Centrais (pág. 11)
Jornal de Espiritismo nº 83 · Julho 2017Página 115 min
Ao todo foram expostos sete posters nas Jornadas de Cultura Espírita do Oeste que decorreram no Centro de Congressos de Caldas da Rainha em 29 e 30 de abril. Um deles foi sobre “Reuniões mediúnicas: uma análise estatística”. Vamos ouvir os autores? As reuniões mediúnicas são habituais nas associações espíritas. Normalmente de periodicidade semanal podem ter vários ângulos de abordagem, mas regra geral pretendem auxiliar quem já partiu para o Plano Espiritual e se encontra em perturbação.
Não é decerto o que acontece com muita gente, ficar em perturbação durante anos, mas o serviço foca os que precisam de estímulo para se reerguerem para uma vida feliz. Ao longo desses minutos de esclarecimentos prestados através de médiuns psicofónicos em transe, pelos quais se manifestam essas entidades espirituais dentro de condições controladas, há inevitavelmente muitos dados que emergem. Se não forem anotados em breve esvaem-se pelas malhas da memória.
Com base neste facto, um grupo constituído por alguns dos membros de duas associações espíritas portuguesas, distanciadas entre si mais de 200 quilómetros, colaborou e teve oportunidade de iniciar o presente estudo. Este teve por objetivo «apurar os dados emergentes e configurá-los em gráficos que possam dar uma visão de conjunto sobre as informações recolhidas durante a conversa de esclarecimento», sublinham. Voltando a abril, no auditório mencionado, ouve-se a voz de uma jovem estudante de medicina, Joana, co-autora do trabalho, quando interpelada pelo moderador da mesa-redonda: «Uma das conclusões mais interessantes a que chegamos foi que, apesar de 76% dos Espíritos comunicantes acreditarem em Deus, estavam necessitados de ajuda» e, «depois, 99,55%, ou seja, 220 casos dos 221 casos que analisámos, após esclarecimento seguiram bem encaminhados na vida espiritual».
Curiosamente, «quando eram encaminhados por familiares já desencarnados em boa situação no plano espiritual, o familiar mais vezes presente era a mãe e as problemáticas que eles apresentavam no atendimento mediúnico eram sobretudo relacionadas com sintomas físicos, entre os quais a dor, 25,8%. Identificaram-se também outros sintomas como tonturas, parestesias, queimaduras, cansaço, enjoo, dor no peito, fome, necessidade de álcool ou tabaco, entre outras».
É importante dizer que «estavam também presentes sintomas psicológicosem 25% era a culpa, seguido de tristeza, cólera, arrependimento, desejo de vingança, entre outros». Tudo isto resultou, dizem os intervenientes, «de anotações e de registo de áudio da maior parte dos diálogos da cada reunião. No dia seguinte, enquanto a memória está fresca, procedeu-se ao registo de dados numa tabela disposta desta maneira: data da reunião, pessoas presentes, duração de cada esclarecimento, médium em causa (código numérico), motivo da desencarnação, problemas apresentados, se sabia que já estava na vida espiritual, se foi ou não encaminhado e por quem, se acreditava em Deus, classificação na escala espírita, constante de «O Livro dos Espíritos», de Allan Kardec, e, por fim, observações diversas».
Com base nestes registos fizeram «um estudo observacional transversal no período de 14 de junho de 2016 a 18 de abril de 2017. A amostra neste estudo é de 221 casos, 114 (65,2%) recolhidos na Associação Cultural Espírita Fernando de Lacerda, nos arredores da cidade do Porto, e 77 (34,8%) recolhidos no Centro de Cultura Espírita, em Caldas da Rainha, população que foi incluída no estudo apenas a partir de 27 de setembro de 2016» e envolveu no total oito médiuns.
É relevante salientar que «estes médiuns são pessoas que têm as suas profissões, as mais diversas, e vida familiar normal, ocupando gratuitamente parte dos seus tempos livres nestas reuniões de fraternidade e em estudos espíritas». Outra informação interessante é que se verificou que «a maior parte dos Espíritos comunicantes (68,7%) não sabiam que já tinham desencarnado! Pensavam que ainda estavam no corpo material».
Na prática, «demonstrar-lhes isso não é tão simples como pode parecer. Quem orienta o diálogo demonstra invariavelmente muito cuidado para não chocar as entidades espirituais que não sabem ainda, nem tão pouco percebem que estão a manifestar - -se através de um médium». Bem, parece que até «morto» tem medo da morte! É importante dizer que «estavam também presentes sintomas psicológicosem 25% era a culpa, seguido de tristeza, cólera, arrependimento, desejo de vingança, entre outros».
«É de notar», salientam, «que em 128 casos (57,9%) não foi possível apurar a causa da morte. Nesta circunstância, como se compreende estes casos foram excluídos do respetivo gráfico. Contudo, a causa mais frequente de morte nos casos registados incluem doença aguda (enfarte agudo do miocárdio), doença crónica (oncológica) e acidente de viação». Estes casos «apresentaram situações de doença (aguda ou crónica) em 48,35% dos casos, o que corrobora a ideia de os sintomas físicos serem a causa mais frequente de atendimento (28,05%)».
Mas, afinal, que interesse pode ter esta trabalheira toda? Redarguem: «Se este trabalho de registo e análise de factos não existisse, não saberíamos dizer, num certo período de tempo numa dada reunião mediúnica, por exemplo, a rigor, quantos Espíritos foram ajudados e no início da manifestação nem tinham ideia de estar já no Plano Espiritual. Isso não é interessante? Depois podemos partir para o estudo que leva a perceber porque é que isso acontece.
Também consideramos que é interessante saber, preto no branco, por exemplo, entre os amigos espirituais que vêm buscar os Espíritos entretanto esclarecidos quantas mães o fizeram, ou quantas vezes foram recebidos pela equipa de Espíritos desencarnados que orientam o serviço da reunião». Além disso, há muitos dados que de momento até podem não parecer importantes, mas que adiante podem ser relevantes. Há muitas questões que emergem.
Com estes registos já detetámos um casal desencarnado em dificuldade, envolvido num acidente relacionado com o mar, em que na mesma reunião ambos foram assistidos em médiuns diferentes – se não gravássemos nem nos aperceberíamos disso». Mas isto é científico? Na verdade, «isso não é importante para nós. Dentro do paradigma materialista que nesta fase da história predomina, pode alegar-se que se fosse uma pesquisa científica é inválida por uma simples razão: a imortalidade da alma é uma crença, logo ao avançar a partir de um elemento que não é científico não tem validade científica.
Porém, veja bem: o transe mediúnico é admitido na área da psiquiatria, sem que seja considerado uma perturbação, desde que dentro de um contexto cultural onde esteja integrado. Se virmos com atenção o poster, ele caracteriza dados emergentes do transe mediúnico de oito médiuns. Dizer que isto não é válido, isto sim, é que se tornou uma questão de preconceito». É de sublinhar que numa futura investigação «pretende-se acrescentar variáveis de estudo, bem como estabelecer correlações estatisticamente significativas entre elas».
Seria também útil ver os resultados de outros grupos de serviço mediúnico para ponderar sobre os dados e caracterizar algum padrão mais significativo que venha a surgir. Pode consultar a versão eletrónica deste e dos outros posters temáticos de análise e registo de dados no site da ADEP, indo a https://www.scribd.com/document/347333086/Poster-REUNIOES-MEDIUNICAS-UMA-ANALISE-ESTATISTICA JULHO.AGOSTO.
