Opinião (pág. 16)
Jornal de Espiritismo nº 79 · Outubro 2016Página 163 min
Na quarta proposição do Pai Nosso rogamos “o pão nosso de cada dia”. Pão simboliza as nossas necessidades materiais mas também as emocionais e espirituais. O “pão da vida” (várias vezes referido no Evangelho, por ex. em João: 6, 35), mais do que sustentar a vida biológica, atende as necessidades afetivas, espirituais, de que somos famintos por vezes sem consciência disso. O Bom Pastor, valorizou muito a ideia de agora, do presente.
Ensinou-nos a pedir para “hoje”, para cada dia. Por um lado, para termos sempre presente, em “cada dia”, a Fonte sagrada da nossa vida, Ser profundo, real, do nosso ser, e não nos distrairmos e isolarmos d’Ele; por outro, para não dissiparmos energias com preocupação pelo passado ou pelo futuro (ambos fora do alcance da nossa ação) e nos concentrarmos utilmente no presente; esse sim, ao nosso alcance. É crucial termos em cada momento “presença de espírito”, mantermos AGORA, no momento presente, bem lúcida e equilibrada a tónica da atividade mental, sem a deixarmos resvalar para o temor, ansiedade, ou qualquer género de tensão.
Felizmente constata-se uma crescente divulgação mundial dessa área de conhecimento e sua aplicação prática. Abunda no País o ensino de técnicas de meditação, atenção, relaxamento, por métodos variadíssimos: Yoga, outros saberes orientais e também ocidentais frequentemente inspirados neles, como cursos de mindfullness (entendamos presença de espírito, atenção plena) e de mental coaching (apoio, treino mental). Neles se treinam técnicas mentais para desmontar nas profundezas do subconsciente mecanismos negativos (marcas e traumas de experiências infelizes nesta existência ou em pregressas, e até da própria educação) que distorcem a nossa visão e avaliação de pessoas, factos, acontecimentos; e para “reciclar” a energia desses traumas e condicionalismos (…tudo se transforma) em mecanismos psíquicos construtivos, harmoniosos, geradores de progresso, bem-estar, êxito próprio e alheio, individual e social.
O “pão de cada dia”, pedido, é não só o da nutrição biológica mas também o da nutrição emocional e espiritual doada natural e gratuitamente pela Providência divina às Suas criaturas, com inesgotável solicitude e amor. Logicamente, podemos entender assim a chamada graça de Deus, promotora do “estado de graça” nos prosélitos da religião tradicional. Esse pão obviamente não tem que ser doado por intermediários supostamente investidos de tal faculdade; a paternidade amorosa do nosso Criador, infinito sustentador, fá-lo diretamente a cada criatura.
Sempre disponível para gregos e troianos, justos e injustos, esse “pão da Vida”, “graça de Deus”, não depende de terceiros mas diretamente da sintonia dos corações ávidos da sustentação natural, autêntica, do Ser do seu ser e Vida da sua vida. É muito comum as pessoas assentarem a sua vida e atividades na riqueza, na robustez ou beleza física, na situação social, na influência de familiares ou amigos, na reputação, em êxitos conquistados, etc.
São bênçãos providenciais, importa usufruirmos delas com sensatez e gratidão, sem contudo dependermos de nenhuma. É possível, ou até provável, qualquer delas se converter em dor, amargura, deceção. A única dependência fiável e segura que podemos ter é a da graça divina, a do pão da vida, em cada dia. Só ela constitui penhor garantido de crescimento interior, autorrealização, paz, sucesso _ ainda que, às vezes, contra a aparência externa e o julgamento social.
Por isso nos ensinou o excelso pedagogo de Nazaré a imperiosa necessidade de cultivarmos tal dependência no nosso psiquismo, com empenho e regularidade, certos de não precisarmos sequer de pedir-Lha mas apenas de aceitá-la, fruí-la com alegria e reconhecimento. Pai de infinito amor, Vida abundante das criaturas: dá-nos hoje o pão do corpo físico e da vida espiritual, da Verdade que ilumina, nos acorda potencialidades latentes, nos liberta da visão errónea, “reciclando-a” em sabedoria e poder para os nossos passos, o nosso agir e crescer para Ti.
João XAvier de Almeida foto ulisses.com.pt Abunda no País o ensino de técnicas de meditação, atenção, relaxamento, por métodos variadíssimos NOVEMBRO.DEZEMBRO.
