estávamos os três conscientes, de olhos abertos, a sala com luz, com os braços descontraídos sobre o tampo da mesa, e esta reagia com movimentos determinados às perguntas colocadas.

Ainda pensei – será que algum de nós está inconscientemente a criar o movimento da mesa? Olhei os rostos tranquilos, relaxados, das outras duas pessoas. A intenção de todos era mesmo estar com os braços meramente pousados, sem movimento. Senti - -me tentado a impedir discretamente que a mesa se inclinasse e para tanto usei a força dos meus braços. Fiz isso, mas não adiantou nada. Não insisti. Continuei a assistir ao decurso do trabalho que deve ter demorado menos de uma hora.

Terminou tudo como começara, em perfeita paz. Não admira por isso que por vezes – estando criadas as condições necessárias – alguns destes grupos de jovens estudantes enfrentem factos que os põem em alerta e os podem impressionar negativamente. Estes fenómenos, quando existem, resultam da manipulação de determinados fluidos de natureza semimaterial que cedemos, mesmo sem sabermos, a entidades espirituais, que podem ser esclarecidas ou não, ter maus ou bons propósitos, e que conseguem assim agir sobre objetos materiais.

Em “O Livro dos Médiuns”, de Allan Kardec, toda esta fenomenologia está enquadrada, quando existe de facto, na categoria dos fenómenos de efeitos físicos. Com o tempo, no movimento espírita, os fenómenos de efeitos físicos de que falámos passaram a ser substituídos pelos chamados fenómenos de efeitos intelectuais, como a psicofonia (“incorporação”) e a psicografia (escrita mediúnica), por exemplo, muito mais produtivos e expressivos em termos de comunicação entre planos de vida.

Tornou-se até comum a ideia de que os fenómenos de efeitos físicos estariam mais adequados à ação de Espíritos menos esclarecidos, mais ligados à matéria, sem que estes tivessem, inobstante, a exclusividade dessa característica. Depois da codificação do espiritismo, em meados do seculo XIX, surgiu a metapsíSETEMBRO.OUTUBRO.