Área importante: espiritismo e ambiente
Jornal de Espiritismo nº 82 · Maio 2017Página 193 min
Mas… não é assunto ausente, ou pelo menos minoritário, nas abordagens feitas nas palestras dos centros espíritas? Esta entrevista – feita em Lisboa, poucas horas antes da conferência que André Trigueiro, jornalista de Além-mar, deu no Congresso Espírita Mundial – datada de outubro de 2016, deixou a primeira pergunta na edição anterior. Vem agora a segunda… É raro ouvir falar de temas ambientais numa associação espírita: como explica isso?
André Trigueiro – A doutrina espírita, enquanto filosofia espiritualista, no Brasil está fortemente esta vinculada ao aspeto religioso, e isso não corresponderia à visão cardequeana do que seja a doutrina. Nesse sentido, estamos muito preocupados em falar da reforma íntima, da reforma moral, sem considerar que a reforma moral passa por uma relação ética com a nossa casa comum. Espiritismo e ecologia: tema raro nas palestras Eu não estou a dizer nada de novo.
O papa Francisco, o ano passado, na sua primeira encíclica «Laudato si» (Louvado seja), inspirada no «Cântico das criaturas» de Francisco de Assis, sinalizou para mais de um bilião de católicos e para o Mundo o compromisso que ele pensa que a Igreja deve ter a favor de uma nova ética que pressupõe o cuidado nosso para connosco – auto-estima –, cuidado nosso para com o próximo. Eu preciso de inserir no meu aplicativo a presença dos outros de uma maneira saudável porque, se não for assim, eu não serei feliz.
Eu não posso ser feliz sozinho, eu não posso realizar o meu projeto evolutivo à revelia de terceiros. E passa pela casa comum! Temos uma lei do inquilinato espiritual. A lei dos homens estabelece que um imóvel, quando é alugado, o inquilino deve devolvê-lo no mínimo nas mesmas condições de quando o ocupou. É uma questão de ética. Da mesma forma, a Terra, não nos pertencendo, é um planeta que está aqui colocado para meu usufruto, mas não de qualquer maneira.
É uma questão ética! Portanto, passa por uma filosofia espiritualista que tem um aspeto religioso. Que relação devo eu estabelecer na transitoriedade do mergulho na carne nesse plano? Da mesma forma, a Terra, não nos pertencendo, é um planeta que está aqui colocado para meu usufruto, mas não de qualquer maneira. Isso diz respeito ao consumo de água, de energia, descarte de resíduos, o modo como me desloco, o meio de transporte que utilizo, o que como, que é que escolho consumir (porque o consumo é um ato político), então, não vejo nenhum problema – nenhum!
– em inserir dentro do discurso doutrinário, porque já está lá, por exemplo, na lei de conservação, que é uma das leis morais do espiritismo, é um tratado de sustentabilidade. Encontra-se ali categorizado o que é o necessário e o que é supérfluo e, na pergunta 705, está muito claro: Porque a Terra nem sempre oferece ao homem o necessário? Kardec pergunta à Espiritualidade Maior, no pressuposto que não existia no século XIX da Terra com apenas um bilião de habitantes, não poder suprir o homem do necessário.
Foi uma pergunta profética! A Espiritualidade Maior responde: A Terra ofereceria sempre ao homem o necessário, se com o necessário soubesse o homem contentar-se. A lei de conservação afere à doutrina espírita o compromisso com o planeta. É onde estamos, mas não nos pertence. É ético eu cuidar da casa comum. A completa e absoluta sinergia com a primeira encíclica do primeiro papa chamado Francisco. foto ulisses.com.pt SUSTENTÁVEL MAIO.
