Entrevista (pág. 11)
Jornal de Espiritismo nº 78 · Setembro 2016Página 117 min
intelectual dos seus participantes. Em Portugal vimos a sua atuação nas Jornadas de Cultura Espírita do Oeste, que até está no Youtube da ADEP, em dois momentos e o meio milhar de pessoas que assistiram ficaram encantadas com a qualidade da sua representação. Imaginamos até que alguns entre eles ficaram com vontade de experimentar esse trabalho, mas poderão ter pensado: «Ah! Isso é para quem tem um talento especial, não é para mim!
». Quer comentar esse pensamento? Edmundo CezarFiquei muito emocionado quando da realização das Jornadas de Cultura Espírita do Oeste e pelo carinho que recebi do público e dos organizadores do evento. Pela primeira vez nesta encarnação coloquei os pés fora do meu país e me senti acolhido por minha família espiritual. A minha responsabilidade como artista espírita aumentou e agradeço a confiança que a Espiritualidade tem depositado no meu esforço.
Se a prática do teatro exigisse um talento especial eu não poderia fazê-la. O que produzo é resultado da minha disponibilidade e carrega toda a minha limitação momentânea como espírito. Todos podemos fazer arte. Todos podemos fazer teatro. Cada um na sua medida de possibilidade. Não precisamos ser profissionais ou génios de sabedoria para manifestarmos as nossas emoções na forma de palavras, gestos e personagens. Para começarmos, a providência divina pede-nos apenas boa vontade e disponibilidade para o novo.
Aos poucos, passo a passo, cada um pode tornar-se o artista que desejar. Quem sabe alguém por aí, inspirado pelas belezas de Portugal, não se atreve a vestir um figurino e tomar posse do palco, em forma de personagem, falando das maravilhas e possibilidades divinas. Quem sabe em uma próxima “Jornada de Cultura” não veremos apresentações artísticas realizadas pelos companheiros de Portugal... De brincadeira amadora e intempestiva o teatro (e a arte) associado ao Espiritismo tornou-se minha tarefa de reconstrução dos meus sentimentos.
Hoje, como artista, dedico-me exclusivamente ao teatro espírita. Allan Kardec ia ao teatro? Edmundo CezarO pedagogo francês Hippolyte Rivail viveu em Paris numa época em que a Cidade das Luzes era o centro do mundo cultural do planeta. Teve acesso e conviveu com artistas de variadas linguagens, tendo alguns deles inclusive como amigos pessoais e associados da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, como é o caso do dramaturgo Victorien Sardou e do pintor August Monvoisin: “Para que saibais a quem ireis fazê-lo, dir-vos-ei do que se compõe a Sociedade: advogados, negociantes, artistas, homens de letras, sábios, médicos, capitalistas, bons burgueses, oficiais, artesãos, príncipes, etc.
” (A. KARDEC, 1862) (“Revista Espírita”, dezembro de 1862). Em “O Livro dos Médiuns”, no item 169 e 170, Kardec descreve a sua ida ao teatro com um médium vidente e as observações que fez do ambiente teatral na plateia, no palco e como os Espíritos ali contribuíam para o sucesso ou fracasso da apresentação: “Assistimos uma noite à representação da ópera “Oberon”, em companhia de um médium vidente muito bom. Havia na sala grande número de lugares vazios, muitos dos quais, no entanto, estavam ocupados por Espíritos, que pareciam interessar-se pelo espetáculo...
” (item 169). Como será o teatro numa dimensão espiritual? Edmundo CezarA arte na dimensão espiritual é utilizada como instrumento de socorro e auxílio aos sofredores, como ações de entretenimento e principalmente como terapêutica de reequilíbrio das energias espirituais. Diversos autores descrevem esse leque de possibilidades, especialmente as obras do médico André Luiz, psicografadas por Francisco Cândido Xavier. Na sua perspetiva, o que caracterizaria realmente o teatro de qualidade na vertente espírita?
Edmundo CezarA qualidade na prática artística espírita reúne alguns elementos como a busca permanente do aperfeiçoamento técnico, a vivência do dia a dia do artista ou grupo dos compromissos éticos que o Espiritismo propõe, mas principalmente o envolvimento espiritual e a energia que irradia do instante da apresentação. É preciso que o coração do artista espírita esteja cheio de desejo sincero ao Bem para que a boca cante e fale verdades aos corações dos Espíritos que estão na plateia, nos dois planos da vida.
Para o teatro, familiarizado com a crítica ácida, o grotesco, a hipervalorização do erro, reconfigurar-se para o Belo e o espiritual, é um desafio a ser vencido a cada dia por aqueles que se propõem à prática do teatro espírita. Pode deixar algum apelo ou uma mensagem aos leitores? Edmundo CezarDesejo que companheiros portugueses possam permanecer firmes na tarefa de reconstruir-se moralmente através do Espiritismo, para que nos instantes de provações, individuais e coletivas, os seus corações estejam cheios de esperança e certezas divinas.
Gostava de pedir ainda que a arte tenha cada vez mais espaço no dia a dia doutrinário das associações espíritas. Por Pedro Pereira Texto: Redação do JDE SETEMBRO.OUTUBRO.2016 (1)– Citações sobre Espiritismo e Arte na bibliografia espírita “A arte tem como meta materializar a beleza invisível de todas as coisas, despertando a sensibilidade e aprofundando o senso de contemplação, promovendo o ser humano aos páramos da Espiritualidade.
Graças à sua contribuição, o bruto se acalma, o primitivo se comove, o agressivo se apazigua, o enfermo se renova, o infeliz se redescobre, e todos os outros indivíduos ascendem na direção dos Grandes Cimos. A Arte permanecerá no mundo assinalando as fases de progresso ou de tormento das criaturas, porém oferecendo sempre harmonia e trabalhando os sentimentos elevados. Desse modo, evoluiu do grotesco ao transcendental, aprimorando as qualidades e tendências, que estarão sempre à frente dos comportamentos de cada época.
Lentamente, e às vezes com rapidez, a Arte se desenvolve alterando os conteúdos e melhor qualificando a mensagem de que se faz portadora.” Vianna de Carvalho (FRANCO, Divaldo Pereira. Pelo Espírito Vianna de Carvalho. Atualidade do Pensamento Espírita. 3a. Edição. 2002 Pg126. Salvador. Livraria Espírita Alvorada Editora). “O Livro dos Espíritos” Questão 315 – Aquele que abandonou trabalhos de arte ou de literatura conserva por suas obras o amor que lhes tinha quando era vivo?
– De acordo com sua elevação, julga-os sob um outro ponto de vista e, frequentemente, se arrepende de coisas que admirava antes. Questão 316 – O Espírito se interessa pelos trabalhos que se executam na Terra pelo progresso das artes e das ciências? – Isso depende de sua elevação ou da missão que deve desempenhar. O que vos parece magnífico é, muitas vezes, pouca coisa para certos Espíritos, que a consideram como um sábio vê a obra de um estudante.
Eles têm consideração pelo que pode contribuir para a elevação dos Espíritos encarnados e seus progressos. Questão 566 - Um Espírito que teve uma especialidade na Terra, um pintor, um arquiteto, por exemplo, se interessa pelos trabalhos de sua predileção durante a vida? - Tudo se confunde num objetivo geral. Sendo bom, se interessa tanto quanto lhe é permitido se ocupar em ajudar as almas a se elevarem até Deus. Esqueceis, aliás, que um Espírito que praticou uma arte na existência em que o conhecestes pode ter praticado uma outra em anterior existência, porque é preciso que saiba tudo para ser perfeito.
Assim, conforme o grau de seu adiantamento, pode não haver mais especialidade para ele; é o que quis dizer, afirmando que tudo se confunde em um objetivo geral. Notai ainda isso: o que é sublime para vosso mundo atrasado é apenas criancice nos mundos mais avançados. Como quereis que os Espíritos que habitam esses mundos onde existem artes desconhecidas para vós admirem o que para eles é somente obra de um estudante? É como vos disse: eles se interessam por tudo que pode revelar o progresso.
“A arte pura é a mais elevada contemplação espiritual por parte das criaturas. Ela significa a mais profunda exteriorização do ideal, a divina manifestação desse “mais além” que polariza as esperanças da alma. O artista verdadeiro é sempre o “médium” das belezas eternas e o seu trabalho, em todos os tempos, foi tanger as cordas mais vibráteis do sentimento humano, alçando-o da Terra para o Infinito e abrindo, em todos os caminhos, a ânsia dos corações para Deus, nas suas manifestações supremas de beleza, de sabedoria, de paz e de amor.
” EMMANUEL. O Consolador – questão 161. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. “Dissemos que o objetivo essencial da arte é a procura e a realização da beleza; é, ao mesmo tempo, a procura de Deus, pois que Deus é a fonte primeira e a realização perfeita da beleza física e moral. Quanto mais a inteligência se apura, se aperfeiçoa e se eleva, mais se impregna da ideia do belo. O objetivo essencial da evolução, portanto, será a procura e a conquista da beleza, a fim de realizá-la no ser e nas suas obras.
Tal é a norma da alma na sua ascensão infinita.” (DENIS,L.) O Espiritismo na Arte. Parte I “Cada espírito vê e sente a Arte com as suas características e expressões evolutivas, porquanto, à medida que o ser progride, amplia a capacidade de perceber a beleza e senti-la nas suas várias expressões. Essa forma de identificação muito pessoal, que é resultado da experiência individual, expressa - -se na aptidão por uma ou por outra manifestação da Arte, bem como na maneira de traduzir o sentimento no instante da sua captação.
Colocando a sua maneira de entendimento e emoção cria o estilo, que se poderia chamar o legítimo autógrafo colocado naquilo que faz.” Vianna de Carvalho FRANCO, Divaldo Pereira. Pelo espírito Vianna de Carvalho. Atualidade do Pensamento Espírita. 3a. Edição. 2002. Pode saber algo mais sobre Edmundo Cezar neste vídeohttps://www.youtube.com/ watch?
