82 — índice de conteúdos

Opinião

Jornal de Espiritismo nº 82 · Maio 2017Página 123 min

Partilhar
Idioma

Uma cotovia chamada liberdade foto arquivo Esta emancipação da alma em relação ao corpo é que é liberdade! É claro que até esta liberdade tem os seus perigos e às vezes o corpo, que de ordinário é prisão, serve de refúgio abençoado. Mas nem por isso a liberdade perde beleza e o acordar mantém-se difícil. E por isso pessoas como eu, que amam a liberdade mas não estão ainda lá muito iluminadas, acham que o melhor canto é o dos rouxinóis, que celebram a noite.

Estive neste grupo até que numa madrugada já insone ouvi as cotovias. Ah!, as cotovias! (O “Poverello” nutria carinho especial pelas cotovias – e vá lá saber-se porquê. E eu quis saber porquê.) Pois não é a cotovia o pássaro que anuncia o dia?! Deveria, por isso, de continuar a preferir os rouxinóis, já que tanto me custa o acordar! Mas aqui o dia, e sobretudo com o “Poverello”, não se refere tanto a um facto físico, mas mais à luz que ilumina consciências.

E iluminando-se a consciência a verdade torna-se conhecida e em conhecendo a verdade seremos livres. Ah!, pois, a consciência iluminada mais o conhecimento da verdade é que emancipam realmente a alma. Oh!, vinde, cotovias, cantar a melodia da luz ao meu ouvido, para que o meu sono não seja tantas vezes ocasião de pesadelo e o acordar não me traga aquela estranheza penosa de uma entrada na prisão. Quando eu for luz só saberei amar e, logo, serei intrinsecamente livre, porque não me infelicitam mais as peias dos sentimentos vis, das emoções desarvoradas, dos pensamentos mesquinhos, da vontade ao serviço das paixões.

As sombras derivadas do egoísmo e do orgulho que albergo e alimento é que me privam da liberdade. Jesus era um ser livre porque nele não havia mácula que lhe causasse sofrimento. Não sentia mal, não pensava mal, não dizia mal. Era serenamente feliz. Ponto. Possuía a paz. “Dou-vos a minha paz, deixo-vos a minha paz”, dizia. Isso é que é liberdade. Não é de fazer como uma pessoa que conheço que quando se sente pior com ele mesmo e com a vida foge mentalmente para onde só ele e Deus sabem, como os autistas fazem com a sua culpa, numa vã tentativa de libertação do passado que persegue e oprime.

Todas as liberdades de que se fala (de consciência, de pensamento, de expressão, de isto e de aquilo) são boas e necessárias, mas a liberdade grandiosa e bela – sigo a intuição – é outra coisa. Não sei dizê-la bem porque, como é intuição, está do lado direito do cérebro e a linguagem está do esquerdo. Por isso, por essa dificuldade também os símbolos – e aqui o símbolo é a cotovia, coitada (ou feliz, sei lá), que não sabe nada destas inquietações, nem especula sobre a liberdade e o determinismo, apenas esgaravata para achar comida e canta para ser ela própria.

Então direi que a liberdade que intuo já não é uma cotovia que anuncia o dia, mas o próprio dia – a luz em que posso contemplar Deus (e os puros de coração verão a Deus, diz uma das bem-aventuranças). Só pode ser por isso que o “Poverello” amava tanto as cotovias. Porque tendo ele o coração puro era livre como eu só intuo se pode ser. E a gente intuir as coisas como elas são e saber - -se incapaz de as viver contribui muito para que o acordar seja aquela coisa penosa quase indesejada.

O facto de não poder dissociar-se liberdade de responsabilidade e ter usado a primeira sem a segunda é que levou, e continua a levar, a que não consigamos viver a felicidade. Porque a felicidade, por mais relativa que seja e que nem assim a vivemos, está logo ali, onde a ponta do indicador quase toca. Mas se criamos para nós próprios este suplício de Tântalo, de nada vale queixarmo-nos. Colhemos o que plantamos. “Vade retro”, rouxinóis, e vinde vós, ó cotovias, para as minhas varandas imaginárias, lá na casa do bosque à beira do lago, onde eu já não tenho vícios de espécie alguma, cantar comigo alegres matinais canções.

Por A. Pinho da Silva É-me fácil o adormecer, mas é-me difícil o acordar. Talvez porque dormir signifique entrar na liberdade e acordar signifique sair dela. É a tal questão da emancipação da alma, tão bem tratada por Kardec e pelos Espíritos da codificação. Ah!, pois, a consciência iluminada mais o conhecimento da verdade é que emancipam realmente a alma. MAIO.JUNHO.