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Editorial / Conto Janeiro.fevereiro.2017

Jornal de Espiritismo nº 80 · Outubro 2017Página 24 min

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EDITORIAL / CONTO JANEIRO.FEVEREIRO.2017 Fraternidade? Sim, sempre! Uma virtude básica que estamos a aprender com êxito é a de sabermos dialogar com quem não pensa como nós sem transtorno emocional. Nesse sentido, Allan Kardec, o codificador do espiritismo, exemplificou uma rotina de registo e análise de dados à sua época de que beneficiamos até hoje. Não ofende perguntar: será que nós, no movimento espírita atual, nos identificamos realmente com essa prática?

Há vozes que não contornam a evidência de que modelos antigos se sobrepuseram espontaneamente com um desmerecimento enorme da investigação. Fala-se nas palestras um pouco por todo o lado no tríplice aspeto do espiritismo, mas na verdade a esmagadora maioria das comunicações assentam só num. Curiosamente é nesse mesmo âmbito que ainda se ouvem pessoas pouco informadas dizer que Kardec – um homem que teve, entre outras grandezas, a noção de falibilidade e consequente possível melhoria do que se faz – ficou desatualizado.

À luz da realidade vê-se que o que está em défice, é evidente, não é o trabalho metódico de Kardec, mas sim o de muita gente que parece não querer saber de trabalho que leve a pensar. Não se ver isso no movimento espírita é um contra-senso, mais ainda quando numerosos dos seus integrantes trabalham em áreas técnicas e científicas em que estas práticas são usuais Uma associação tem, por exemplo, cursos – pode fazer anualmente registos sintéticos que lhe permitam ver o que funcionou melhor e evitar o oposto –, tem reunião mediúnica provavelmente – pode fazer o registo semanal de dados, depois da reunião terminada, sem problema, que emerjam dos diálogos com o outro lado da vida no trabalho de esclarecimento dos que estão confusos –, tem atendimento privado – pode analisar ano a ano numerosos dados com respeito total pela privacidade dos atendidos, etc.

A implementação de uma estrutura de anotação certeira de dados, assente em itens Por cinco dias como Introdução, Objetivos, Método, Resultados, Conclusões, Referências tem virtudes de dupla face: por um lado, reporta o registo de dados e a sua interpretação; por outro, implementa através do exemplo uma cultura de investigação usual em numerosos sistemas de conhecimento hodiernos. Não se ver isso no movimento espírita é um contra-senso, mais ainda quando numerosos dos seus integrantes trabalham em áreas técnicas e científicas em que estas práticas são usuais.

Certo será que, passado um tempo neste ritmo de trabalho, agregam-se muitos dados, melhoram-se os métodos de recolha dos mesmos, e estes ficam a jeito de serem analisados de modo a apontar itens a melhorar, curiosidades interessantes na área do saber que, de outra maneira, se diluiriam no esquecimento. Podem até esses registos ter o formato de posters, pois permitem leitura de outrem em eventos. Mas não são aplicações decorativas: devem revelar metodologia e trabalho sérios de registo de dados.

É o mínimo que se pode fazer depois do exemplo de Kardec. Quem abordar o movimento e vier a verificar uma rotina deste jaez ficará bem impressionado e a qualidade dos colaboradores deste movimento pode também elevar-se. Agora que o ano virou, não é também oportuno rever estes itens? Desejamos-lhe boa leitura com todo o trabalho que os colaboradores deste jornal lhe oferecem com apreço. Votos de um ótimo 2017! foto arquivo Mais de seis lustros passaram.

Francisco Teodoro, o industrial suicida, experimentara pavorosos suplícios nas trevas... Defrontado por crise financeira esmagadora, havia aniquilado a existência. Tivera vida próspera. À custa de ingente esforço, construíra uma fábrica. Importando fios, conseguira tecer casimiras notáveis. E o trabalho se lhe desdobrava, promissor. Operários e máquinas eficientes, armazéns e lucros firmes. Surgira, porém, a retração dos negócios.

Humilhavam-no cobranças e advertências, a lhe invadirem a casa. Frases vexatórias espancavam-lhe os ouvidos. - Coronel Francisco, trago-lhe as promissórias vencidas. - Sr. Francisco, nossa firma não pode esperar. O capitão de serviço pedia mais tempo; apresentava desculpas; falava de novas esperanças e comentava as dificuldades de todos. Meses passaram pesadamente. Cartas vinagrosas chegavam-lhe à caixa postal. Devia a credores diversos o montante de 800 contos de réis.

A produção, abundante, descansava no depósito, sem compradores. Procurava consolo na fé religiosa. Por toda a parte, lia e ouvia referências à Divina Bondade. Deus não desampara as criaturas – pensava. Ainda assim, tentava a oração, sem abandonar a tensão. E porque alguém o ameaçava de escândalos na imprensa, com protestos públicos, em que seria indiciado por negociante desonesto, escreveu pequena carta, anunciando-se insolvível, e disparou um tiro no crânio.

Com imenso pesar, descobriu que a vida continuava, carregando, em zonas sombrias de purgação, a cabeça em frangalhos Com imenso pesar, descobriu que a vida continuava, carregando, em zonas sombrias de purgação, a cabeça em frangalhos. Palavra alguma na Terra conseguiria descrever-lhe o martírio. Sentia-se um louco encarcerado na gaiola do sofrimento. Depois de 30 anos, pôde recuperar-se, internando-se em casa de reajuste, reavendo afeiçoes e reconhecendo amigos...

E agora que retornava à cidade que lhe fora ribalta ao desespero, notava, surpreendido, o progresso enorme da fábrica que lhe saíra das mãos. Embora invisível aos olhos físicos dos velhos companheiros de luta, abraçou, chorando de alegria, os filhos e os netos reunidos no trabalho vitorioso. E após reconhecer o seu próprio retrato, reverenciado pelos descendentes no grande escritório, veio, a saber, que acontecimento importante sucedera cinco dias depois dos funerais em que a família lhe pranteara o gesto terrível.

À face da alteração na balança comercial do país, ante a grande guerra de 1914, o estoque de casimiras, que acumulara zelosamente, produziu importância que superou de muito a 4 mil contos de réis. Mostrando melancólico sorriso, o visitante espiritual compreendeu, então, que a Bondade de Deus não falhara. Ele apenas não soubera esperar... Do livro «Ideias e Ilustrações», de Francisco Cândido Xavier (médium) e Hilário Silva (Espírito).