Inquérito
Jornal de Espiritismo nº 81 · Abril 2017Página 105 min
O humor é bem aceite no movimento espírita? Indagar isso pode parecer inconsequente, mas na verdade, nele ou fora dele, as respostas possíveis revelam que tipo de comportamento em média se aprende a ter na vida e qual o grau de assimilação de uma atitude mais positiva face à passagem terrena. Como vai o seu sentido de humor? Telegráfica, a pergunta abriu um balão na internet: «Conhece algum livro ou textos que falem sobre humor ou comédia no espiritismo?
». Assunto tão específico, à margem dos assuntos clássicos, num livro espiritista?, pensei e logo concluí: Desconheço… Mas faria sentido, sim! Aliás, porque não fazer um artigo com esse tema no “Jornal de Espiritismo”? Rir é ainda o melhor remédio Quem o disse terá sido Robert Holden, um psicólogo norte-americano, até porque a afirmativa desdobra-se em mil folhas no universo da saúde, conforme tão bem explica no caixilho desta peça Joana Santos.
Confessamos que por estas bandas, após uma breve corrida informativa, nunca tal tínhamos escutado: gelotologia. O palavrão – sinónimo de risologia – abriga o estudo do humor, do riso e de seus efeitos psicológicos e fisiológicos próprios do corpo humano. Todos temos esta experiência: nas interações próprias do dia a dia o riso desarma com frequência as pessoas perante tensões emocionais e facilita sem margem de dúvida o comportamento amigável.
Ao longo do tempo, no patamar evolutivo, será verdadeiramente uma conquista exclusiva da espécie humana ou provirá de outras espécies, desde há uns colossais milhares de anos? Por outras palavras: será que os animais conseguem rir, nem que seja à sua maneira? Bem, quem já teve a companhia de algum cão lá por casa lembrar-se-á que em momentos de brincadeira, ou no reencontro quando se chega ao lar, o focinho revela um “rosto” cheio de contentamento.
Além destas impressões empíricas, próprias do conhecimento comum, é referida na internet uma experiência de laboratório ocorrida com ratos. Tal qual ocorre connosco, ao fingirem lutar, podem estar a brincar. Nesta situação, produzem um som que alguns cientistas interpretam como algo correspondente ao riso humano. Há pesquisas que mostram que, se for atingida certa área do cérebro dos ratos e eles perderem a capacidade de emitir esse som, o compincha de farra não entende que aquilo é pura brincadeira, e por isso decorre desde aí uma luta a sério.
Estes animais – ratos, cães, macacos, etc. – brincam para se relacionar. Na infância treinam competências que lhes serão muito úteis na vida adulta. Contudo, parece que partilhamos com estes seres apenas o riso provocado por brincadeira. Na espécie humana, o senso de humor relaciona-se com o córtex frontal, no cérebro, que é bem mais desenvolvido no nosso caso do que nos outros animais. Deus terá sentido de humor? A pergunta apanhou de surpresa, com certeza, muitos dos leitores.
Dúbia por natureza, dependerá do conceito que se tenha de Deus. Se for uma imagem antropomórfica, ou seja, se vir Deus como um humano, física e psicologicamente, não será difícil admitir que pode ter sentido de humor. Mas se enveredarmos pelo conceito espírita – «inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas» –, que não entende Deus com forma de Homo sapiens nem parecido, o sim eonão já podem até começar a ser menos distintos.
Para termos uma amostra, utilizámos os comunicados noticiosos da Associação de Divulgadores de Espiritismo (ADEP), com 1270 destinatários, enviados gratuitamente a quem desejar, normalmente aos domingos ao final do dia, para sabermos no prazo de uma semana como avaliam estes assuntos os 31 leitores que tiveram a gentileza de responder. As perguntas e os gráficos estão nestas páginas coloridas e cabe-lhe concordar com as opiniões maioritárias ou não.
Ainda assim, a conversa com que iniciámos estas linhas estava como as cerejas, umas puxam outras. Interpelo: - No YouTube há um grupo no Brasil centrado nisso. Deve conhecer. - Sim, os Amigos da Luz? Conheço. Tenho um amigo que escreve umas coisas para eles. - É isso. Eles são, entre o que me lembro, os que estão mais dedicados a essa área do humor. Acho interessante o trabalho deles, mas já ouvi uma opinião em Portugal de quem não gosta muito...
- Pois. Normalmente o humor não é muito bem visto. - O humor não é uma área fácil, mas quando for mais praticado as pessoas aceitarão melhor. - Ainda agora tive a ler um livro de um humorista português muito conhecido em que ele refere que na Bíblia Deus não se ri uma única vez. - A Bíblia é uma obra humana, não reflete Deus como ele é. Se vir os estudos de Raymond Moody Jr. com as mortes aparentes, verá que o «ser de luz» referido tem elevação e sentido de humor.
Por vezes, quando se está a atender entidades espirituais em dificuldade e eles vêem conhecidos que, por fim, que os vêm buscar, o sorriso e a boa disposição são constantes. A própria palavra MARÇO.ABRIL.2017 evangelho quer dizer “boa nova”, boas notíciasquem não sorri com boas notícias? - Sim, por acaso vi já vários relatos desses e para mim não faz sentido de outra forma. Mas a nossa cultura é mesmo assim e vem de há muitos anos...
aquela cultura judaico - -cristã: o sofrimento é que é bom e “muito riso pouco siso”. - É isso, é. Mas o quadro está a mudar. Não se irrite: sorria Aqui há uns 30 anos, quando na cidade do Porto cheguei ao guiché de um clube de futebol na Boavista, para tratar de um assunto de natureza profissional, não tive como não ver no vidro transparente afixados dizeres que tão bem conhecia de um dos livros psicografados pelo médium Francisco Cândido Xavier, com autoria espiritual de André Luiz em formato de quadra, ali ampliada para míope ver até sem óculos: “Não se irrite, sorria.
Não critique, auxilie. Não grite, converse. Não acuse, ampare”. Claro que estrategicamente a autoria do venerável Espírito tinha sido suprimida à tesourada, mas a mensagem estava lá, luminosa, no fito da funcionária com certeza pedir alguma paciência a quem lhe pedia a atenção. A deixa em cima abre campo à consideração dos vários tipos de riso. Há sorriso e gargalhada, há riso nervoso e riso franco, entre outros risos e risotas, todos eles definidos por quem os estuda.
Resumidamente, diante de uma palestra numa associação espírita, em que o sentido de humor seja bem aplicado para desanuviar mentes centradas nas suas preocupações difíceis, o bom enquadramento do mesmo é que define se é disparate ou se é edificante.
