Opinião (pág. 14)
Jornal de Espiritismo nº 79 · Outubro 2016Página 144 min
Depois de uma viagem longa em condições muito precárias, os imigrantes que nos séculos XIX e XX cruzaram o Atlântico à procura do sonho Americano estremeciam ao avistar pela primeira vez a Estátua da Liberdade. Era como se estivessem às portas da terra prometida. Ouviam-se gritos de júbilo, os doentes faziam um último esforço para subir ao convés, uma multidão abraçava-se exultando a conquista de mais amplas oportunidades num novo mundo.
As lágrimas corriam em todos os rostos enquanto acenavam aquela senhora no porto de Nova York que parecia iluminar-lhes o caminho em direção a uma vida liberta de jugos e opressões. Mas será que basta hastear a bandeira da liberdade para criar pessoas livres? Numa visita aos EUA, o psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente do holocausto nazi e defensor de que no sentido para a vida encontra-se a arma mais poderosa para vencer os mais terríveis desafios, não se coibiu de criticar a ideia mais comum de liberdade.
Afirmava ele que a liberdade era apenas parte de uma história e arriscaria degenerar se não fosse vivida através da responsabilidade. Ele recomendou aos Americanos que “À Estátua da Liberdade na Costa Leste deveria ser acrescentada a Estátua da Responsabilidade na Costa Oeste.” A ideia metafórica foi levada tãoasério que hoje existe uma Fundação para a Responsabilidade que está empenhada em angariar fundos para essa construção.
Até já possuem uma escultura modelo, projectada pelo escultor Gary Lee Price e encontram-se selecionadas as cidades de Los Angeles, São Francisco, Seattle e San Diego como possibilidades para receberem a obra. É uma ideia simbólica muito interessante. O sentimento de responsabilidade é uma das pedras-de-toque que permite conhecer o grau de pureza desse diamante que é a liberdade. A responsabilidade não procura bodes expiatórios, não lava as mãos nem argumenta que não depende de si.
A responsabilidade olha para dentro, arregaça as mangas e faz-se à estrada para encetar as tarefas que lhe compete, sentindo-se parte de uma família, uma comunidade, um país e um mundo para os quais tem deveres inalienáveis. Sem responsabilidade, a liberdade tende a descambar numa viagem egocêntrica e individualista à procura dos prazeres mais imediatos. Uma coisa é ter liberdade, outra bem diferente é saber viver com liberdade, compreendendo-a como um mecanismo que potencia o melhor do indivíduo, das sociedades e do mundo.
Para atingirmos esse grau de pureza ainda será preciso caminhar bastante. É natural que assim seja. Quem imagina as suas vidas passadas na pele de príncipes ou duquesas, é melhor repensar as probabilidades de isso ter acontecido. Olhando para as várias épocas e culturas da história, descortinam-se tempos de profunda submissão aos interesses dos mais poderosos, vidas de grande dependência social, cultural e financeira, em que homens e mulheres eram escravos da cultura, dos costumes, das leis morais, das ideias religiosas, do dogmatismo, sobretudo da ignorância.
Não foi há tanto tempo assim e hoje ainda tentamos libertar-nos dos hábitos biológicos, sociais e espirituais, dos reflexos A Estátua da Responsabilidade condicionados, traumas até, que este tipo de vivência nos infligiu. Como espíritos, temos um caminho muito curto de vivência em sociedades que promovem a liberdade e isso significa que ainda somos aprendizes nesta maravilhosa arte de ser livre. Esta arte precisa de outros ingredientes.
A autonomia é também indispensável já que ninguém é livre vivendo na dependência. Revelamos autonomia quando não nos permitimos ser levados pela força das correntes mais fortes, quanto mais o nosso pensamento e comportamento se encontrarem desembaraçados dos condicionalismos que nos tornam escravos de pulsões biológicas, manipulações sociais e familiares, vícios enraizados, foto arquivo NOVEMBRO.DEZEMBRO.2016 A ideia metafórica foi levada tãoasério que hoje existe uma Fundação para a Responsabilidade que está empenhada em angariar fundos para essa construção.
personalismos e influências espirituais que constrangem a própria vontade. Se um determinado comportamento nos prejudica e não o conseguimos impedir, é como se estivéssemos encafuados num cativeiro às ordens de um feitor implacável. Podemos reivindicar que temos liberdade mas falta-nos a vontade, ou o conhecimento ou até o discernimento para quebrar o ferrolho da dependência e agir com autonomia. Não somos livres. Mas ser livre é também poder escolher e decidir confrontando a nossa vontade, os instintos ou até as normas vigentes para irmos ao encontro do que é certo.
Para isso precisamos da ética. A ética marca o território entre os inúmeros condicionalismos a que estamos sujeitos e as escolhas que fazemos. Viver com ética é ter capacidade de pensar e escolher por si mesmo, pautando as suas ações pelo que serve melhor não apenas a si mas também aos outros e ao mundo. Viver com ética é agir pelo que é certo. Por vezes é necessário seguir a vontade, noutras é preferível não o fazer; Existem situações em que optamos por contrariar os princípios morais que balizam as nossas sociedades, noutras cumprimo-los.
Um egoísta tem apenas uma variável na sua equação: ele próprio. Agir de forma ética é saber dizer sim ou dizer não, mas fazê-lo com a responsabilidade de uma decisão tomada em consciência, adicionando as necessidades dos outros e do mundo às variáveis dessa equação. Esta forma de pensar coloca-nos diante de conflitos complicados pois existem situações em que aquilo que é lícito ou comum nem sempre é ético, momentos em que a nossa vontade está em contradição com aquilo que é certo ou até quando, servir os nossos interesses imediatos não serve melhor os interesses do mundo em que vivemos.
Viver esses dilemas é já um bom sinal, significa que adquirimos autonomia para pensar pela nossa cabeça e segurança para diferenciar as nossas escolhas da cartilha popular. O usufruto do livre-arbítrio implica fazer da liberdade, da responsabilidade, da autonomia e da ética os pontos cardiais do nosso comportamento e ação no mundo. As estátuas são magníficas na representação do ideal a que pretendem inspirar mas só seremos verdadeiramente livres quando formos artistas na arte da coerência entre o que pensamos, o que fazemos e o que é certo.
