Editorial / Conto
Jornal de Espiritismo nº 82 · Maio 2017Página 23 min
EDITORIAL / CONTO Ao longo de um dia quantas vozes neutras pronunciamos? Somando, quantas alfinetadas escapam no desvario de uma conversa fortuita e, no melhor sentido, quantos pensamentos bons pacificam o mundo interior de cada um? A paz exterior, tão importante para a construção do bem-estar coletivo, dá-nos espaço para existir bem, mas é necessário algo mais – viver é preciso. Importa a interiorização de outro tipo de paz, aquela que não fica pela superfície do que vemos e, por vezes, é capaz de preencher de modo extraordinário a mente de cada um: a paz interior.
Não funciona com o carregar de um botão, como o aparelho lá de casa, mas vai-se fixando na medida em que a procuramos. Ir e vir, reagir e agir. No vaivém do dia a dia o que fazemos tem retorno que não pede licença para se sedimentar na consciência. Pensar bem traz paz. Esta, porém, nos dias que experienciamos, configura uma ilha paradisíaca onde gostávamos de permanecer. Vegetação luxuriante, areias limpas no fluxo de brandas ondas do mar ensolarado.
Se por ali permanecêssemos em longos períodos quantas descobertas importantes ficariam adiadas, na refrega de outras viagens, de outros horizontes. Ninguém precisa por isso de se censurar por não ter ainda interiorizado esse estado de alma em construção. O facto de o não sentir com maior frequência é um indicador inteligente do trabalho interior que é mister realizar ao longo de muito tempo. Importa a interiorização de outro tipo de paz, aquela que não fica pela superfície do que vemos Passa em boa parte pela forma como tratamos outrem, como vemos os nossos semelhantes.
Pensar bem deles catapulta peCuriosa seleção de obreiros quenos e quânticos grãos de paz em vagas sucessivas, como as nuvens quase invisíveis de pólen que as flores nesta época dispersam aos milhões por toda a parte. Gera paz aquele que repara numa flor a sorrir a partir do solo sem olhar a quem. A mesma paz que regressa à consciência a partir da forma como lidamos, por livre-arbítrio, com as leis da natureza, aquelas que estimulam a evolução do ser espiritual que é cada ser humano.
Por isso, faça por visitar a sua bela ilha de paz interior sempre que tiver necessidade, mas vale a pena também sentir-se grato por se ver obrigado a sair de lá porfiadas vezes, a fim de que a ginástica evolutiva que urge fazer não cristalize e, pelo contrário, abra caminhos novos, cheios de esperança e amor, para o porvir mais próximo. Algo nos diz que o vasto leque de colaboradores deste jornal contribuiu no espírito do que acabamos de escrever.
Não concorda? Pela Redação foto ulisses.com.pt Um homem saiu a recrutar pessoas para a realização de um trabalho importante. Procurou os jovens. Muitos disseram que não tinham experiência, nem vocação para o serviço. Senhores de meia idade alegaram compromissos inadiáveis. Alguns velhos discorreram sobre dificuldades de locomoção, raciocínio lento ou doenças que reclamavam repouso. Disse o homem: Que farei? E teve uma ideia.
Contratou músicos e postou-se na esquina de uma praça movimentada. Ao som de tamborins, pandeiros, reco-reco, cuícas e muita cantoria não tardou enorme ajuntamento de pessoas de todas as idades. Era bom de ver: cantavam, pulavam frenéticos. Todos queriam mostrar a boa forma e brincar, de verdade, a mais valer, com o máximo empenho. Depois de algum tempo, dispensou os músicos e começou a falar sobre assuntos cívicos, deveres para a família, a pátria e a humanidade, coisas dessa grandeza.
Como previra, notou que poucos ficaram ouvindo; muitos se foram. Continuou falando sobre moral e retidão do caráter, vigília religiosa e ensinos evangélicos. Aí a situação piorou. E não demorou a perceber pequena plateia ao seu redor. Finalmente, conclamou à reduzida assembleia: – Agora, preciso de operários. De gente para trabalhar. Quem se habilita? Ficaram cinco jovens, duas senhoras, um homem de meia-idade e dois velhos.
Levantando as mãos para o céu o recrutador orou jubiloso: Cada um dos que ficaram vale por mil dos que se foram! – Graças te dou, meu Pai por me teres concedido esta pequena multidão excelente!… Um erudito, desses bem tolos que a tudo assistia, compadecido, aproximou-se dele e colocando a mão sobre seu ombro, lhe disse: – Pobre homem, perdeste uma multidão e ainda rendes graças? Havia mais de mil pessoas aqui… – Ah, meu irmão!
disse o homem, é porque tu não sabes… Cada um dos que ficaram vale por mil dos que se foram! Fontehttps://srggomes.wordpress.com/ mensagens-e-poemas-espiritas/contos-espiritas foto ulisses.com.pt MAIO.JUNHO.
