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Jornal de Espiritismo nº 75 · Março 2016Página 135 min
Em “Alice no País das Maravilhas”, o Coelho Branco está sempre cheio de pressa, olha de forma compulsiva para o relógio e aflige-se porque se encontra invariavelmente atrasado. Saído da imaginação do escritor britânico Lewis Carroll há 150 anos, ainda hoje o Coelho Branco corre contra o tempo, acelera o ritmo dos seus passos para acompanhar a urgência das horas mas o tempo parece cada vez mais curto. É uma imagem familiar, não é?
Fazemos parte de uma cultura em que o imediato é imprescindível e em que tudo tem de ser produtivo e otimizado. Já nem temos tempo para refletir sobre o caminho que nos trouxe até aqui. Ninguém chega ao mundo de mãos vazias. No corpo transporta a herança genética dos seus progenitores mas também a história biológica dos antepassados e de toda uma evolução orgânica que os paleontólogos estimam que dure há cerca de 3,5 mil milhões de anos.
O ambiente cultural é resultado de conquistas civilizacionais que o homem alcançou ao longo de milhares de anos de progresso contra as formas mais esdrúxulas de ignorância. Na sua alma, carrega uma bagagem recheada de virtudes e conflitos acumulados em experiências passadas que vão ficando esbatidas na memória dos tempos, a que junta planos e promessas de tudo o que aspira ainda alcançar. Tudo isto exigiu muito tempo, foi um prolongadíssimo processo de maturação e de espera pelas condições adequadas para se consolidar no que é hoje.
Deus não tem pressa. A sua sabedoria incorpora a infinita paciência de um jardineiro que aguarda pelo tempo propício para o desabrochar das suas flores. Ama-se alguém pelo que é, em suas imperfeições, em seus conflitos, em suas vocações do ser, ou então não se ama de todo. Não temos tanta paciência assim. A nossa capacidade para entender a vida é limitada e julgamo-nos capazes de apressar, ludibriar até, os mecanismos que sustentam todo o universo.
Na educação não é diferente. Uma criança é uma força ativa e pensante, uma personalidade forjada pelos vincos do tempo que escolhe, exige, argumenta, contraria e influencia o mundo à sua volta. Ela não pode ser moldada como quem cinzela uma escultura, uma vez que responde às condições que se lhe apresentam e aos estímulos que surgem de acordo com um sentir próprio que vai sublimando aos poucochinhos, impregnando a vida com algo de si mesmo como se colocasse a sua marca, a sua assinatura.
A educação deverá ajudá-la a manifestar de forma equilibrada as suas potências de vida, transmitindo-lhe o que ela necessita para sustentar o seu desenvolvimento saudável, prepará-la para a autonomia e responsabilidade da vida adulta e impulsionar o crescimento espiritual. Mas a educação não se compadece com automatismos. Para educar é preciso ter tempo mas também compreender o tempo do outro. As pressas na educação privilegiam tanto o utilitarismo como uma refeição apressada dá preferência ao pronto a comer.
Sem tempo, o outro é idealizado a partir do que gostaríamos que ele fosse. Pretende amar-se alguém que poderá surgir no futuro. No entanto, o verbo amar não pode ser conjugado em tempos futuros ou condicionais, ama-se no presente indicativo. Ama-se alguém pelo que é, em suas imperfeições, em seus conflitos, em suas vocações do ser, ou então não se ama de todo. Um dos quadros mais comoventes que ocorrem nas reuniões mediúnicas pertencem àquelas mãezinhas que, diante de um espírito endurecido pelos seus conflitos íntimos, vêm-lhes dar o seu testemunho de ternura e compreensão.
Mães que nalgumas situações os embalaram em encarnações tão distantes mas que nunca os deram como perdidos, aproveitando qualquer oportunidade para tocá-los no fundo das suas dores com a incondicionalidade do seu amor. Por vezes, só elas são capazes de Um Tempo para o Amor o fazer. Todo o tempo e amor dedicado aos nossos filhos não os tornarão invulneráveis, a vida não os poupará à sua dose de dor. Por vezes apenas poderemos ser espectadores da vida dos nossos filhos.
Mesmo os adeptos mais entusiastas, por melhor apoio e estímulo que possam dar à sua equipa, não podem lutar por ela nem suar por ela. Sofremos com os nossos filhos mas não conseguimos sofrer por eles. Se não os podemos moldar nem os conseguimos enclausurar numa armadura à prova de dor, resta-nos a tarefa de os preparar bem nas diversas dimensões que a vida lhes apresenta. É preciso que aprendam a enfrentá-las, saibam vencê-las ou aceitem viver com as dificuldades integrando-as nas suas vidas.
Para o fazermos, é indispensável tempo para conhecer melhor os nossos filhos. Como eles pensam e o que eles pensam. Não é possível educar alguém pelo Skype ou pelo Youtube, é preciso estar lá, olhar nos olhos, sentir a dúvida, tocar a dor, a dificuldade, dar a mão, o braço, o colo, é preciso tempo para criar confiança, tempo para compreender, para entender a singularidade daquele ser que está à nossa frente, para conseguirmos orientar a educação de acordo com as suas especificidades.
Educar com tempo e amor não é só dar carinho, é também saber zangar-se quando é preciso, frustrar e intransigir no que é inadmissível, desapontarmo-nos e mostrá-lo quando tiver mesmo de ser, mas não fazê-lo por nós, não pelas nossas ilusões, expectativas ou frustrações, é fazê-lo por aquele que amamos por sabermos que é disso que ele precisa. No clássico livro do escritor Francês Saint - -Exupery, a raposa diz ao Principezinho: “Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que fez a tua rosa tão importante”.
Quando nos sentimos importantes na vida de alguém, verdadeiramente amados pelo que somos, os benefícios para a auto-estima e bem-estar são extraordinários. A certeza do amor é um tónico insubstituível nas nossas vidas. As dificuldades ficam mais pequeninas quando caminhamos ao lado de alguém que nos ama. Amar não é uma obrigação a que a paternidade nos empurra, ou algo que saia da boca para fora ou para consumo de redes sociais.
Amar é a vontade, a disponibilidade, é o tempo que entregamos àquilo que consideramos mais importante. Amar é o tempo que investimos em dar um pouco mais de nós em benefício de alguém. Não existindo amor sem dedicação nem dedicação sem tempo, apressado como anda, conseguirá o Coelho Branco amar verdadeiramente? Carlos Miguel foto arquivo MARÇO.ABRIL.
