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Atualidade (pág. 11)

Jornal de Espiritismo nº 76 · Abril 2016Página 117 min

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O curso básico de espiritismo dinamizado pela Associação de Divulgadores de Es- piritismo de Portugal conta com mais um caderno que analisa as afinidades entre a doutrina espírita e a ecologia. Para muitos poderá parecer estranho. Mas a verdade é que o espiritismo é uma doutri- na transversal a inúmeras áreas de conhe- cimento. Por que deveria ser diferente em relação à ecologia e ao ambiente? Será de alegar a transitoriedade da vida humana para focar apenas os temas clás- sicos do movimento espírita, normalmente intemporais, e fazer por ignorar o contex- to sistémico, interdependente, em que vi- vemos enquanto Espíritos encarnados no planeta Terra?

É de defender que o que importa é a vida espiritual e que o enquadramento da vida material é menos relevante como se os re- cursos naturais fossem inesgotáveis e não tivéssemos obrigações face ao seu uso sustentável que, quem sabe nós próprios em gerações vindouras, esperam que faça- mos no presente? Na verdade, sem consciência ambiental significativa a Terra dificilmente deixará de ser um planeta de provas e expiações tão cedo, demorando a passar paulatinamente ao degrau seguinte, o de planeta de rege- neração.

A vida humana – e todas as experiências vivenciais riquíssimas que a ela se ligam – depende dos recursos naturais que, se se pensava até há um par de séculos que se- riam praticamente inesgotáveis, hoje, face à aldeia global em que se tornou o planeta, percebe-se não ser assim. Um autor da bibliografia espírita, André Tri- gueiro, jornalista, professor e escritor, expli- ca em relação ao espiritismo e à ecologia que «são muitas as afinidades existentes entre essas duas áreas do conhecimento que surgiram na mesma região do plane- ta há aproximadamente 150 anos, e que hoje despertam interesse e curiosidade crescentes.

Espíritas e ecologistas utilizam a visão sistémica para defender a biodi- versidade, o uso sustentável dos recursos naturais, o consumo consciente, a prima- zia dos projetos coletivos em detrimento do individualismo». Vamos abordar sumariamente nestas páginas referências doutrinárias, dados ecológicos e algumas hipóteses de enten- dimento, no pressuposto de que o espiritis- mo é uma doutrina que suscita dos seus adeptos não tanto exercícios teóricos mas, muito mais, atitude.

Espiritismo e ecologia Se não sabia vai ficar a saber – espiritismo e ecologia são dois sistemas de conheci- mento que surgem ombro a ombro na his- tória da humanidade. A doutrina espírita – ou espiritismo – surgiu em 18 de abril de 1857 em Paris, França, com a publicação da primeira edição de «O Livro dos Espíritos», de Allan Kardec. Esta forma de ver a vida valoriza a forma como o Espírito se comporta na vida material e, de modo particular, desenvolve num en- tendimento específico a teoria das vidas foto adep sucessivas articulada com uma lei de cau- sa e efeito que vigora sem descanso na natureza.

Por sua vez, a palavra ecologia aparece uma dúzia de anos depois, em 1869, atra- vés do naturalista alemão chamado Ernest Haeckel, que «usou pela primeira vez este termo para designar o estudo das relações entre os seres vivos e o ambiente em que vivem». Curiosamente, ecologia é uma palavra que «tem origem no grego “oikos”, que significa casa, e “logos”, estudo. Logo, por extensão, seria o estudo da casa, ou, de forma mais genérica, do lugar onde se vive».

Hoje entende-se que «ecologia é a ciência que estuda o meio ambiente e os seres vivos que vivem nele, ou seja, é o estudo científico da distribuição e abundância dos seres vivos e das interações que determi- nam a sua distribuição. As interações po- dem ser entre seres vivos e/ou com o meio ambiente». Liga-se, por isso, à ideia de biodiversidade, uma palavra que quer dizer diversidade da vida, algo de que depende sobremaneira a sobrevivência do ser humano na dimensão material da sua vida na Terra.

A biodiver- sidade é um complexo sistema interativo e interdependente, delicado, que já teve melhores dias, graças a uma série de ativi- dades de origem humana que o degradam sem compensação. Consumo e consumismo Na explicação da lei de conservação, cons- tante de «O Livro dos Espíritos», de Allan Kardec, uma das ideias fortes que os Es- píritos esclarecidos deixam é a do uso em detrimento do abuso. Os bens materiais são necessários para a vida do ser humano.

Vemos, porém, que no modelo de sociedade urbana que impera os bens materiais são entendidos numa vertente de abundância com uma compo- nente de grande desgaste de recursos, o que obriga à sua substituição por mode- los mais modernos, como ocorre com, por exemplo, computadores ou automóveis: o tempo de vida dos produtos é intencional- mente curto para alimentar as vendas. Gregária, a espécie humana quando aco- lhe um novo membro na família no formato de um bebé vai dar-lhe um enquadramento cultural específico e ele tende a ser forma- tado para uma função – é livre dentro de limitações.

Ainda assim pode aprender, pensar e decidir por um elevado número de opções que lhe permitem estar e parti- cipar em regime de compensação de cons- ciência. Entende-se assim que o consumo é neces- sário, mas entrar na onda do consumismo não é bom nem para a saúde do planeta nem para a consciência. Entende-se por consumo o uso necessário e equilibrado dos bens materiais impres- cindíveis ao bom êxito da passagem pela Terra nas experiências que proporciona o corpo material.

Por sua vez, o consumis- mo tem a ver com a sofreguidão da posse. Há mesmo necessidades de natureza es- piritual que se agitam no inconsciente do ser às quais alguns respondem com maior consumo de bens materiais, sem discernir sobre as verdadeiras causas desse anseio. Resultado? Frustração. A nível global, o consumo excessivo tem pelo menos duas vertentes – ora dese- quilibra a balança da sustentabilidade da produção-desgaste dos recursos naturais ora gera poluição.

É «poluente toda a substância ou agente fí- sico que provoca, de forma direta ou indire- ta, qualquer efeito adverso no ambiente». O consumo galopante dos recursos naturais caminha para situações de escassez des- ses mesmos recursos. Resultado? Compor- tamentos em que a violência recrudescerá. No espiritismo este fio de considerações ganha outra amplitude, pois junta-se-lhe, por exemplo, o conceito das vidas sucessi- vas.

Quem parte da vida material acaba por voltar e o estado de degradação ou de con- servação do bom estado do planeta para o qual contribuir sugere uma linha de reen- contro nos circuitos da lei de causa e efeito. Além disso, é de considerar que há tam- bém poluição de natureza espiritual. O conceito de psicosfera é atribuído ao Espí- rito André Luiz na psicografia do médium Francisco Cândido Xavier – livro «Nosso Lar» – e significa «um campo resultante de emanações de natureza eletromagnética a envolver todo o ser humano, encarnado ou desencarnado.

Reflete não só a sua re- alidade evolutiva, o seu padrão psíquico, como a sua situação emocional e o estado físico do momento». Também o Espírito Joanna de Ângelis, pela psicografia do médium Divaldo Perei- ra Franco, no livro “Após a tempestade”, aborda o problema: «Ecólogos do mundo inteiro preocupam-se na atualidade com a poluição devastadora que resulta em detritos superlativos que são atirados aos oceanos, lagos e “terras inúteis” circunja- centes às grandes metrópoles, como tribu- to pago pelo conforto e pelas conquistas tecnológicas».

E ainda: «(…) referimo-nos à poluição mental que interfere na ecologia psicosférica da vida inteligente, intoxican- do de dentro para fora e desarticulando de fora para dentro. Estando a Terra vitimada pelo entrechoque de vibrações, ondas e mentes em desalinho, como decorrência do desamor, das ambições desenfreadas, dos ódios sistemáticos (…) a poluição men- tal campeia livre, favorecendo o desbordar daquela de natureza moral, fator primacial para o aparecimento das outras que são visíveis e assustadoras».

Ecossistemas vitais Pois é. Pode ser até óbvio, mas a verdade é que nem se deu conta! Enquanto lê estas palavras está a respirar. É automático. Se não o fosse não sobre- viveria na dimensão material da vida, em que nos encontramos agora. O oxigénio de que beneficiamos e que inspiramos sem regateio tem de vir de algum lado. Já pen- sou nisso? Na escola aprendemos que vem das plan- tas, mas nem sempre esclarecemos o as- sunto.

A maior parte do oxigénio que alenta a vida material vem de pequeninos seres vegetais que existem nos oceanos na Terra – o chamado fitoplâncton. Vem também da vegetação terrestre, sim, mas não é só por isso que esta é importante. Esta cria solo, protege-o da erosão, funciona como uma esponja natural que pode armazenar e pu- rificar a água. Somos filhos da natureza. Desligar dela MAIO.JUNHO.