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Jornal de Espiritismo nº 79 · Outubro 2016Página 46 min
Disforia de género e Espiritismo – parte I A abordagem dessa temática na família e na sociedade tem levado a problemas de “bullying” (perseguição psicológica a nível escolar), “mobbing” (perseguiçãoanível do trabalho) e tem causado elevadas taxas de risco de suicídio, principalmente numa faixa etária de jovens – adolescentes. Existem diferenças entre estas várias designações: “disforia de género”, “transexual”, “homossexual” ou “bissexual”?
O que é um transgénero? Qual deve ser a postura do espírita face a esta problemática abrangente e atual? Como podemos ajudar as pessoas que nos procuram na casa espírita com problemas identitários, tendo como princípio o amor ao próximo, como uma questão de atitude? Definindo a “disforia de género” O termo “género” surgiu para definir a identidade feminina ou masculina quando a sociedade se apercebeu que o papel atribuído socialmente nem sempre correspondia a identificação feminina ou masculina do indivíduo e nem aos seus indicadores biológicos.
Logo, género (sexo), é o papel reconhecido publicamente, que nem sempre corresponde ao género psicológico do ser. A Disforia de género é o descontentamento afetivo/cognitivo com o género atribuído. “Refere-se ao mal-estar que pode acompanhar a incongruência entre o género experimentado ou expresso eogénero atribuído ao indivíduo”. DSM 5, 2014. Transgénero – “refere-se a um largo espectro de indivíduos que transitoriamente ou persistentemente se identificam com um género diferente do seu género natal”.
DSM 5, 2014. Transexual - “indica um indivíduo que procura ou que passou por uma transição sexual, de masculino para feminino ou vice - -versa, o que por vezes envolve transição somática através de tratamento hormonal sexual cruzado e cirurgia genital (cirurgia de reatribuição de sexo). Travesti fetichista – aquele que utiliza roupa do sexo oposto com objetivo de obter prazer sexual. O que é considerado uma “parafilia” – uma perturbação do desejo sexual ou perversões sexuais; também diferente daquele que se traveste com o objetivo único de se prostituir, sem encontrar prazer neste acto.
Diferencia-se ainda de homossexualidade ou bissexualidade , em que não ocorre, por norma, mal-estar com a sua própria identidade, significando respetivamente preferência sexual pelo mesmo sexo ou por ambos. Neste caso, não existe uma aversão ao seu próprio sexo, nem o desejo de mudança de identidade sexual. O indivíduo nestas condições pode sentir-se mal não com a sua opção, mas sim com a culpa social, a rejeição familiar, o preconceito ou estigma, tendo dificuldade na sua autoaceitação e reforçando mecanismos psíquicos de fragilidade da sua auto-imagem e sentimentos de fuga à realidade e depressão.
Cabe ao espírita ter noção de que devemos aceitar o outro na diferença e entendendo-o no seu caminho de escolhas, que per si, na maior parte das circunstâncias, é feito com dor. É na família que a pessoa com problemas identitários inicia o seu processo de resgate, que invariavelmente, também é familiar, e dessa verdade ninguém se poderá imiscuir. Pois, esta realidade obriga a reajustes emocionais dentro do seio familiar.
A “Disforia de género” é uma perturbação classificada dentro das “Disfunções sexuais” e pode ser diagnosticada na criança, na adolescência ou na idade adulta, sendo o componente nuclear do diagnóstico a incongruência entre o género do nascimento eogénero expresso ou vivenciado. De forma resumida os critérios diagnósticos incluem: (1) Forte desejo de ser de outro género (diferente do atribuído). (2) Forte tendência em travestir-se com vestuário do sexo oposto.
(3) Tendência para papéis do sexo oposto em jogos. (4) Preferência por companhia do sexo oposto. (5) Aversão à sua anatomia sexual. (6) Rejeição a brinquedos, jogos e atividades frequentes no seu sexo. (7) Desejo de que as suas características sexuais primárias e/ou secundárias fossem as do sexo desejado. Estas condições têm de gerar mal-estar significativo ou défice social, escolar, ocupacional, ou noutras áreas do funcionamento.
Ver critérios DSM 5 (Manual de Diagnóstico e Estatística, 5.º Ed), item 302.6 (em crianças) e item 302.85 (Na adolescência e adultos). Observamos que, desde tenra idade, muito antes das crianças terem tempo de desenvolverem a sua identificação projetiva, estas manifestam as tendências acima referidas, como se elas lhes fossem inatas, demonstrando a possibilidade da influência do factor reencarnatório na determinação causal desta problemática.
Como exemplo: rapazes que rejeitam o seu sexo desde criança, e manifestam-se com brincadeiras tipicamente femininas; preferindo a companhia das raparigas, por vezes, sendo gozados, rejeitados pelos seus pares nas escolas. E, muitas vezes, sofrendo processos de “bullying” (perseguição) por serem diferentes. Estas crianças, desde cedo, referem sentir-se diferentes, com forte tendência a desenvolverem baixa auto-estima e tornarem-se crianças mais retraídas e isoladas socialmente.
Ou raparigas, com desejo de serem rapazes, que preferem vestuário e penteado de rapazes. São muitas vezes reconhecidas com alcunhas de rapazes. Iniciam a vida sexual com raparigas, por se sentirem rapazes. Rejeitam brincadeiras de raparigas, identificando-se completamente com o género feminino. A adolescência é uma fase muito importante na consolidação identitária sexual do indivíduo. Entretanto, muitos destes jovens persistem na adolescência, com os sintomas de disforia, de desidentificação sexual, e muitas vezes de desadaptação social e, quando não, familiar.
Nesta fase, intensifica-se a crise identitária sexual pelo desconforto entre a factualidade do género real e o desejado, podendo cursar com sintomas depressivos. Sabe-se que jovens com problemas identitários sexuais apresentam um risco seis vezes mais elevado para comportamentos autolesivos ou tentativas de suicídio, pela presença de sentimentos de desajustamento, como também devido ao preconceito sentido. Um estudo australiano com 254 jovens mulheres e 318 jovens homens (lésbicas, “gays”, bissexuais, transgéneros) demonstrou que esta população tinha um risco maior de problemas de saúde mental, incluindo depressão, ansiedade, risco de suicídio e abuso de substâncias, em comparação com os seus pares heterossexuais pelo preconceito homofóbico e estigma.
(Arch Sex. Behav. 2014 Nov;43(8):1571-8). Na idade adulta, muitas vezes, optam por resolver a ambiguidade, vivendo papéis paralelos, onde podem viver parcialmente o sexo oposto ou assumindo completamente a sua identidade. Aqui não devemos relacionar necessariamente, a disforia sexual ou a homossexualidade com a promiscuidade, embora reconheçamos que muitas vezes possam coexistir, porém também existe muita heterossexualidade associada a desequilíbrios da sexualidade e comportamentos desviantes como as parafilias como a pedofilia, “frotteurismo”, “voyerismo”, fetichismo e outras.
Como doutrina de liberdade, não temos de dizer o que é certo, nem o que é errado, pois não somos juízes da consciência de ninguém. A doutrina espírita orienta-nos que somos responsáveis por zelar pela nossa saúde, pelo nosso corpo, desenvolvendo a nossa auto-estima, a autoaceitação, mas, também, ensina a lei de causalidade e de retorno, consoante, o uso da nossa própria liberdade. Joana de Ângelis assevera que o indivíduo “é herdeiro de si mesmo, promovendo os meios de crescer interiormente através das experiências que ocorram numa como noutra polaridade sexual”.
(…) É de fundamental importância que o Espírito reencarnado se sinta perfeitamente identificado com a sua anatomia sexual, mantendo os estímulos psicológicos em consonância com a mesma”. “Quando a ocorrência é diversa – função emocional diferente de forma física – encontra-se em reajustamento, deverá ser disciplinado, evitando a permissão do uso indevido, que proporcionará agravantes mais severos para o futuro”. (Dias Gloriosos, cap.
14). Entretanto, cada indivíduo deverá agir segundo a sua consciência e necessidade evolutiva, certos de que as suas atitudes devem ser movidas pelo amor e pelo respeito humano. A verdadeira atitude de amor ao próximo para o espírita é de respeitar o outro em todas as suas expressões, no seu momento evolutivo, na certeza de que aqueles que não conseguem ainda sublimar as energias da sexualidade organizando-as conforme uma necessidade mais regeneradora neste momento em outro conseguiram, mas é preciso aprender, antes de mais, o exercício do amar, não nos cabendo julgar, nem criticar, o nosso semelhante seja qual for a sua condição.
foto ulisses.com.pt Gláucia Lima, médica psiquiatra estudiosa da doutrina espírita nos seus tempos livres, aborda nesta edição o assunto das “perturbações da identidade de género” e as dificuldades de aceitação do outro na diferença. NOVEMBRO.DEZEMBRO.
