Entrevista
Jornal de Espiritismo nº 80 · Outubro 2017Página 124 min
Suicídio: é mau ou bom falar dele? foto jg Embora seja incontornável dar uma notícia sobre suicídio quando isso ocorre com alguma pessoa de cariz mediático, a verdade é que impera na imprensa a ideia de que é preciso muito cuidado ao falar de suicídio, não vá a abordagem incentivar alguém a dar o derradeiro passo. É com base nesse ponto que colocamos a primeira pergunta a Trigueiro, autor do livro «Viver é a melhor opção», recomendado como bom exemplo numa cartilha de acesso público disponibilizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria.
André está agora sentado e já aplicou o microfone de lapela. A poucos metros, gentil, Cláudia, a esposa observa. Dentro de poucas horas vai dar uma conferência sobre ecologia e espiritismo num grande auditório, em Lisboa, no decurso do Congresso Espírita Mundial. A sala ecoa um pouco, está vazia, mas não há alternativa – já foi bom termos conseguido a oportunidade entre tantas solicitações. Tripé instalado, câmara de vídeo pronta, o tempo urge, começa a gravação… É mau ou bom falar de suicídio?
André Trigueiro – Existe um jeito certo de falar de suicídio. A ciência médica revelou que em obras de ficção, na literatura, no teatro, no cinema, na poesia, nas telenovelas, nos filmes, no jornalismo, dependendo da forma como se fala de suicídio, pode predispor-se pessoas fragilizadas psíquica ou emocionalmente a repetirem o gesto. Pode ser uma sugestão. Isso está comprovado. Vem de longe: século XVIII, 1774, o dramaturgo alemão Goethe, com uma obra intitulada «Os sofrimentos do jovem Werther» – o efeito-werther – é como os cientistas dizem.
O personagem do romance mata-se no final, jovem, e nos meses subsequentes jovens europeus no sexo masculino matam-se usando o mesmo método do personagem da ficção. Entretanto, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é fundamental que se fale de suicídio dentro de uma perspetiva de saúde pública. Como se faria isso? É importante lembrar que suicídio é caso de saúde pública no Mundo. É importante dar visibilidade às estatísticas, informar sobre os fatores de risco – por exemplo, quem tenta uma vez e não morre na maioria dos casos vai tentar uma segunda vez, precisa de ser assistido.
Por exemplo, depressão. Três a 5% dos casos de depressão resultam em tentativas de suicídio: tem de se prestar atenção. Depressão associada a alcoolismo é um enorme fator de risco suicida. Isto precisa de ser do conhecimento público. Porque na área da prevenção não dá para abrir mão da informação. Não se faz prevenção de doença alguma sem informação – isso vale para a lepra, tuberculose, doença coronariana, doenças sexualmente transmissíveis, SIDA, isso vale para o suicídio.
Outro ponto – a OMS recomenda que se divulgue amplamente os serviços de apoio emocional e prevenção do suicídio: quais são as organizações do governo, ou não governamentais, que oferecem uma escuta amorosa, uma assistência pontual a quem esteja em sofrimento.* Outro dado – na área da saúde pública institucionalmente quem acolhe esse segmento? Isso é importante! No Brasil existem os Centros de Atenção Psicossociais (CAPS).
Uma pessoa que não tenha recursos para pagar a um psiquiatra ou a um psicólogo, um plano de saúde, vai procurar o CAPS. Tudo isso é assunto de suicídio. E tudo isso que falei não vai levar ninguém a matar-se. Precisamos ter ciência de que prevenção se faz com informação e sonegar informação em favor de vida é grave. O espiritismo pode ajudar a prevenir o suicídio? André Trigueiro – Em alguns casos sim. Não todos. Quais casos?
São muitos, não conseguiria resumir aqui. É possível que, para algumas pessoas, façam sentido as informações a partir da doutrina que a morte não existe, e que a situação do suicida se agrava no Plano Espiritual. É possível que ela se convença a partir apenas das informações. É possível que ela se convença tendo a possibilidade de uma comunicação mediúnica de alguém conhecido, parente ou amigo, que se matou e relata de viva voz e se identifica, revela detalhes que só quem ouve conhece, para aferir a credibilidade da informação, confirmando o que a doutrina diz: a morte não existe e a minha situação agravou-se.
Haverá de mudar a perceção do que seja o suicídio. Entretanto, se em parte dos casos basta ter a informação para não especular sobre a ideia do suicídio – isso acontece –, noutra parte dos casos essa informação não faz a menor diferença, dado o nível de perturbação de angústia, de ansiedade – o ímpeto, a maneira abrupta com que se tenta “resolver” o problema. Há algo que eu deveria ter dito na resposta anterior, a OMS afirma categoricamente: em 90% dos casos o suicídio é prevenível porque está associado a patologias de ordem mental, diagnosticadas e tratáveis.
Por exemplo, depressão, pessoas perturbadas pelo uso de drogas lícitas ou ilícitas, esquizofrenia, transtorno de personalidade, etc., uma pessoa com alguma patologia de ordem mental grave talvez não consiga compreender, ou não tenha abertura para perceber o que a doutrina diz. O próprio Divaldo Pereira Franco, quando fala sobre como lidar com a depressão, é o primeiro a dizer «consulte o médico, veja se a recomendação é essa e, se for, tome antidepressivos».
Assistência psicológica: é importante ter um facilitador que ajude a revelar o lado oculto da sua Há muito para dizer sobre lesões autoprovocadas intencionalmente, face a pesquisas feitas em suicidologia. Em qualquer dos casos, é certo que o espiritismo fornece dados que são uma mais-valia. André Trigueiro é um jornalista, professor e estudioso da doutrina espírita que se debruçou de modo especial sobre este tema. De passagem por Lisboa em outubro, concedeu-nos uma entrevista exclusiva… JANEIRO.
