Editorial / Conto Maio.junho.2016
Jornal de Espiritismo nº 76 · Abril 2016Página 25 min
EDITORIAL / CONTO MAIO.JUNHO.2016 A turma do curso básico de espiritismo na- quele dia contava mais de 20 pessoas pre- sentes, apesar do frio. Gente valente, inte- ressada! O coordenador da reunião naquela hora ex- punha o conceito das leis naturais, «insculpi- das na consciência», a partir do livro terceiro de «O Livro dos Espíritos». Num momento da exposição comparava o erro e o ser humano, e gizava um caminho evolutivo sem mani- queísmo, quando o suposto mal e o suposto bem matam zonas cinzentas.
Naquele dia não se vestira nem de lapso nem de equívoco o dito erro. De pecado? Nem pensar! Mas nem por isso a sua estru- tura se transmutava. Para dar algum ritmo à exposição, indagou: “Quantos corpos tem o ser humano?”. Resposta prevista, sem coro: “Temos corpo físico e perispírito” ou corpo espiritual. Como se sublinhasse uma frase do texto de apoio, o expositor alertou: “Os nossos erros, mais leves ou mais graves, são como um espírito que tem um corpo.
Se o corpo é o cenário da experiência colhida, o espírito do erro é o ensinamento, a parte boa, que po- demos extrair, a fim de não necessitarmos de o repetir.” Vivemos numa sociedade que exacerba a culpa e parece que o nosso inconsciente faz questão, como se prevenisse males maio- res, de carregar tudo isso e mais qualquer coisa em cima dos ombros. Já bastava o peso do corpo físico no final de um dia de trabalho. Quem ensina dá o que sabe.
Quem aprende ganha mais alguma sabedoria. Algures num texto antigo lê-se: «Misericórdia peço, e não sacrifício», uma verdade dita como se Deus tivesse voz antropomórfica. Sabe-se que o que fazemos tem consequên- cias, mas acabam por se abrir vias de com- pensação. Não resolve cortar a mão que fez asneira, se essa mão pode vir a amparar, a iluminar, a compensar. A punição vem de vetustos horizontes evolu- tivos, já passados há milénios, embora infe- lizmente atuais.
Hoje, estamos a virar a folha e aprendemos que, melhor do que punir, é ensinar, e melhor ainda: aprender. Quem ensina dá o que sabe. Quem aprende ganha mais alguma sabedoria. É como aprender na escola primária depois dos ditados. Identificado o lapso, vai o aluno deixando de errar. Mais tarde, aprendizado feito, dificilmente volta a equivocar-se. O erro sem corpo faz-se luz. Percebe-se por isso que não precisamos de automutilação psicológica ou espiritual se utilizarmos esse mesmo tempo para criar progressivamente atitudes de sinal positivo – compensar, pensar bem de outrem, agir O jovem e o cego Vinham dois homens a caminhar.
Um era jovem, trazia no rosto os sinais da inexperiência. Olhos vivos e atentos a tudo, como a querer aspirar a vida num só fôlego. Tencionava modificar o mundo, revolucionar a sua época, ensinar o muito que julgava saber. Muitas vezes, os olhos enganam. Não basta vermos, é preciso, enxergamos mais além. O outro trazia no semblante as marcas do tempo. Já não queria tomar o mun- do, contentava-se em aprender mais um pouco, aqui e ali, e analisar sereno as experiências que a vida lhe apresentava.
Tão pouco desejava deixar as suas mar- cas nos homens e no que o rodeava. Não queria discípulos, nem seguidores. Não pretendia modificar a ninguém, a não ser o seu próprio eu. Era cego de nascença. Porém, apesar de ter fechados os olhos do corpo, possuía abertos os da alma. Vinham em silêncio, quando o jovem, sur- preso, exclamou: - Um papagaio! Um papagaio no céu! - Estás tão alegre em vê-lo, ainda que dis- tante. Porquê?
– perguntou o cego. - Claro! Todas as vezes que vemos um pa- pagaio destes, uma só ideia nos assalta a alma: a ideia da liberdade. E quem não valoriza a possibilidade de sentir-se livre? – disse o jovem. - Liberdade? Estranho, para mim esse pa- pagaio tem outro significado. - Outro significado? Como? Sabes o que é um papagaio? - Sim, meu amigo. Sei o que é um papa- gaio, pandorga, como queira chamar-lhe. Mas, para mim, tal objeto lembra-me res- ponsabilidade e bom senso.
- Não entendo. - O exercício da liberdade é complexo e fundamental na vida. Como o papagaio, só podemos alçar voos mais altos se a bem, em harmonia com as leis naturais que regem a natureza humana – que aos pou- cos consigam sedimentar pequenas luzes na própria consciência. A passagem da Terra na escala dos mundos de planeta de provas e expiações para pla- neta de regeneração faz-se por dentro do ser, e também passa por aqui.
Não carece o erro nem de palmatória nem de chicotada. Também não deve ser aplau- dido. É como a velha balança de dois pratos. Se põe cenouras num, vai colocando o merca- dor pesos de medida predefinida no outro, até equilibrar. Todos os nossos erros, lapsos e equívocos do passado e do presente pedem agora que se deixe os seus corpos nesse passado e tra- temos de reter essa luz, a aprendizagem que oferecem, virados para o presente e o porvir.
Com o erro a desencarnar, revê-se o padrão da partida de algum de nós que, finda a sua passagem na Terra, deve desligar-se do cor- po físico tranquilamente, assumindo a sua veste (corpo) espiritual, com novas possibili- dades, num roteiro de abertura a um mundo bem maior. Possa também nestas páginas encontrar maior leveza no corpo das ideias, o dito su- porte material, e abraçar com consciência as luzes que os colaboradores se esforçaram para aqui partilhar consigo.
Por isso, desejamos-lhe boa leitura! foto ulisses.com.pt foto ulisses.com.pt prender-nos ao solo tivermos um fio resis- tente e mãos hábeis que manipulem com acerto. Tais instrumentos são a responsa- bilidade e o bom senso. E só fazendo uso de tais ferramentas que dirigem e orien- tam o nosso voo, podemos ter a certeza de que estamos a fazer bom uso da liber- dade que nos é concedida. É a segurança de que o papagaio precisa para subir...
subir... Assim o limite para os nossos pas- sos não é o espaço que nos rodeia, mas o comprimento do fio que nos prende ao solo, ou seja, a certeza que possuímos e de que estamos a utilizar a nossa liberda- de de acordo com as normas que ditam o bom senso e a responsabilidade que já adquirimos. Muitas vezes, os olhos enga- nam. Não basta vermos, é preciso, enxer- gamos mais além. O jovem deu o braço ao cego, calou-se e, no seu silêncio, entregou-se à reflexão.
O moço é o instinto primeiro; o velho é a sabedoria. O instinto impulsiona, a sabe- doria guia. Autor desconhecido – texto em circulação na internet FICHA TÉCNICA Jornal de Espiritismo Periódico Bimestral Director: Ulisses Lopes Editor: ADEP Redator: Pedro Pereira Maquetagem: Pedro Oliveira Fotografia: ulisses.com.pt e Arquivo Tiragem: 2000 Exemplares Registado no Instituto da Comunicação Social com o n.º 124325 Depósito Legal: 201396/03 Administração e Redacção ADEPRua do Espírito Santo, N.
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