Centrais (pág. 11)
Jornal de Espiritismo nº 82 · Maio 2017Página 115 min
gente encara como normais. Jesus de Nazaré referia «Bem-aventurados os que são brandos, porque possuirão a Terra» (S. Mateus, cap. V, v. 4.) e igualmente «Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus». (Id., v.9.) Na vida em grupo, enquanto a agressividade incrementa a competição, a mansuetude propicia as luzes da colaboração. Todos conhecemos pessoas mais afáveis e pacificadoras do que outras.
Isso não quer dizer que não haja momentos em que se deve manter firmeza, mas se no atual plano evolutivo estamos habituados a ver a lei da força, em sociedades mais evoluídas, decerto no futuro, ou no presente noutros planos de vida, emerge um outro vetor de relacionamento, mais espontâneo e esclarecido: a autoridade moral. Em «O Livro dos Espíritos», lê-se que «A sobreexcitação dos instintos materiais abafa, por assim dizer, o senso moral, como o desenvolvimento do senso moral enfraquece pouco a pouco as faculdades puramente animais» (questão 754).
Comportamento primário A violência é entendida como um comportamento primário a que por vezes, sobretudo em situações de pressão, qualquer um pode incorrer. Sejamos realistas. Contudo, no horizonte evolutivo, vislumbra-se um plenilúnio de uma beleza singular sempre que aproveitamos o tempo para povoar o nosso mundo interior com as bênçãos da afabilidade e da doçura. Um exemplo muito interessante das coordenadas a que nos reportamos emerge das atitudes próprias de quem de modo correto dialoga com os que partiram desta vida material e por um tempo ainda se encontram confusos, apegados aos maus hábitos que ainda não quiseram alterar.
Quando no transe mediúnico um Espírito comunicante inicia a sua manifestação com o estado de alma que lhe é habitual, até mesmo com agressividade em elevado grau, nunca se lhe responde na medida afim. Apagar fogo com álcool não é boa medida. Bem pelo contrário, a afabilidade demonstra ser o soro de efeito rápido que suscita respostas compatíveis e a breve prazo a tranquilidade vai predominar a fim de permitir o diálogo racional, esclarecido, capaz de pacificar e traçar metas claras rumo a uma vida mais feliz.
Bem pelo contrário, a afabilidade demonstra ser o soro de efeito rápido que suscita respostas compatíveis e a breve prazo a tranquilidade vai predominar a fim de permitir o diálogo racional Estamos por isso num caminho de aprendizagem que vai levar cada indivíduo a aprender as rotinas tranquilas que acabam por substituir a violência pela paz, remetendo a primeira paulatinamente ao lugar que lhe está reservado há muito tempo no museu das peças primeiras das nossas experiências evolutivas multimilenares.
Crueldade «Há pessoas que não têm consciência», disse Miguel na turma de curso básico de espiritismo presencial. O item em estudo era o da crueldade, num dos cadernos das leis morais. Defendia na sua questão já ter visto pessoas fazerem mal a outras pessoas e nem ao de leve revelarem um pingo de remorso. Daí que lhe parecesse que pessoas com atitudes enquadradas em elevado nível de crueldade não teriam, como é normal, consciência, o tal “lugar” onde “está escrita a lei de Deus” (“O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec, questão 621).
É certo que uma coisa é o ser, outra é o parecer. A interpretação que cada um faz dessas leis da natureza que regulam a vida espiritual altera-se à medida que a sua capacidade intelectual e afetiva se dilata evolutivamente. O assunto recorda um pouco o ciclo de vida, com autênticas metamorfoses, passe a expressão, como ocorre com as borboletas. Entre o ovo, a lagarta, a crisálida e a mariposa propriamente dita há morfologias abissais.
Como entender, por exemplo, quase contemporâneos, Hitler e Ghandi, o primeiro A violência é entendida como um comportamento primário a que por vezes, sobretudo em situações de pressão, qualquer um pode incorrer eleito democraticamente e o segundo a luzir pela elevada autoridade moral? A crueldade e outras inferioridades evolutivas não vão passar ao de leve por muito tempo, entendendo-se estas coordenadas na ordem dos milhares e mesmo milhões de anos de evolução espiritual.
Não será a crueldade humana uma fase temporária em séculos ou milhares de anos, que carece de se saturar a si própria, como num mundo primitivo – o desenvolvimento do ovo – para emergir, transformada, na energia do remorso e das reparações que a lei de causa e efeito impõe em regime de planeta de provas e expiações – a ínfima lagarta, a ensaiar os pequenos passos de uma fase mais avançada – onde se sente como próprio o mal feito a outrem, substituindo-o por isso pouco a pouco por comportamentos cada vez mais eficazes de fraternidade e cooperação, a fim de mais tarde, caldeado pelas transformações necessárias, ganhar asas para voar e contribuir em vertentes de amor e da sabedoria?
Por isso, compreende-se que a cada um cabe no quotidiano a melhor parte, que é a de reduzir passo a passo a agressividade diante das contrariedades a fim de povoar a sua tela mental e afetiva com respostas mais tranquilas, já que o livre-arbítrio de outrem com frequência é respeitável, sem que seja de nossa competência prescrever-lhes as opções que gostávamos que tivessem escolhido. A paz, assim, pode ser vista como um cenário exterior, porém, este não é condição necessária e suficiente para que seja interiorizada.
Esta paz interior é aquela que depende realmente de nós próprios e está nas nossas mãos beneficiar desse prazer, criado pelas respostas que colhemos na consciência mediante as atitudes progressivamente esclarecidas e fraternais que podemos cada vez mais implantar no nosso dia-a-dia. É esse o programa. Porque não estar atento a isso? Texto da Redação do JDE PUBLICIDADE Pacificómetro Não há neutralidade no domínio da vida – não basta não fazer o mal, necessário é fazer o bem.
Os Espíritos deixam isso muito claro. O bem-estar interior é função de uma virtude ativa: «Para fazer-se o bem, mister sempre se torna a ação da vontade; para se não praticar o mal, basta as mais das vezes a inércia e a despreocupação», lê-se em «O Evangelho Segundo o Espiritismo», capítulo XV, no capítulo Fora da caridade não há salvação, item 10. Se o Violentómetro é, de facto, uma ferramenta didática de alto valor nos comportamentos interpessoais, a verdade é que, se a ausência de violência é um avanço, incentivar a paz elege outra importante mais-valia.
Por isso, sem deixar cair todo o conteúdo lúcido da régua medidora da violência, importante é também acender nas atitudes de quem pretende melhorar os indicadores do Pacificómetro. Já pensou nisso? MAIO.JUNHO.
