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Opinião Janeiro.fevereiro.2016 (pág. 15)

Jornal de Espiritismo nº 74 · Janeiro 2016Página 155 min

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OPINIÃO JANEIRO.FEVEREIRO.2016 Às provocações e elaborações intelectuais dele, eu contra-argumentava com o meu estudo e reflexões. Até que me questionei: qual é o pilar do Espiritismo sem o qual nada do que eu diga lhe fará sentido? E a resposta veio de imediato: Deus, um dos princípios fundamentais da doutrina espírita. Sem a compreensão e aceitação da existência de Deus, a minha argumentação entrava num beco sem saída para ele enquanto esse amigo ganhava forma de elevar o nível de sarcasmo.

Então, caro leitor, para compreender o todo a que a doutrina espírita se refere, o ‘primeiro passo’ é a aceitação e compreensão da existência de Deus, sem o qual o conhecimento de tudo o que existe não é possível. Repare que, como alerta «O Livro dos Espíritos», não somos ainda capazes de compreender a natureza íntima de Deus, mas sim a sua existência. E isso é possível, também mas não só, através da lógica, da observação e da rendição às evidências.

Imagine, então, que do barro vê vários tipos de peças: potes, jarros, chávenas, tachos, tampas, etc. São vários os objectos que se podem fazer a partir do barro. Se eu tiver dois potes de barro na minha mão, são dois objectos diferentes, certo? Mas se contar apenas o barro, há apenas um. Ou melhor, só existe barro. Mesmo que segure três potes, o barro continua a ser um. Se eu lhe perguntar o que tenho na mão, o leitor provavelmente responde: um pote.

Mas eu digo que tenho barro. Então, eu pergunto-lhe: qual é o peso deste pote que tenho na mão? Qualquer que seja a sua resposta, esse é o peso do barro. Na verdade, eu seguro um pote que não tem peso e que eu não posso tocar, pois o que toco é o barro, o que seguro é o barro, o que pesa é o barro. Agora, eu pergunto-lhe: “Onde está o pote?” E o leitor responde-me: “O pote está no barro”. Como é que pode estar no barro?

Se estivesse, eu deveria ser capaz de retirá-lo como retiro uma flor que esteja no pote. Ou seja, o pote não pode estar no barro porque no barro só existe barro. Então, o pote não está no barro nem ‘nasce’ do barro. A ‘magia’ é: ainda que não exista um objecto para a palavra pote, continuamos a ter potes e jarros de onde vertemos água. Por isso, ainda que o pote seja apenas barro e não tenha existência própria sem o barro, o pote existe como uma forma apenas.

Então, a possibilidade de se fazerem potes com barro não é, por si só, um atributo do barro. Mas se eu entendo que o pote é feito de barro, eu entendo todas as formas feitas com barro. Isto acontece porque tudo o que existe é o barro, o resto são formas. Assim, se existe uma única coisa da qual tudo proveio, através da qual tudo é sustentado, para onde tudo regressa, e se essa coisa é entendida, tudo o mais também o é.

Tudo o resto torna-se, pois, um atributo dessa única coisa. Este ‘tudo o resto’ inclui o nosso corpo, mente e sentidos. Se percebermos isto, ainda que vagamente, essa é a condição necessária e suficiente para começarmos o estudo do Espiritismo; esse brilho é suficiente para originar uma chama que deseja mais (auto)conhecimento. O Evangelho e o Espiritismo falam sobre essa coisa única que origina tudo o resto (Deus) e da nossa relação com ela.

O que ganhamos em termos de conhecimento é algo para o qual o Espiritismo é um meio de conhecimento, uma ferramenta. Mas o leitor pode perguntar.... “- Consegues provar-me que isso do Espiritismo me vai dar esse conhecimento?” “-Sim, posso provar”. “-E qual é a prova?” “-Não podes pedir uma prova para um meio de conhecimento. Tens de usar, aplicar esse meio de conhecimento para provar que ele é, de facto, um meio de conhecimento”.

Por exemplo, imagine uma pessoa que nasceu cega e que nunca pôde ver. Porém, ela descobre que essa cegueira pode ser corrigida através de uma cirurgia. A pessoa é operada e, no fim, o médico vem e remove a venda que tapava os olhos usada para a recuperação. Diz, então, ao paciente: “Agora abra os olhos”. E o indivíduo responde: “Doutor, não vou abrir os olhos”. “Porquê?”, pergunta o médico, espantado. “Prove-me primeiro que os meus olhos vão ver e só aí eu abrirei os meus olhos.

Suponha que eles não vêem, vou ficar muito desiludido. Por isso, tem de me provar que os olhos vão ver”. Como é que o médico pode provar isto? Não existe prova, pois os olhos são, por si mesmos, o meio de conhecimento para a percepção visual. Para saber se um meio de conhecimento funciona ou não, temos de o usar. Não existe outro caminho. Como disse Emmanuel: “A vida é sempre um tecido da Divina Sabedoria”. Esta compreensão implica um processo de inquirição íntima e a negação de todos os possíveis significados errados.

Dessa forma, a existência de Deus revela-se tão evidente como a luz do dia. “O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Embora seja a menor de todas as sementes, quando cresce é a maior das hortaliças e torna-se árvore, a tal ponto que as aves do céu se abrigam nos seus ramos” (Mateus, 13:31-32). E lembremos: “O homem que julga infalível a sua razão está bem perto do erro.

Mesmo aqueles cujas ideias são as mais falsas, se apoiam na sua própria razão e é por isso que rejeitam tudo o que lhes parece impossível” («O Livro dos Espíritos», introdução). É preciso ainda observar “os modelos de decadência intelectual e reflectir com sinceridade na paz que se deseja intimamente. Isso constituirá um auxílio forte em favor da extinção dos desvios da inteligência” (Emmanuel/ Chico Xavier, «Caminho, Verdade e Vida»).

Texto: Filipa Ribeiro Imagine, então, que do barro vê vários tipos de peças: potes, jarros, chávenas, tachos, tampas, etc. São vários os objectos que se podem fazer a partir do barro. Se eu tiver dois potes de barro na minha mão, são dois objectos diferentes, certo? Espiritismo: por onde começar? Ano novo, estudo novo e a base da doutrina espírita. A certa altura, tive de repensar a estratégia. A troca de emails com um amigo ateu e decidido a contradizer as obras de Allan Kardec de uma ponta à outra já durava há um par de anos.