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Opinião Março.abril.2017

Jornal de Espiritismo nº 81 · Abril 2017Página 134 min

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OPINIÃO MARÇO.ABRIL.2017 Não parece difícil, no entanto, também o papel de galinha choca afigura-se bem mais simples do que é: são necessárias três semanas de um equilíbrio perfeito entre temperatura e humidade para que o pintainho tenha condições de rachar a casca do ovo e eclodir para a vida. É um período de grande exigência em que as galinhas entram num regime de exclusividade ao choco, abandonando a tarefa apenas por breves instantes para se alimentarem.

A galinha choca Por razões que se desconhecem, a galinha protagonista desta história era diferente: tinha tanta vontade de ver aquelas cabecinhas amarelas a segui-la por todo o lado que o tempo que a separava desse momento no futuro transformou-se num tormento no limite do insuportável. A impaciência embalou de tal forma que ninguém teve mão nela e a galinha ficou tão ansiosa pelo grande desfecho que foi descuidando o processo para o atingir.

Como não conseguia permanecer quieta, os momentos em que se afastava do choco tornaram-se mais prolongados, com frequência revirava os ovos com as patas à procura de sinais de pequenas rachadelas e chegava mesmo a dar-lhes bicadas como quem os apressa, como quem lembra que já é hora, mesmo não havendo ainda decorrido nem a metade do tempo que se exige. Não foi com grande surpresa que, numa manhã enregelada, os ovos foram descobertos partidos e abandonados, despidos do mais leve sinal de vida.

Os tão desejados pintainhos amarelos, precisariam de aguardar por melhores condições para sair da casca. Tal como a galinha desta história, encontramos dificuldades na arte de saber esperar. Em plena era da tirania da velocidade, predomina a ideia de que esperar é uma perda de tempo e perder tempo é uma profanação social. Um dos símbolos mais icónicos da nossa sociedade é a da ocupação constante, da atividade permanente, em que a espera é considerada aquele terrível aborrecimento que se intromete entre o início da vontade e o momento em que ela é concretizada.

Não se podendo exorcizar a morrinhice da espera, que seja substituída por uma qualquer banalidade. É assim que foi normalizada a pretensão de querer tudo para ontem, resolvido no mais curto espaço de tempo e com a menor dificuldade possível. O problema é que, com uma frequência que se pode considerar francamente exagerada, aquilo que mais desejamos não surge nos momentos que mais queremos ou precisamos. O problema é que, com uma frequência que se pode considerar francamente exagerada, aquilo que mais desejamos não surge nos momentos que mais queremos ou precisamos.

Nessas alturas, é indispensável desenvolver a paciência para saber esperar mantendo o rumo traçado. Paciência não é conformismo diante da adversidade nem uma qualquer atividade lúdica em que se empurram os problemas com a barriga à espera que eles se desenrasquem sozinhos. Existem momentos para agir, inovando e revolucionando o que foi feito até então, mas também momentos para esperar, aguardando com tranquilidade e equilíbrio emocional o tempo propício para a germinação das sementes que foram lançadas à terra.

Se não soubermos dar tempo às sementes que difundimos nunca desfrutaremos da magia de ver florir o que ambicionamos. A impaciência quer sempre apressar o processo, criando rupturas e inconsistências inevitáveis quando é preciso uma maturidade que só o tempo lhe pode dar. Vivemos sôfregos pela pressa, constrangidos a acelerar o passo, pressionados sobretudo pela ideia trágica da perda de tempo, receosos que, se não acompanharmos o resto da chusma, não haja vivalma que espere por nós.

O que não percebemos é que, apressados e impacientes, aquilo que é construído nas diferentes valências da vida não pode deixar de ser provisório e descartável, volúvel como um mirabolante castelo de cartas que se destina ao desmoronamento. Esta urgência é daninha também para os esforços espirituais desenvolvidos. Sem paciência, aumenta a dificuldade em entender os problemas com a delicadeza necessária, havendo maior preocupação com o seu fim do que com as causas que os provocaram.

Impaciência e superficialidade andam muitas vezes de mãos dadas e atinge-se o mais grave nível de superficialidade quando não nos dispomos a investir o tempo, a atençãoeo conhecimento necessários para pensar, compreender e resolver os problemas emocionais, sociais, afetivos ou espirituais que transtornam a nossa vida. É dramático. Em vez de nos especializarmos em ser pensadores da própria realidade e cientistas do nosso bem-estar andamos à procura de fórmulas miraculosas e de propostas prontas a deglutir que resolvam no imediato o que nos incomoda.

O trabalho de aperfeiçoamento e de encontro com a paz é um caminho de busca e maturidade que é cerzido pela paciência e dedicação, pelo conhecimento e pela experiência, pela sensibilidade da compreensão, distinguindo os momentos em que é preciso agir daqueles em que urge saber esperar. Esta capacidade não se compra nem se transfere, é resultado de muita prática, resiliência à frustração e tolerância ao erro. Paciência, claro.

Tal como a galinha protagonista da nossa história, estamos tão ansiosos pelo resultado final que descuramos o processo para o alcançar. O anseio por soluções imediatas é de tal forma demolidor que não nos dispomos a tolerar o desconforto o tempo suficiente, não percebendo que estamos a prolongá-lo, por vezes carregando esse desconforto eternamente. Por Carlos Miguel À distância de um olhar nada distinguia aquela galinha choca de qualquer outra.

Impulsionada pelo destino e seguindo a cátedra habitual, juntou os ovos e prostrou-se em cima deles aconchegando-os o melhor que podia. foto ulisses.