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Jornal de Espiritismo nº 77 · Julho 2016Página 56 min

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Obsessõesreforçadas “Passo todo o dia em casa a pensar como hei de fazer para sair dela. Deixei de trabalhar, porque tinha que me expor. Tenho medo de falar com estranhos e sinto-me permanentemente julgada. Só estou bem em casa, tenho medos e ansiedade. Acha que isso é uma obsessão?” Gláucia LimaOs sintomas referidos parecem enquadrar-se na condição da “Fobia Social”, na qual o medo e a ansiedade são sintomas centrais, podendo em casos extremos levar a pessoa a uma sensação de pânico.

As fobias, de uma forma geral, são as perturbações de ansiedade mais frequentes na população geral, acometendo uma para oito pessoas em média. Em Portugal segundo o “Relatório Nacional Portugal em Números de 2013”, ocupava o percentual de 13,7% (Fobia Social + Fobia específica); para 4,4% de Perturbação Obsessivo-compulsiva; 2,3% para Perturbação de pânico; 2,1% para a Perturbação de ansiedade generalizada. Vejamos estas palavras: “A Fobia – refere-se a um medo exagerado, irracional, repetido e incoercível relativamente a um objecto específico, circunstância ou situação ou a uma representação dos mesmos”.

Manual de Psiquiatria Clínica. LIDEL, 2014. O principal sintoma é a ansiedade excessiva na presença de outra pessoa e está relacionada com o medo de ser avaliado pelo outro. Pode ser: 1. Circunscrita – a uma ou poucas situações como comer, escrever ou falar em público. 2. Generalizada – a grande número de situações como usar sanitários públicos, falar com estranhos, superiores hierárquicos ou qualquer situação em que a pessoa possa ser julgada, observada ou avaliada.

No seu caso em particular, parece ser mais um acaso de “Fobia social,” no qual foi restringindo a sua vida, pelos seus medos, que se foram acentuando e transformando-se em fobias, alcançando uma dimensão disfuncional, que a levou a deixar de trabalhar. É de referir que estes quadros normalmente se iniciam numa idade precoce, habitualmente na adolescência, idade em que o indivíduo está a afirmar a sua personalidade, entre os 13-20 anos, e que também pode trazer as recordações do passado inscritas de forma vaga ou de maneira mais ostensiva na sua memória.

É caracterizado pelo medo de se sentir o centro das atenções, de ser permanentemente observado ou julgado negativamente. E, numa visão espírita, acredita-se que esteja relacionado com as reminiscências passadas, quando ter sido centro das atenções levou a consequências negativas, desagradáveis ou até mesmo à morte. Os eventos sociais são evitados ou suportados com imenso sofrimento. A pessoa sofre por antecipação. Está ligada ao passado por uma espécie de alerta que o faz estar atento as situações passadas que lhe causaram sofrimento e vive a antecipar negativamente o futuro através de atitudes de evitação.

O medo e ansiedade começam dias ou semanas antes do evento social ocorrer e são desencadeados pela mera expectativa de vivenciar a situação temida. Após o evento ocorre a avaliação negativa acerca da sua performance, com pensamentos ruminativos de derrota. E normalmente, existe uma dificuldade na autoavaliação, com uma postura hipercrítica e demasiado perfecionista. Em casos extremos, a pessoa fecha-se, evitando o contacto social e, muitas vezes, existe a presença de obsessores a alimentar a insegurançaea fragilidade pessoal, a fim de atingir as cobranças do passado.

A obsessão seria então não causa da fobia, mas um processo de reforço da auto-estima quebrada no equilíbrio do indivíduo. Tem um curso crónico e muitas vezes tem associado outras patologias (comorbilidades) como a depressão, abuso de álcool, dependência de substâncias. Os sintomas mais frequentes são rubor facial, sudorese intensa, tremores incontroláveis, tensão muscular, fala tremida, taquicardia, boca seca, podendo chegar a ter um ataque de pânico.

Quanto à origem do problema, podemos falar de uma herança espiritual ou matriz reencarnatória que está relacionada com a nossa história pessoal de outras vidas ou períodos intervidas, podendo acontecer experiências traumáticas que determinem experiências fóbicas no futuro. A hereditariedade familiar conta em torno de 0,3 – 0, 5 %; sabe-se que os filhos de pessoas ansiosas são mais ansiosos; num modelo transgeracional e que a ansiedade durante a gestação liberta mais cortisol, isso é factor de stress para o feto, influenciando o desenvolvimento perinatal.

A epigenética – c omo o meio influencia a transdução da informação genética – também vem mostrar que podemos alterar a nossa informação genética através da influência ambiental (alimentação, pensamento, emoções, etc.), podendo os nossos estados mentais influenciar o equilíbrio e saúde do nosso corpo. E por fim temos os factores do desenvolvimento – da educação recebida e comportamento social, que determina como nos posicionamos na vida e em sociedade.

Nos modelos do condicionalismo pensa-se que o estímulo fóbico gera uma resposta fisiológica antes do estímulo ser compreendido pelo indivíduo, proporcionando respostas irracionais e inconscientes, o que se explica se aplicarmos o conceito de memória extracerebral ou de Vida Passada (VP), gerador de um traço de memória. Gláucia Lima, psiquiatra e conhecedora dos conteúdos da doutrina espírita, dá continuidade a esta secção do jornal e elucida sobre os problemas expostos.

Quando se trata de fobias filogenéticas (da evolução da espécie), observa-se grande ativação da amígdala, órgão cerebral responsável pela regulação das nossas emoções primárias, mas, também pela fuga e pelo prazer. Isto demonstra que há medos que são universais, que fazem parte da preservação da espécie e ficaram guardados na nossa memória, no nosso cérebro reptiliano, o que não acontece com as fobias ontogenéticas (do indivíduo).

Walker et al 2003. Estas estarão mais relacionadas com as nossas memórias pessoais e também reencarnatórias. Entendendo o modelo da reatualização das nossas memórias de vida passada, teríamos: - Vivências em que fomos fortemente julgados. - Medo de voltarmos a ser julgados. - O julgamento causou dor, sofrimento e morte. - A exposição pública causou sofrimento (condicionando escrever, comer, falar em público). A experiência traumática gerou mandatos inconscientes tipo: “Se falar posso morrer!

”… ; “Se escrever posso ser julgado”! Para exemplificar conto o caso Júlia, jovem de 21 anos, 5.º ano do curso de medicina, com ansiedade extrema na exposição social, timidez excessiva, fobia em fazer provas orais. Tendo um dia voltado de uma aula, foi descansar e regrediu espontaneamente, em sono hipnótico. Viu-se em situação do século XVIII, em França, com pergaminhos em suas mãos. É levada a julgamento pelo que escrevia.

Recebeu a seguinte sentença: “Você terá não somente o seu pescoço cortado, mas também as suas mãos e os seus pés”! No momento em que ouve a sentença, ressoa um grito sonante: “Auguste Comte!” que a faz despertar com taquicardia da sua regressão espontânea. A jovem Júlia tinha um medo irracional de tudo que lhe prendesse o pescoço e pavor de tudo que lhe prendesse as mãos! Fobia de objetos cortantes! Principalmente lâminas grandes.

Órgão de choque (órgãos do corpo mais frágeis onde as doenças se manifestam com maior frequência): Cabeçacefaleias frequentes. Pescoçoamigdalites frequentes. (P.S. A Guilhotina foi usada em França até à abolição da Pena de Morte em 1981 no mandato de François Mitterrand. Auguste Comte foi o pai do Positivismo, defensor da liberdade do pensamento). Quanto à origem do problema, podemos falar de uma herança espiritual ou matriz reencarnatória que está relacionada com a nossa história pessoal de outras vidas ou períodos intervidas, podendo acontecer experiências traumáticas que determinem experiências fóbicas no futuro.

Parafraseando André Luiz, no livro “Evolução em Dois Mundos”, psicografado por Francisco Cândido Xavier, “A etiologia das moléstias perduráveis, que afligem o corpo físico e o dilaceram, guarda no corpo espiritual as suas causas profundas”, e podemos estender este conceito para as moléstias do foro psíquico, que também tem uma componente orgânica. Nesta visão, as fobias, no presente, apontam na sua maioria das vezes para o passado, onde as suas causas se estabelecem e se vão reforçando através das nossas experiências vividas no presente, não sendo na maioria das situações uma obsessão, mas sendo pelas obsessões reforçadas.

Quando se fala no tratamento, teremos de ter atenção a todas as dimensões do Ser, na sua vertente física, mas também na sua vertente mental e espiritual, como realidades em constante interação, sinergia e equilíbrio.