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Literatura / Vídeo

Jornal de Espiritismo nº 74 · Janeiro 2016Página 174 min

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LITERATURA / VÍDEO Obras Póstumas (Allan Kardec) JANEIRO.FEVEREIRO.2016 Quando os Anjos Falam James é um rapaz de 12 anos que se debate para ultrapassar a morte da mãe num acidente de automóvel quando ele ainda era uma criança. A sua revolta latente é expressa numa rebeldia forçada que tem como principais alvos os que lhe são mais próximos. Não encontrando no pai a disponibilidade para falar sobre o que sente, James não consegue expressar a dor que lhe cobre o peito e o vazio que a ausência da mãe lhe provoca, prolongando um processo de luto, de trauma e de culpa que parece mais intenso do que aquilo que ele consegue suportar quando tem que regressar à casa de praia dos pais, local do fatídico acidente.

É através de uma das suas deambulações para explorar a inóspita região que James conhece Maddy, uma velha misteriosa e solitária que os vizinhos se habituaram a não incomodar. Apesar de a relação não começar da melhor forma, James e Maddy vão intensificando uma improvável amizade, partilhando cada vez mais tempo e segredos mútuos. A mulher revela-se uma ouvinte atenta e consegue compreendê-lo para lá dos seus atos de rebeldia.

Por seu lado, James é um antídoto para a solidão de Maddy, tornando-se o confidente ideal para que ela possa partilhar um fato extraordinário: Há muitos anos que ela recebe mensagens do seu filho, morto na guerra do Vietnam, e que lhe vem relatando em textos belíssimos as sensações que vai experimentando do outro lado da vida. A relação entre os dois protagonistas, tão diferentes em idade mas tão próximos no trato e compreensão das respectivas dificuldades, é baseada na fé da vida após a morte, mostrando-nos como a certeza dessa realizada pinta a vida de tons mais coloridos.

À medida que James vai lendo as mensagens do filho de Maddy, vai adquirindo uma convicção cada vez mais segura de que a morte não existe e de que a sua mãe se encontra viva, reconquistando assim uma luz própria que surpreende a todos. Este é um filme delicado e comovente, uma preciosidade que se vai escondendo dos olhares do grande público, mesmo daqueles que apreciam a temática espiritualista. É uma pena que isso aconteça.

As enevoadas paisagens agrestes da Nova Escócia oferecem uma representação perfeita para o estado de espírito dos dois protagonistas, a história é envolvente e encantadora, os atores são de primeira linhaVanessa Redgrave e Ray Liotta são os cabeças de cartaz mas todos os atores são extraordinários -, os textos são belíssimos e a mensagem é universal. Escrito e realizado por Peter O’Fallon, “Quando os Anjos Falam” foi romantizado a partir de uma história real relatada no livro “O Teu Filho Vive – Mensagens de um Soldado para a sua Mãe”, encaminhado de forma anónima para uma editora em 1918.

Soube-se depois que tinha sido redigido pela escritora americana Grace Duffie Boylan e que o soldado da história era Bob Bennet, o filho que foi para a Europa combater na 1ª guerra mundial. Desde miúdo que Bob tinha um interesse especial por telegrafia e persuadiu a mãe a aprender código morse. Passavam horas a interceptar mensagens e a tentar descodificá-las. Pouco tempo depois dele ter sido destacado para França, Grace recebeu uma carta do filho.

Quando estava a iniciar a sua leitura, começou a receber uma mensagem no telégrafo: “Atenção! Mãe, prepara-te. Eu estou vivo e continuo a amar-te. Mas o meu corpo está com milhares de outros filhos perto de Lens. Passa esta informação a quem puderes. É horrível sentir a vossa aflição sem podermos dizer-vos que estamos bem. Esta é uma forma desajeitada. Vou ver se arranjo algo mais simples. Ainda estou confuso. Bob” Um mês depois, Grace recebia uma notificação oficial a comunicar a morte do filho.

Nas mensagens seguintes, ele continuou a explicar à mãe as sensações que estava a experimentar e começou a encorajá-la a experimentar a psicografia já que, segundo dizia, era mais fácil fazer passar a mensagem por aquela via. Ele referiu que iria projectar os seus pensamentos nela como se fosse um ditado mas era preciso que ela tivesse cuidado com os “malandros”, espíritos travessos que gostam de criar confusões. As mensagens são de uma beleza e elegância raras, preenchendo de luz temas normalmente tão obscuros como a morte e a vida na espiritualidade: “A alma sai do corpo como um aluno deixa a escola: de repente e com alegria”.

O realizador Peter O’Fallon aproveitou da melhor forma a sensibilidade e delicadeza destas mensagens na descrição do mundo espiritual e conseguiu contar uma história de esperança e amizade sobre o drama da perda sem cair na superficialidade nem no sentimentalismo. Título Original: A Rumor of Angels | Realizador: Peter O’Fallon | Elenco: Vanessa Redgrave, Ray Liotta, Catherine McCormack, Trevor Morgan | Duração: 95 min.