Crónica
Jornal de Espiritismo nº 75 · Março 2016Página 94 min
Questões de justiça Estas e outras dúvidas dificultam o entendimento de que Deus possa permitir que alguém sofra, até porque um pai sabe bem o quanto custa ver os seus filhos passar por dificuldades. Mas então que Justiça é esta que dificilmente aceitamos como justa? Se partirmos do princípio de que Deus, o Pai Criador não é juiz, talvez seja possível obter uma resposta. Sucintamente é assim que entendemos as questões da justiça: porque o homem ainda erra, próprio do seu orgulho e egoísmo, se fez necessário a aplicação das penas em conformidade com o incumprimento das leis.
As leis estabelecem os limites da sua atuação, enquanto cidadão e participante de uma comunidade, garantindo assim a segurançaea paz no Mundo. Quando o homem não cumpre, é punido – faz-se justiça! E quem vai julgar se o senhor A foi ou não cumpridor com a lei? O juiz. O juiz, também humano e por isso sujeito às mesmas dificuldades, é quem vai decidir o futuro do senhor A. E por vezes “erra”, e o senhor A julgado culpado é na verdade inocente na causa.
Por isso falamos de injustiça quando a justiça “falha”. Ora o ato de julgar o outro exigiria que o julgador fosse de tal modo imparcial, de tal modo perfeito na sua análise, conhecedor da Verdade, que nunca haveria sentença senão a absolutamente justa. O que, como já referimos, não acontece, na opinião dos homens. Mas porque não há homens moralmente perfeitos, e como tal, não há juízes perfeitos deve-se deixar de julgar aqueles que perturbam a paz e a harmonia terrestre?
Obviamente que tal seria impensável. Precisamos de leis, assim como precisamos de juízes para as fazer cumprir. O réprobo deve ser punido pelo mal que fez aos outros. Então se são precisos juízes, mesmo que por vezes errem na avaliação que fazem, e se tanto os culpados como os inocentes sujeitos às mesmas penas, passam pelo castigo, seja ele uma simples repreensão ou uma medida privativa da liberdade, e que esse “castigo” visa a sua reabilitação, de que forma podemos avaliar se há ou não justiça?
Ou melhor, quem pode avaliar se “foi feita” justiça? O assunto é complexo porque nem sempre o incumpridor – aquele que comete uma infração ou um crime – é aos olhos de Deus um transgressor da verdadeira justiça. Por outro lado, nem sempre o que os homens consideram como norma é para Deus uma Lei divina. Vejamos por exemplo o disposto normativo relativamente ao aborto: o Código Penal (art.º 142º) permite a interrupção da gravidez até às 10 semanas, por opção da mãe.
Convém referir que essa opção depende exclusivamente da sua vontade e decisão sem quaisquer restrições. Assim, é legal, nestes e noutros casos previstos naquela norma, provocar a morte do feto que sabemos ser uma alma prestes a começar uma nova vida. Mas para o bebé que morre sem ter a oportunidade de nascer, deu-se uma enorme injustiça! E para Deus, o nosso Criador, será este um acto lícito ou um crime? Sobre o mesmo podemos aferir, noutras circunstâncias, que o consumo do tabaco e ouQuando pensamos na possibilidade de sermos filhos de um ser Criador, as primeiras questões que nos ocorrem são as relacionadas com a Justiça: porque uns são “ricos” e outros “pobres”; porque alguns assassinos ficam sem castigo e outros inocentes são presos; porque uns nascem com um corpo perfeito, e outros sem membros, sem capacidades cognitivas de interagir com o mundo; porque há paz constante em certos países e guerra permanente noutros… MARÇO.
ABRIL.2016 tras substâncias tóxicas é permitido pela lei dos homens, porém, sabendo que dá origem à morte prematura do corpo físico, levando o homem ao suicídio lento, não será para Deus um desrespeito das leis universais? E que dizermos sobre aqueles que cumprem rigorosamente com as regras em sociedade, com as suas obrigações para com o Estado, que nunca infringiram a lei, mas que porém oprimem e violentam na intimidade a família e os que são chegados?
E se de repente, um cidadão desconhecido roubar – ninguém duvida que é crime perante a lei – alimentos para não morrer à fome, ou para prover à família? Será este acto condenado por Deus? Julgamos que não. Para entendermos as questões de justiça, há que entender Deus. E como vamos entender Deus, perguntam-se, se Deus de tão perfeito tem “razões que a própria razão desconhece”? Entender Deus, é conhecer - -lhe a vontade, percebendo que não há injustiças no Mundo.
Partindo desde princípio de que não há injustiça, então tudo o que acontece ao homem é justo, e tudo o que não o parece ser é apenas incompreensão da vontade divina. Ademais, a própria consciência que o homem tem, inata, do que é o Bem e do que é o Mal, também dá origem à compreensão que pela repetição do erro, nasce o sentimento de amor que destrói a vontade de praticar o mal. Como nos disseram os espíritos, o sentimento de justiça é natural 1 , porém o “falso ponto de vista”, próprio das paixões humanas, podem alterar esse sentimento e deturpa-lo.
Por saber que assim é, Jesus esclarece a questão: “Bem-aventurados e fartos os que têm fome e sede de justiça.” (Mateus, Cap. V, Vers. 6. O que por outras palavras significa que aqueles que creem e confiam na justiça de Deus, não ficarão decepcionados porque a justiça de Deus é perfeita. 1 Kardec, Allan, “O Livros dos Espíritos”, pergunta 873 Texto: Regina Figueiredo Ora o ato de julgar o outro exigiria que o julgador fosse de tal modo imparcial, de tal modo perfeito na sua análise, conhecedor da Verdade, que nunca haveria sentença senão a absolutamente justa.
