Opinião (pág. 12)
Jornal de Espiritismo nº 79 · Outubro 2016Página 127 min
Suicídio e emoções – que relação? foto ulisses.com.pt Resumimos, aqui, o artigo que foi elaborado, uma vez que não chegou a ser publicado o livro de actas que, normalmente, acompanha a realização de um congresso. Os resultados preliminares sugerem que, apesar da maioria dos inquiridos se dividir entre assumir-se como espírita ou católico, a partir do momento em que tomou conhecimento da doutrina espírita a sua interiorização religiosa (relação com Deus ou algo superior ao ser humano) passou a ter um maior impacto na sua vida, ajudando a lidar com as suas emoções.
Verifica-se ainda que os inquiridos que se identificaram como tendo ideação e pensamentos suicidas apresentam, diagnosticados ou não, outro tipo de distúrbios, sobretudo alimentares e depressivos. Verificou-se ainda, no que toca ao conhecimento e impacto da doutrina espírita, que mesmo quando a reencarnação é mais ou menos aceite entre os inquiridos, o mesmo não se passa com a compreensão da influência de entidades espirituais na vida de cada um.
Estes e outros dados serão úteis para melhorar o atendimento em centros espíritas. O estudo “Regulação emocional, suicídio e espiritualidade”, visa 1) aprofundar a relação entre regulação emocional e ideação ou prática do suicídio, nomeadamente avaliando o impacto de características da personalidade como a impulsividade; 2) analisar a interacção entre regulação emocional, espiritualidade e ideação ou comportamentos suicidas; 3) apresentar um quadro interdisciplinar para abordagem ao suicídio, na população adulta, que efective – com base científica – a complementariedade entre a abordagem médica, psicológica e psiquiátrica com o tratamento espiritual em casas espíritas.
Este trabalho apresenta ainda um estudo piloto interdisciplinar (sociologia, psicologia, psiquiatria, história, antropologia e literatura), junto de uma população maioritariamente frequentadora de centros espíritas. Da amostra obtida foram validados 99 questionários. A partir deste estudo pretende-se obter uma ferramenta válida para uso em centros espíritas e por clínicos, com vista à melhoria do atendimento, diagnóstico e compreensão do quadro de saúde do indivíduo por ambos.
Autores como Hermínio Corrêa Miranda e Suely Schubert alertam para o facto das emoções serem o principal campo de trabalho do ser humano. “Não damos, na maioria das vezes, importância alguma aos nossos estados emocionais, que oscilam bastante. Se ponderarmos, iremos constatar que, para o desequilíbrio das nossas emoções, pequeninos nadas tornam-se agentes poderosos e fazem vacilar a nossa aparente serenidade interior, levando-nos a estados de visível turvação mental”, nas palavras de Suelly Schubert.
Com a mente agitada e turva, mesmo um elevado conhecimento intelectual de qualquer assunto não consegue ter impacto no comportamento do inidivíduo. Num tempo em que tanto se defende a aproximação entre ciência e espiritualidade, urge concretizar como o fazer na tentativa de contribuir para a compreensão, tratamento e prevenção do suicídio. No estudo, o foco na população adulta faz sentido, pois, segundo o relatório “Saúde Mental em Números (Março de 2016), o suicídio, em Portugal, continua a crescer, sendo maior nos idosos e a aumentar entre a população activa.
A relação entre quadro emocional e diversos factores, entre os quais personalidade e regulação de afectos tem sido estudada por vários autores (Pisani et al., 2013; Loyo et al., 2013). Por outro lado, ainda que escassos, alguns estudos sugerem que qualquer prática ou enquadramento espiritual pode proteger contra o suicídio (Koenig et al., 2012). Porém, pouco se sabe sobre a relação entre suicídio, enquadramento espiritual (religioso ou não) e regulação emocional, em Portugal.
Este facto motiva a necessidade de compreender melhor a forma como o comportamento impulsivo e/ ou tendencialmente depressivo encontra na abordagem espiritual um meio de recuperação face à tentativa de suicídio, ou de prevenção face à ideação de suicídio. Por conseguinte, é importante explorar a relação entre características de personalidade, tais como a impulsividade, regulação de afectos face a tendências de suicídio conscientes (pensar activamente) ou inconscientes (relativos a danos físicos, morais ou emocionais auto-infligidos), e a dimensão espiritual (religiosa ou não) do indivíduo.
Este estudo visa, pois,analisar dimensões que são estudadas de forma isolada ou com menos grau de correlação, nomeadamente no que concerne à dimensão espiritual. Por fim, pretende-se identificar medidas preventivas adicionais que possam ser elencadas às já conhecidas. As emoções, enquanto tendências de acção, unidades cognitivas e afectivas, organizam padrões comportamentais directos que antecedem a complexidade do processo de integração do ‘eu’ e o desenvolvimento psicológico do indivíduo.
Neste estudo, a regulação emocional é um conceito multidimensional que envolve: (a) consciência e compreensão das emoções; (b) aceitação das emoções; (c) capacidade para monitorizar comportamentos impulsivos e proceder de acordo com objectivos desejáveis na presença de emoções “negativas”; (d) capacidade de utilizar estratégias de regulação emocional que modulem flexivelmente respostas emocionais que considerem os objectivos individuais e as exigências situacionais.
Por outro lado, a própria definição de suicídio é muito ambígua e em variados trabalhos se vê o resultado desse pouco cuidado na definição do que é a morte e o suicídio, que são muito mais do que os seus significados etimológicos. Já a ideação suicida abrange as ideias, pensamentos, desejos sentimentos e planos que o indivíduo possa ter acerca da sua (possível) autodestruição. David Tacey (2013) considera que o acto de suicídio não é algo racional e que tem uma dimensão espiritual largamente negligenciada por clínicos e pela sociedade em geral.
O autor diz que o ser humano é composto por dimensões: o ego (ou primeiro ‘eu’) e a nossa alma (ou segundo ‘eu’). Ainda que o primeiro não seja a nossa prioridade é sobre ele que aprendemos primeiro e é a ele que dedicamos mais tempo. No estudo foram relacionadas todas as referências ao suicídio nas obras de Kardec e em “Memórias de um suicida” com o que é dito na literatura científica e tanto a análise de sentido como os resultados estatísticos preliminares apontam para uma justificada complementaridade entre a abordagem espírita e a literatura científica no que toca ao papel das emoções nas tentativas de suicídio.
Este é um estudo quantitativo, descritivo-correlacional, na medida em que permite obter descrição sobre como se manifestam os comportamentos autodestrutivos. As hipóteses testadas são: quanto maior for o autodano maior é o grau de ideação suicida; quanto maior for o grau de interiorização religiosa, menor é o grau de autodano e ideação suicida; personalidades com menor grau de impulsividade e maior grau de controlo emocional apresentam práticas espirituais mais consistentes e regulares e, logo, menor vulnerabilidade a factores propensos a ideação suicida (depressão e ansiedade); a frequência de tratamento médico e espiritual, em complemento, é mitigante da desregulação emocional e da ideação suicida com autodano.
A verificação destas hipóteses justifica a importância da complementaridade de tratamentos; por um lado, o psiquiátrico visando o equilíbrio químico e, por outro, o espiritual por forma a dar ao indivíduo instrumentos de defesa face a comportamentos lesivos. Com este estudo traz-se, assim, para o âmbito da análise científica a abordagem de centros espíritas ao suicídio e percebe-se, com base em dados empíricos da realidade portuguesa, até que ponto é cientificamente relevante falar em complementaridade entre o tratamento espiritual e médico psiquiátrico no contexto do suicídio.
Consideramos que a ligação entre um e outro só pode ser feito com um conhecimento mais detalhado não só do perfil psiquiátrico, cognitivo-emocional e religioso dos indivíduos, como também dos instrumentos clínicos, de avaliação e os que são usados em centros espíritas ou proporcionados pelo estudo do Espiritismo. Exploramos uma abordagem eminentemente espírita e psicossociológica procurando revelar a interacção entre o contexto e o pensamento individual.
No entanto, é preciso que também o movimento espírita se abra mais à Ciência não a usando apenas quando dela necesita como bode justificatório do que é postulado pelo Espiritismo. Isso passa por aproveitar eventos como um congresso para apresentar mais propostas de trabalhos científicos, ou de mais participações com trabalhos com abordagens baseadas em trabalhos empíricos exploradores da interdisciplinariedade a que o próprio Espiritismo apela.
Por fim, importa reter que o gesto suicida apela à nossa ajuda e simboliza o desespero supremo ou a recusa da vida, mostrando-nos uma insustentável melancolia, uma vontade firme de não-ser ou, talvez mais correctamente, de desaparecer para o que se tem sido (e o que se tem). Mais do que morrer, as pessoas querem testar - -se, transcender-se para conhecer “aquele que ainda não viu” e, no seu íntimo, ainda que não o refira, espera sobreviver e saber viver, consigo mesmo e com os outros, encontrar um objectivo, uma motivação, que lhe reacenda a esperança esmorecida (ou perdida), a alegria esquecida, a confiança e um sentido real para a sua vida.
Também é isto que se comprova nos trabalhos de ajuda mediúnica a desencarnados. A indomável vontade de desaparecer mais não é do que uma indelével vontade de viver, pois é somente a possibilidade de viver que o alenta a procurar algo diferente, de genuíno, com todas as suas forças. Ajudar nessa compreensão é um desafio enorme para todos os envolvidos nas temáticas da saúde em geral e do suicídio e bem estar espiritual em particular.
Foi este o intuito deste trabalho, o qual não seria possível sem a colaboração de instituições de saúde e espíritas, nomeadamente o Hospital de Viseu, a Associalção Cultural Espiritualista de Viseu, o Núcleo Espírita Rosa dos Ventos, a Escola de Beneficência e Caridade Espírita e a Associação Cultural Espírita Mudança Interior. Texto: Filipa Ribeiro Uma equipa interdisciplinar composta por Carlos Figueiredo, Filipa Silva, Ana Gama e Filipa Ribeiro apresentou, no 8º Congresso Espírita Mundial, os primeiros resultados de uma investigação ainda a decorrer que, pela primeira vez em Portugal, está a estudar a relação entre emoções, personalidade e prática/ideação suicida.
