Entrevista
Jornal de Espiritismo nº 76 · Abril 2016Página 96 min
Décio Iandoli Jr.: “A mente existe sem o cérebro” Solicitado por uma pergunta, Décio Iandoli Jr. explica com o sotaque típico do país de origem que «a AME Internacional foi fundada em São Paulo em 1999, na época já com a participação de alguns países da Améri- ca Latina, como a Argentina e a Colômbia». Hoje está representada em nove países como instituição e «já temos alguns núcleos de desenvolvimento, por exemplo, na Ingla- terra e na França, que são grupos que ainda não estão organizados, mas já existe alguma atividade nessa direção».
A dada altura da conversa que tem com o entrevistador, inquirido sobre a dificuldade de aceitação da espiritualidade numa área em que os técnicos de saúde colidem com ela quase todos os dias, Décio Iandoli Jr. diz com sentido de humor que «todas as vezes que se muda um paradigma existe uma re- sistência muito grande. Ian Stevenson, que foi um psiquiatra americano que estudou a reencarnação, disse certa vez que a ciência evolui na medida dos funerais.
Só assim al- guns preconceitos são derrubados e o novo paradigma se instala de maneira definitiva». Encontra-se na internet uma entrevista dada em Portugal, no Norte, em novembro do ano passado. Pode vê-la em versão de vídeo no canal do Youtube da AME Norte. Pelo inte- resse das respostas, extraímos algumas re- lativas a perguntas que bem poderiam ter sido colocadas pelos leitores... De onde veio essa vontade de ser médico?
Décio Iandoli Jr. – Eu não pensava ser médi- co: pensava ser cirurgião. Sempre tive essa vontade. Depois, quando entrei na Faculda- de de Medicina, foi essa área que me atraiu mais. Quando terminei a cirurgia geral a especia- lidade que mais me abria possibilidades de fazer várias áreas era a cirurgia do aparelho digestivo. Acabei por seguir esse caminho. Atualmente tenho operado pouco porque me transferi do estado de São Paulo para o es- tado de Mato Grosso do Sul, no Brasil, e nes- sa nova vida tenho menos oportunidades de operar.
Comecei mais a minha atividade como endoscopista e agora apenas ocupo 10% do tempo em cirurgias. Existe uma outra linha de pesquisadores, que são os dualistas, que acreditam que existe algo além da matéria que é uma outra coisa que não é material. Como se interessa um médico por espiritu- alidade? Décio Iandoli Jr. – Quando começamos a atuar como médicos, se se é um médico atento, percebe-se rapidamente que a ques- tão espiritual é fundamental.
Ela faz parte da constituição do ser humano. Somos seres espirituais. E quando se está diante de um paciente que sofre, principal- mente os que padecem de doenças graves ou de doenças crónicas, essa questão da espiritualidade é uma das mais importantes para o paciente encontrar um significado para a dor dele e para o paciente encontrar forças para enfrentar aquela dificuldade. A espiritualidade é um fator fundamental que foi negligenciado pela ciência durante muitos anos, mas que, desde há uns dez anos, tem sido demonstrado na literatura médica, nos trabalhos científicos, que é fun- damental que se aborde a questão da espiri- tualidade dentro da medicina.
Por uma questão de necessidade, o médico moderno está a voltar-se para essa questão, e está a estudar de uma maneira mais obje- tiva no sentido de entender como pode usar essa questão da espiritualidade a favor do paciente. Defende que o cancro terá uma fisiopatolo- gia espiritual. Pode explicar? Décio Iandoli Jr. – Em medicina chamamos fisiopatologia ao mecanismo causador da doença, isto é, a fisiopatologia é a parte da medicina que estuda a causa da doença.
Costumo dizer assim: nenhuma doença tem uma causa única. É sempre um conjunto de fatores, até porque o ser humano é um ser que é o alvo de vários fatores que agem ao mesmo tempo. Então, há o fator espiritual, que considera- mos muito importante. Há fatores ambien- tais, há fatores sociais, biológicos, e assim por diante. O cancro é uma doença que tem também esse aspeto, a fisiopatologia espiri- tual. Uma das evidências que aponta nesse senti- do de uma maneira mais clara é a presença dos oncogenes, por exemplo.
O que é um on- cogene? É um gene que está no nosso geno- ma e que é causador de um tipo de cancro. Já estão identificados vários oncogenes. Na visão mais materialista, pensava-se o seguinte: bom, se tem o oncogene vai ter cancro. Isso não se comprovou. E o contrá- rio também é verdade. Há quem não tenha o oncogene e vai ter aquele tipo de cancro. Então há um conjunto de elementos que, agindo juntos, acabam por provocar ou não a doença.
A questão espiritual é, na minha opinião, fundamental para que isso ocorra. Tanto a nossa herança de outras vidas – isso levan- do em consideração a questão da reencar- nação como uma lei biológica, que também é uma ideia que defendo – como desta pró- pria vida. Quer dizer, a maneira como encaro a minha vida, o modo como encaro as dificuldades e os desafios que a vida me apresenta podem abrir a porta para eu ter um cancro ou então proteger-me desse cancro.
Se tiver uma postura mais saudável, se tiver uma visão mais otimista, se tiver uma vida mais voltada para a questão espiritual, en- tão aí a incidência do cancro diminui – isto é algo que já foi identificado no trabalho cien- tífico. É a mente que comanda o organismo ou será ela um resultado do cérebro? Décio Iandoli Jr. – Existem essas duas teo- rias, que são as chamadas teorias monistas. São o quê? São as que dizem que só existe a Décio Iandoli Jr.
já esteve em Portugal diversas vezes. Doutor em medicina e cirurgião especialista em gastrenterologia, é professor universitário e, nos tempos livres, desenvolve atividades no movimento espírita: presidente da Associação Médico-Espírita do Mato Grosso do Sul, colabora ainda como vice- presidente da AME Internacional, dá conferências e é autor de vários livros sobre medicina e espiritualidade. MAIO.JUNHO.2016 matéria.
Por isso, são reducionistas. Só existe a matéria, não existe mais nada. Quem acredita nessa teoria pensa que a mente é uma secreção do cérebro, como a bílis é uma secreção do fígado. Então, a mente seria um epifenómeno do cérebro. O funcionamento deste órgão é que gera o que chamamos de mente. António Damásio, um neurologista português que trabalha nos EUA, é um representante dessa linha. Existe uma outra linha de pesquisadores, que são os dualistas, que acreditam que existe algo além da matéria que é uma ou- tra coisa que não é material.
E essa outra coisa que não é material é que formaria a inteligência, ou a consciência, ou a mente, depende da maneira como se expressa. Temos observado que há mais evidências a favor da teoria dualista do que da teoria mo- nista, apesar de, sobretudo ainda na área das neurociências, a maior parte dos pes- quisadores professarem ainda essa teoria monista. O que não está certo, e temos até criticado, é que principalmente a imprensa especia- lizada, que são aquelas revistas que falam de medicina ou de neurociências, de uma maneira popular, acessível à população, es- ses jornalistas costumam colocar a questão de uma maneira tal, como se a única teoria verdadeira fosse a teoria monista, como se não existisse possibilidade da dualista ser verdadeira.
Enquanto percebemos que, mesmo nos tra- balhos científicos publicados e no acompa- nhamento que se tem feito da evolução des- sa questão, a verdade é que a ciência tem ido muito mais pelo lado da teoria dualista. Ou seja, existem muito mais evidências de que realmente são duas coisas separadas, a mente é a mente eocérebro é o cérebro, e que a mente existe sem o cérebro. E vai continuar a existir quando o cérebro deixar de existir.
Então essas questões são as questões para nos próximos 50 anos serem discutidas nas neurociências, mas percebemos com clare- za uma tendência forte para a teoria monista vir a desaparecer, ou seja, ser considerada inválida, e por sua vez a teoria dualista ser consagrada como uma verdade.
