Opinião (pág. 13)
Jornal de Espiritismo nº 82 · Maio 2017Página 135 min
Mães que choram, os vossos gritos ao alto são ouvidos! Deus, que estende a palma das suas mãos a todas as aves perdidas, por vezes ao antigo ninho faz regressar o mesmo borrachito. Queridas mães, o berço fala com o túmulo, a eternidade guarda mistérios insondáveis que vamos aprendendo a decifrar através de breves sussurros, espécie de mapas para os segredos divinos. Esta mãe de que vos quero falar morava em Blois e eu conheci-a num tempo bem mais próspero do que hoje quando habitava as terras do meu pai.
Possuía todos os bens que Deus dá ou permite ter, casara-se com o homem que amava e tinha um filho bebé que lhe emprestava tal felicidade que as palavras são frouxas para descrevê-la com justeza. O menino deitava-se num berço de seda ao lado da sua cama e, antes de adormecer, ela deixava-se encantar pelo murmúrio delicioso que ele fazia, saciado pelo leite materno que o nutria. Todas as noites, aquela pobre mãe abria-se para mil quimeras sem fim e os seus olhos brilhavam na escuridão em permanente vigília.
Perseguida pelas loucas suposições que a assaltavam, com a alma muda e ainda entorpecida, inclinava-se sobre o filho para certificar-se de que apenas dormia. De manhã, ao redescobrir o sol a brilhar no seu sorriso, cantava, simples e embevecida. Recostada numa cadeira de baloiço, com o seu lenço de cambraia denunciando os seios inchados do leite, ela adorava a frágil criança, chamava-lhe anjo, tesouro, amor e outras coisas tolas.
Oh! Como ela beijava aqueles pezinhos cor-de-rosa! Como os mimava falando com eles! O rapaz, vulnerável e sedutor, ria sem parar numa alegria inocente enquanto ela o erguia no ar imitando os mais estranhos rugidos e silvos. Tremendo como um pequeno veado que se assusta com o estremunho de uma folha, o menino cresceu. Não se pense que é uma coisa banal. Para uma criança é um desafio e tanto porque crescer é tentar. Ele agora já sabia caminhar, aprendera a falar, até já corria e alinhava em patifarias, ele tinha três anos.
Dos seus lábios, as palavras voavam como os borrachos que batem as asas à saída do ninho e, empurrados pelo vento, se atrevem a voar. Eamãe dizia: “Olhem meu filho!” e continuava: “Vejam como ele está grande! Ele aprende tudo; ele conhece as letras. É um pestinha! Já quer que eu o vista como um homenzinho, faz birra porque não quer vestidos de meninas; É tão traquina aquele homenzinho! Ele vai chegar muito longe, tem olhos vivos e espírito insaciável, eu já o faço soletrar o evangelho.
” E os seus olhos endeusavam aquela frágil cabecinha. Mulher feliz, mãe de olhar triunfante, ela sentia o seu coração bater dentro do peito do filho que debutava. O Regressado Certo dia, um monstro tenebroso, falcão das trevas, abateu-se sobre a casa branca. Horroroso, o monstro a que os entendidos deram o nome de difteria, atirou-se à garganta do pobre menino e não mais a largou. Praga maldita, vil traição! Alguém já os viu a debater-se?
Elas resistem, estas crianças lutam bravamente mas a sombra vai dominando os seus olhos ternos e os seus lábios deixam sair um estranho murmúrio, tão misterioso drão e levou-o. Uma mãe, um pai, a dor, o sombrio caixão, as testas encostadas contra os muros, os pungentes gemidos que se misturam com o choro compulsivo. As palavras esgotam-se quando as lágrimas caiem. Silêncio palavras humanas! Aquele coração de mãe foi pulverizado.
Durante três meses ela permaneceu petrificada num canto escuro, protegida pelas sombras da solidão. O olhar colara-se num foto ulisses.com.pt que parece que ouvimos no seu peito as palpitações da morte. Numa noite infame, o galo negro do túmulo empoleirou-se à janela para cantar a chegada de uma cinzenta madrugada. Tal como um fruto delicado que congela ao toque de uma agulha, o menino morreu. A morte chegou furtiva como um laponto do espaço e ela murmurava ladainhas obscuras, sempre recapitulando a lembrança do mesmo ângulo do muro.
Deixou de se alimentar, não saiu mais de casa, os lábios tremiam-lhe. A sua vida era o seu sofrimento. Por vezes, ouviam-na murmurar para alguém que ninguém via: “Devolve o meu filho!” Chamado o médico, ele aconselhou: - “É preciso distrair este coração tão triste pedindo a Deus que lhe possa dar outro filho”. Passaram-se os dias, as semanas, os meses e ela sentiu que ia ser mãe outra vez. Diante do berço ainda despojado daquele tesouro perdido, ela recordava o tom da voz do menino chamando: “Minha mãe!
” E quando sentiu que uma desconhecida promessa estremecia dentro de si, empalideceu e caiu de joelhos em pranto enfurecido: “Quem é este estranho? Não, eu não o quero! Não! Meu querido menino, ficarias com ciúmes. Coberto por essa terra gélida, dirias: ‘Fui esquecido, alguém ficou com o meu lugar. A minha mãe está feliz, abraça outro como fazia comigo enquanto eu estou entregue à solidão, sem carinhos, dentro do meu túmulo!
’”. Mulher feliz, mãe de olhar triunfante, ela sentia o seu coração bater dentro do peito do filho que debutava. Era assim o estado deplorável desta dor tão profunda quando finalmente chegou o dia em que ela colocou outra criança no mundo. Em comovido pranto, o pai exultou: “É um rapaz!” Mas aquele homem estava sozinho em sua felicidade. A mãe permanecia indiferente, perdida nas recordações antigas e dolorosas dos tempos em que fora feliz.
Trouxeram-lhe a criança embrulhada num cobertor e ela aceitou-o como alguém a quem passam um prato vazio para colocar à mesa. Deu-lhe o peito. Num primeiro momento algo parecia ter mudado na relação com o pequeno mas sentiu vergonha. Estava a pensar mais no seu novo filho do que na alma enlutada e fez um esforço para se focar menos no berço e mais na mortalha: - “O anjo no seu sepulcro está só!”, repetia. Mas algo inesperado arrebatou-a da sua ladainha e fê-la estremecer.
Doce milagre, que alegria! Encostado entre os seios, o recém - -nascido, com uma voz que ela conhecia tão bem, sussurrou-lhe daquele jeito traquina: “Sou eu! Não digas a ninguém!” Victor Hugo Tradução livre por Carlos Miguel do original Francês do poema “Le Revenant” de Victor Hugo, livro “Les Contemplations” MAIO.JUNHO.
