Opinião (pág. 13)
Jornal de Espiritismo nº 79 · Outubro 2016Página 135 min
foto ulisses.com.pt NOVEMBRO.DEZEMBRO.2016 Para além da psicologia clínica enquanto ciência gostaria de referir a importância da psicologia no nosso dia a dia, ou melhor, no nosso autoconhecimento e a responsabilidade que deveríamos ter em sermos o “nosso próprio terapeuta”. Não excluo a oportunidade de acompanhamento por profissionais da área, apenas saliento a responsabilização que temos de cultivar o nosso aperfeiçoamento interior.
Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço criador da Psicologia Analítica e fonte de inspiração da Série Psicológica de Joanna de Ângelis (psicografada pelo médium brasileiro Divaldo Franco), traz para a psicologia importante contribuição com o seu modelo de “estrutura psíquica”. Em função do curto texto que escrevo, destaco apenas dois conceitos da sua teoria que acho fundamentais, a noção de “self” e “individuação”. O “self”, ou “si mesmo”, representa o centro da nossa estrutura psíquica, enquanto que o “ego” está vinculado ao centro de nossa consciência.
A nossa estrutura psíquica é maior que a consciência, ela engloba o consciente e o inconsciente. Porém o desenvolvimento do “self” não significa a dissolvição do “ego”, mas sim a sua vinculação, consequência de um longo e árduo processo de compreensão e aceitação dos nossos processos inconscientes. Para Jung, todos nós possuímos uma tendência para que a “individuação” se realize, ou seja, a possibilidade de integrarmos o nosso “self”, em direção ao autodesenvolvimento, realização da nossa totalidade mais preciosa.
Desta forma, desenvolver um processo de autoconhecimento, implica em fomentarmos a realização de nosso “self”. Aponta no sentido de abandonarmos o “ego”, com o qual estamos acostumados, não o anulando, mas percebendo que ele é um “ótimo servo”, mas não um “bom senhor”. Precisamos do “ego” para viver e nos situarmos em sociedade, é com ele que nos organizamos, nos deslocamos no tempo e espaço, cumprimos os nossos compromissos.
Mas ele não deve ser o centro de nosso estar no mundo. Esta vida pede mais, esta vida convida-nos a todo tempo a olharmos internamente e a modificar as nossas imperfeições. Se perguntarmos às pessoas quem são elas, muitas responderão, sou “advogada”, “mãe”, “fulana de tal”, “idade tal”, etc.. Mas tudo isso é “ego”, é o modo como nos locomovemos no mundo, e não quem realmente somos. Deveríamos prestar atenção em não confundirmos a nossa auto-imagem, quem somos, com o “ego” que temos.
Cerqueira Filho (2013) aponta para a importância do autoconhecimento, a base para a formação da nossa inteligência emocional, no qual deveríamos buscar desenvolver a autopercepção, exercitando o discernimento. “Podemos, então, sintetizar dizendo que o autoconhecimento é o movimento de discernir, buscando perceber em nós os sentimentos egoicos, tratando-os como emoções transitórias, possíveis de serem controladas e transmutadas, por meio do desenvolvimento dos sentimentos permanentes originados no Ser Essencial que somos”.
(CERQUEIRA FILHO, 2013, p.39). Logo, esta postura interna de autoconhecimento, de enfrentamento das nossas dificuldades e a busca pelo aprimoramento, encontra no Evangelho de Mateus (6:19-24) precioso ensinamento. O tesouro no céu - “Não acumuleis tesouros na terra, onde a traçaea ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar. Acumulai tesouros no Céu, onde a traçaea ferrugem não corroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam.
Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”. Deveríamos ter consciência da importância e profundidade destas palavras, do quanto o “nosso maior objetivo deveria ser nosso aprimoramento espiritual”. Esta posição não significa um abandono dos objetivos terrenos, da nossa profissão, cargo, situação social, dinheiro, etc. Temos de ter consciência que estas aquisições deverão ser ferramentas a serviço do nosso maior tesouro, a nossa alma, o nosso aperfeiçoamento espiritual.
Porém, cuidar da alma exige uma “postura processual”. Não se trata de algo estático que se conquista em determinado momento e depois abandonamos. A nossa alma e tudo que ela traz, com suas debilidades e potencialidades, exige esforço contínuo. Numa metáfora, nossa alma-coração é um jarPsicologia, autoconhecimento e Evangelho dim, que pede cultivo constante, esforço incansável, pois estamos em evolução permanente e não devemos estacionar nas lições da vida.
Psicologia, autoconhecimento e a parábola do tesouro no Céu formam assim uma direção que nos compele a nada mais que a “reforma íntima”. Tema importante na abordagem espírita, e cujo sucesso ou fracasso depende somente de nós. “A reforma íntima é um trabalho processual. Em conceito bem claro, é a habilidade de lidar com as características da personalidade melhorando os traços, que compõem suas formas de manifestação.
Caráter, temperamento, valores, vícios, hábitos e desejos são alguns desses caracteres que podem ser renovados ou aprimorados”. (DUFAUX, 2012, p.49). A escola da vida convida-nos incansavelmente a aprender. É o nosso embate com estas propostas que darão origem ou não ao sofrimento. Na maioria das vezes iremos sofrer, porque ainda teimamos em dizer não às mudanças, resvalamos no erro e na insatisfação como condenações, e não percebemos que a vida na sua sabedoria e complacência nos convida sempre a reerguer e recomeçar.
Se o sofrimento não possuir uma face educativa de entendimento, não adiantará nada sofrer, pois não é isto que nos libertará dos nossos débitos. As nossas maiores aquisições ocorrem nas épocas mais difíceis das nossas vidas. Por isso a importância do autoconhecimento como prática constante, de forma a buscar entender que lição a vida pretende nos ensinar. Não importa o que nos aconteceu, ou o que fizeram de nós até este momento atual – o que realmente importa é o que iremos fazer com o que fizeram de nós.
É o momento presente, é a nossa força de enfrentamento, é a nossa abertura à mudança, é o nosso esforço no burilamento interior. Ermance Dufaux, no seu livro «Reforma íntima sem martírio» (2012), fornece-nos alguns comportamentos que serão efetivos roteiros de combate, vigília e treinamento para instauração das linhas éticas no processo autotransformador. São eles: postura de aprendiz; observação de si mesmo; renúncia; aceitação da sombra; autoperdão; cumplicidade com a decisão de crescer; vigilância; oração; trabalho; tolerância; amor incondicional; socialização e caridade.
Que tenhamos a força e lucidez necessárias para enfrentarmos as nossas maiores dificuldades, que possamos nos reconectar com a nossa missão existencial e os nossos propósitos interiores. Texto: Andresa Thomazoni, Psicóloga, Mestre em Psicologia Social e Institucional e Doutora em Informática na Educação UFRGS. Membro da Associação Médico Espírita – AME-Norte, Portugal. Psicologia, palavra de origem grega, é formada pelas palavras “ψυχή, psykhé = psique, alma, mente” e “λόγος, lógos = palavra, razão ou estudo”.
Desta forma, psicologia no sentido académico é o estudo da mente, da alma.
