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Jornal de Espiritismo nº 77 · Julho 2016Página 85 min

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Seminário interdisciplinar discute adições O tema tornou-se pertinente numa altura em que, apesar do consumo de drogas em Portugal estar abaixo da média europeia, substâncias como o ecstasy, haxixe e heroína continuam a ser facilmente acessíveis no país, já para não falar de outras dependências como o tabaco, álcool, jogo, comida, redes sociais, sexo, entre outras. E foi de tudo isto que se falou num seminário que juntou oradores de diferentes áreas disciplinares.

Uma das mensagens centrais do evento foi deixada por Gláucia Lima, psiquiatra e oradora espírita: “Os padrões de consumo estão a mudar”. Para melhor entender a origem, evolução e dinâmicas destes consumos e dependências, António Pinho da Silva, licenciado em Filosofia e presidente da ACEMI, fez uma viagem pelo tempo e pela História, traçando um panorama sobre os motivos, costumes e características civilizacionais que ajudam a compreender os comportamentos aditivos em diferentes culturas.

Depois de esclarecer que hoje em dia não se fala em vícios, mas sim em distúrbios induzidos por substâncias, Gláucia Lima explicou como se vai de uma mera dependência ao distúrbio, pois “temos de considerar que a toxicodependência durante muitos anos foi considerada um problema comportamental, mas, hoje em dia entende-se também como um problema neurobiológico e alguns indivíduos são mais vulneráveis”. A médica explicou a relação entre nocividade e vulnerabilidade, a qual considera os seguintes três factores: efeitos sobre a saúde, efeitos sobre o comportamento e capacidade de criar dependência.

Por outro lado, a oradora lembrou estudos que mostram haver “uma estreita continuidade entre o consumo de substâncias socialmente integradas (álcool, tabaco, drogas de clube, cocaína) eonível que os comportamentos se tornam disruptivos.Ocorrem mecanismos de reforço que conduzem o indivíduo a organizar-se em torno destes objectos de prazer” (Félix, 2014). A este propósito, Gláucia Lima alertou para os perigos das novas drogas de clube – que representam uma grande fatia do consumo actual de drogas – tais como a ketamina, ecstasy e MDMA.

Lembrando celebridades que sucumbiram devido ao consumo excessivo de drogas, a psiquiatra diz que “na verdade, não nos interessa se a substância é licita ou não, e sim o seu carácter de perturbação”. Alertou ainda para as chamadas drogas permitidas, como o tabaco, o álcool e o jogo. Neste ponto, lembrou que o álcool é a substância mais nociva para o próprio e para as pessoas à volta. Já quanto ao tabaco, Gláucia Lima falou do novo efeito do tabagismo em 3ª mão que é o que acontece, por ex.

, quando um membro de uma família vai fumar para a varanda para evitar prejudicar os restantes familiares. Mas a verdade é que, além do próprio fumador e dos fumadores passivos (aspirantes do fumo alheio), os pneumologistas alertam que os estofos do carro e de casa, as roupas, as toalhas e os tapetes também são contaminados pelas substâncias químicas deixadas pelo cigarro consumido em ambientes fechados, o que inflama os pulmões das pessoas que frequentam estes ambientes.

Ou seja, crianças podem estar a consumir substâncias tóxicas quando entram num carro em que um dos pais tem por hábito fumar nele. Já quanto ao jogo, a oradora notou que este está a ser um factor cada vez mais perturbante nas dinâmicas conjugais dos portugueses, remetendo para casos clínicos com que tem lidado enquanto terapeuta familiar. Para Gláucia Lima, os antídotos para as dependências passam pela espiritualidade, pelo encontrar um sentido para a vida e educação desde a infância.

O evento incluíu ainda o lançamento do livro Suicida, ditado pelo espírito Martti Vihtori Elo, e psicografado por António Pinho da Silva. A apresentação esteve a cargo de Ana Silva, licenciada em Líguas e Relações Internacionais. “A memória é a prova de que não há, em rigor, passado; e como o que se chama futuro é apenas um vasto campo de possibilidades, tudo e só é presente”, lê-se no livro, numa citação destacada por Ana Silva, para quem o livro Suicida mostra que “nada tem um fim”.

Também marcou presença a subcomissão de relações públicas do núcleo do Porto dos Narcóticos Anónimos (NA), uma associação internacional com recursos para a comunidade, formada por adictos em recuperação, que fornece apoio a outros adictos que querem largar as drogas. Destacou-se a metodologia, “não profissional”, usada por aquele grupo. A apresentação dos NA incluiu um testemunho pessoal de alguém que, após 22 anos de consumo de drogas, tem conseguido, desde 2000, manter-se sem consumir qualquer tipo de droga, incluindo tabaco e álcool.

“Nem tudo são rosas na recuperação, mas esta é possível. E todos os dias acordo a sentir-me um vitorioso, porque mais um dia em que me superei a mim mesmo e à dependência. Consigo ser feliz todos os dias”, disse Sérgio. “Vou fazer aquilo que possa pela minha recuperação hoje e manter a esperança no seu processo contínuo. Só por hoje” e assim o caminho da recuperação, dia após dia, se faz possível. Sugere-se a leitura do livro azul dos NA.

Filipa Ribeiro, jornalista, socióloga e investigadora, recorrendo à Sociologia, à Psicologia e à Neurobiologia, explicou como a degradação pessoal, o consumo em escalada das substâncias, a forma em que envolve o seu consumidor como uma teia invisível que vai enredando, até ao momento em que o indivíduo, mesmo que queira, não consegue sair, sem ajuda. A evolução, desde a experimentação até à sedução, para finalmente passar pela dependência, a temida privação, a recaída, mas também, argumentou, a evolução.

Da Sociologia, percebe-se como o contexto social e a cultura em que vivemos é importante na decisão de saber que drogas são ou não apropriadas. Contudo, ao nível do indivíduo não se pode esquecer os efeitos espirituais e os caminhos neurológicos relativos à adição. A adição é também uma doença neurobiológica em que o uso repetido de uma substância corrompe e reorganiza o circuito normal de recompensa e o comportamento adaptativo, causando mudanças neuroplásticas.

Do ponto de vista emocional, as dependências têm sido caracterizadas como distúrbios que envolvem elementos quer de impulsividade quer da compulsividade produzindo um ciclo complexo de dependência composto de três fases: intoxicação, abstinência e antecipação. Vários neurotransmissores e neurocircuitos estão subjacentes às alterações patológicas em cada uma destas fases. Evidência crescente sugere que as adições comportamentais se assemelham às adições de dependência de substâncias em muitos domínios.

Tal como dizia Joanna de Ângelis, “a embriaguez dos sentidos é abismo de esquecimento da responsabilidade de consciência perante as exigências da evolução”. Por isso, Filipa Ribeiro falou não só da adições a substâncias, mas também a outro tipo de dependências, nomeadamente as adições das redes sociais onde se forjam vidas e narcisismos, e as adições ao nível do pensamento e das emoções. Para além dos efeitos e impactos sociais das dependências, a socióloga falou das implicações espirituais das dependências recorrendo a autores espíritas como Manoel Philomeno de Miranda, André Luíz, Joanna de Ângelis e Emmanuel.

No final, Lurdes Lourenço, uma das organizadoras do evento, agradeceu o acolhimento do evento da Biblioteca de Vale de Cambra garantindo que “enquanto houver esta disponibilidade e amabilidade, o seminário anual da ACEMi irá continuar”. foto ulisses.com.pt JULHO.AGOSTO.2016 “Alcoolismo, toxicodependências e outras adições” foi o tema do seminário anual organizado pela Associação Cultural Espírita Mudança Interior (ACEMI), no passado dia 28 de maio, na Biblioteca de Vale de Cambra.