Opinião Janeiro.fevereiro.2016 (pág. 16)
Jornal de Espiritismo nº 74 · Janeiro 2016Página 169 min
OPINIÃO JANEIRO.FEVEREIRO.2016 Novas de alegria – 8 O reino do Criador uno, total, infinito, é reino de vida, amor, VERDADE também totais, sem limite. Porquê então não o fruirmos logo? Porquê a necessidade de implorá-lo? Por causa da ILUSÃO e ERRO em que nos induzem os sentidos e as “lentes” ancestrais duma consciência demasiado centrada na matéria, com a qual percecionamos desfocadamente a “realidade” que nos cerca.
Há cerca de dois milénios e meio, o filósofo grego Anaxágoras afirmou aquilo que intuía: “o que vemos reflete o que não vemos; o que vemos não é, o que não vemos é”. E em 1916 o autor da teoria da relatividade demonstrava cientificamente: “aquilo que temos como realidade é mera ilusão, ainda que ilusão persistente”. A aparente realidade, que em contínuo realimentamos na mente, confunde o discernir, separa-nos temporariamente da verdade ontológica do SER.
Esta subjaz a tudo no Universo, mas, no nosso atual ponto evolutivo, apenas a captamos em rasgos ocasionais de inspiração, intuição, que geram progresso. A verdade eterna, libertadora (referida por Jesus, sumo pedagogo da HumanidadeJoão 8:32), emana do SER total, da harmonia absoluta do “reino de Deus”. Quando presente na consciência, liberta-a do erro e suas inibições, produz milagres de toda a ordem (não apenas de saúde).
“Milagres” - para a curta visão materialista e mecanicista da racionalidade humana, não para a potencialidade infinita da natureza divina em nós. Voltando a Einstein, o génio afirmava poder-se encarar a vida de duas maneiras: considerando tudo milagre, ou que nada é milagre. Tanto podemos ver um incrível milagre no singelo germinar duma semente, na delicadeza e funcionalidade perfeita duma folha vegetal, ou duma pena de ave, como podemos ver em tudo isso ocorrências banais da Natureza.
Ansiar deveras o reino de Deus subtrai - -nos ao predomínio do aparente, supera o imediatismo falaz da nossa componente material. Estimula o despertar da consciência para a Verdade e sentido da vida, libertando-a de falsas limitações e impotências quotidianas, tornadas realidade por nós mesmos no devir do processo evolutivo. Motivados diretamente pelo ensino ao vivo do divino Amigo, os primeiros cristãos faziam “milagres” de cura pela oração.
O mesmo voltou a acontecer a partir do século 19 nas modernas igrejas pentecostais, empenhadas em reviver o cristianismo original e o seu peculiar carisma de cura. Admirável e tenaz pioneira, Mary Baker Eddy (1821-1910) após três anos de estudo bíblico e meditação intuiu o mecanismo espiritual da sua cura milagrosa e criou a Faculdade de Metafísica de Boston, para formação de professores-sanadores da sua “Igreja de Cristo, Cientista”; esta acumula hoje um amplo historial de milagres documentados, em todo o mundo.
O Espiritismo, “cristianismo redivivo” na expressão lapidar do espírito Emmanuel, também desde o início regista esses fenómenos. De referir ainda Emiliano Tardif, destacado sacerdote canadiano dos “grupos carismáticos”, na Igreja católica; eram notórios e públicos os milagres que ocorriam durante a missa por ele celebrada, em inúmeros países que visitou. Quanto à ciência convencional, apesar do arreigado vezo materialista do seu paradigma, está hoje menos alheada da realidade objetiva dos “milagres”.
Por exemplo o Dr. Herbert Benson, professor de Harvard, é conhecido pelo seu livro “Timeless Healing” (1975) e outros, traduzidos em Português, assim como por simpósios, na década de 90, onde reuniu cientistas e representantes de correntes religiosas para debaterem o mais do que comprovado potencial terapêutico da fé. Jesus de Nazaré, que não veio à Terra para operar curas prodigiosas, fê-las profusamente e exortou os discípulos a imitarem - -no.
O Espiritismo, tendo-O por modelo e guia, também não veio como medicina alternativa; não vocacionado para erigir dogmas, sim para estudar as leis naturais da Criação, não menospreza a cura. Tem - -na por fruto lógico de momentos duma intensa vivência espiritual e não ignora a exortação do Bom Pastor: “Ide…pregai o Evangelho… curai os enfermos…”. Buscar o reino de Deus, da harmonia das leis fundamentais da Vida e do Universo, afiniza-nos com os seus dinamismos benfazejos: energias do bem, de realização, de sucesso, de toda a ordem de milagres dentro ou fora de religiões.
O prestigioso teólogo padre Carreira das Neves (Academia das Ciências) assevera no livro Saudades de Deus: “As ansiedades do mundo em que vivemos não se resolvem apenas pela ciência. Os dogmas das religiões institucionalizadas cansam as pessoas, que, ávidas, contudo, de transcendência, se voltam para outras formas de espiritualidade. Por isso surgem continuamente novas formas de viver a cultura espiritual, seja a partir da contemplação da natureza, por um lado, ou dos dados mais recentes da astronomia científica e da física quântica, por outro”.
Escutemos de novo Stephen Hawking: os filhos dos nossos filhos entenderão como bom senso o que hoje é visto como “paradoxos da teoria quântica”. Por João Xavier de Almeida “Procurai primeiro o reino de Deus e a Sua justiça, tudo o mais se vos dará por acréscimo”, ensinou o Bom Pastor no sermão do monte; e incluiu nas petições da sublime oração dominical: “venha a nós o Teu reino”. foto arquivo Buscar o reino de Deus, da harmonia das leis fundamentais da Vida e do Universo, afiniza-nos com os seus dinamismos benfazejos: energias do bem, de realização, de sucesso, de toda a ordem de milagres dentro ou fora de religiões Mary Baker Eddy Em 1890, ano seguinte à inauguração do ex-libris de Paris — a Torre Eiffel — para a comemoração do primeiro centenário da revolução que marcaria indelevelmente a história da humanidade, surgiam nos escaparates das livrarias de Paris os derradeiros escritos do Codificador do Espiritismo, pelas mãos de Pierre-Gaëtan Leymarie.
As «Obras Póstumas» que fazemos referência no presente artigo são as de tradução de Sylvia Mele Pereira da Silva (2ª edição -1979) ou de João Teixeira de Paula (12ª edição – 1998), que foram publicadas pela LAKE-Livraria Allan Kardec Editora, hoje integrada na FEESP-Federação Espírita do Estado de São Paulo. Destacamos esta edição, não apenas por ter uma introdução extraordinária do professor José Herculano Pires (1914-1979) intitulada «Notícia sobre o livro», mas também por estarem a ela acrescidas 139 notas explicativas e três observações do saudoso Professor, que constituem autênticas pérolas doutrinárias e históricas que nos enriquecem sobremaneira a nossa cultura espírita.
Informamos que existem várias ilustrações das capas nas diversas edições da LAKE. Gostaríamos de esclarecer que existem outras traduções de qualidade, como seja a do engenheiro Guillon Ribeiro (1875-1943), antigo presidente da Federação Espírita Brasileira, que durante várias décadas esteve disponível, e ainda o está para quem a deseje adquirir, mas não possuem quaisquer notas explicativas. No início do século, em 2002, surge a 1ª edição do CELD-Centro Espírita Léon Denis – Editora, Rio de Janeiro, de tradução de Maria Lucia Alcantara de Carvalho, que possui algumas curtas notas de rodapé.
Mais recentemente, a FEB-Federação Espírita Brasileira, apresenta-nos em 2009, uma bem cuidada edição de Evandro Noleto Bezerra com uma Nota de Esclarecimento na abertura, intitulada «O cuidado de Allan Kardec na publicação de seus textos» que nos leva a algumas reflexões sérias, nomeadamente como foram escolhidos os textos que Allan Kardec ainda não tinha publicado e que iriam integrar as «Obras Póstumas». Esta tradução contém 29 notas da autoria do tradutor, da editora e ainda da editora original francesa, estando ainda enriquecida de um índice geral com cerca de 450 verbetes e a indicação das páginas respectivas onde os poderemos encontrar ao longo da obra.
As «Obras Póstumas» estão divididas em duas partes distintas. A primeira parte constituída por diversos trabalhos que os seus discípulos foram publicando na Revista Espírita, após o passamento do Codificador, dos quais destacaríamos o «Estudo sobre a natureza do Cristo», dividido em nove pequenos capítulos, que nos esclarecem objectivamente quem na realidade era o Cristo, que as religiões cristãs confundem e baralham, ao afirmarem que Jesus é Deus e que faz parte duma trindade (Pai, Filho e Espírito Santo).
Infelizmente não temos visto, ao longo dos anos, referências a este notável estudo e pesquisa de Kardec, que dirime muitas dúvidas ainda existentes na mente de muitos espíritas. Este trabalho sobre Jesus, o Cristo, tem por base, única e exclusiva, o Novo Testamento. Allan Kardec não inventa nada, pois tudo está registado há quase dois milénios. Nesta primeira parte, destacamos também os trabalhos inseridos na rúbrica «Questões e problemas», da qual citamos o estudo intitulado «As expiações colectivas», que são racional e doutrinariamente bem esclarecidas; e, «As aristocracias», artigo que nos mostra o processo da evolução política das sociedades humanas.
A segunda parte, nunca antes publicada, desvenda-nos relatos íntimos do Codificador desde os seus primeiros contactos com o Mundo dos Espíritos e a cronologia das mensagens dos Espíritos que o acompanharam na elaboração das obras fulcrais da Codificação Espírita, da criação Revista Espírita e da fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Podemos ler aqui as informações dos Espíritos a respeito do seu retorno à Terra para completar a sua obra.
Notícias que viriam a gerar muita polémica no futuro. A primeira informação, muito íntima, conforme podemos ler o texto completo intitulado pelo Codificador de «Primeiro Anúncio de uma nova Encarnação» é datado de 17 de Janeiro de 1857, três meses antes da publicação de «O Livro dos Espíritos». Tal comunicação foi recebida em casa do Sr. Baudin, por uma das meninas Baudin. Passamos apenas o seguinte extracto: «Nesta existência só verás a aurora do sucesso de tua obra.
Será preciso que voltes, reencarnado em um novo corpo, para completar o que tiveres começado, e terás então a satisfação de ver em plena frutificação a semente que tiveres espalhado na Terra» (Espírito Zéfiro). A segunda informação é datada de 10 de Junho de 1860, ou seja, sete meses e cinco dias antes da publicação de «O Livro dos Médiuns» (15 de Janeiro de 1861). Foi ditado pelo próprio Espírito «A Verdade», em sua casa, pela médium Sra.
Schmidt. Registamos a passagem do seguinte diálogo de Kardec com «A Verdade»: «Continua a agir com prudência e circunspecção. Fica em guarda contra as ciladas que te armarão. Evita cuidadosamente, em tuas palavras e nos teus escritos, tudo o que possa fornecer-lhe armas contra ti. Prossegue em teu caminho sem temor, e, embora seja ele semeado de espinhos, afianço-te que terás grandes satisfações antes de voltares por um pouco entre nós.
P. – O que quereis dizer com estas palavras: por um pouco? R. – Não ficarás muito tempo entre nós. É preciso que voltes para terminar tua missão, que não poderá ser concluída nesta existência. Se fosse possível, não partirias de maneira alguma, mas é preciso que nos sujeitemos à lei natural. Ficarás ausente por alguns anos e, quando retornares, será em condições que te permitam trabalhar desde logo. No entanto há trabalhos que será útil terminares antes de partir, e por isso te deixaremos o tempo necessário para os concluíres.
» Mais tarde, o seu grande amigo, Dr. Demeure, de Albi, agora já desencarnado, vem, igualmente, no dia 2 de Fevereiro de 1865 confirmar positivamente que teria que voltar para completar a sua obra. Poderemos ver e analisar esta informação na quarta obra básica da Codificação — «O Céueo Inferno» (1 de Agosto de 1865), 2ª parte – capítulo II – Espíritos felizes. Herculano Pires (1914-1979), a respeito destas informações diz-nos que a Espiritualidade Maior cancelou o retorno do Codificador porque os homens ainda não estariam preparados, por imaturidade, para compreender e dignificar o próprio trabalho da Codificação, pois eram muitos os desmandos dos espíritas que se seguiram à partida de Kardec até aos dias actuais.
