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Opinião (pág. 12)

Jornal de Espiritismo nº 83 · Julho 2017Página 126 min

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Paz: escolha ou conquista? foto ulisses.com.pt Quase parece que a paz é uma escolha quando, na verdade, é uma conquista. Conquista do próprio ser sobre si próprio, em si próprio que com o tempo, a aquisição de conhecimento e experiência vai substituindo a sua forma egoísta de ser por uma mais altruísta. Isto não se faz só porque se quer mas porque se sabe que assim é a melhor forma de ser e não apenas de estar.

Quem está em paz nem sempre é pacífico. Quem é pacífico está sempre em paz. Pela experiência adquirida no dia-a-dia, pela análise que o homem faz de si, do que sente, vai sacando conclusões que lhe permitem alcançar novos pontos de vista que o levam a procurar mudanças comportamentais que façam com que não se centre apenas sobre si próprio e mais sobre os interesses coletivos. Ser egoísta é muito duro, dá muito trabalho, é desgastante.

É viver como se todo o mundo estivesse contra si numa atitude constantemente defensiva e justificativa. Mas achar que o ser humano não é pacífico porque não quer seria achar que Deus não sabe o que faz, que, de alguma maneira, Deus fez as coisas de forma errada. É impossível fazer com que este planeta fique em paz em 10 ou 100 anos. Com os habitantes que o povoam na atualidade, só por milagre, e esses não existem. Não é tempo útil suficiente para que estes habitantes adquiram o conhecimento que leve à conquista da consciência necessária para que entenda que viver em paz consigo, depois com o próximo e a seguir com o planeta será a forma mais fácil, útil, prática, rentável e menos desgastante de viver.

Ninguém dá um salto muito maior do que a perna. É pedir demasiado a quem não tem para dar. Pensar assim é utópico, fantasioso e demonstra incompreensão sobre o que é o Ser Humano, sobre o que é o Espírito, sobre o que é a escala espírita, sobre o que é a evolução, e sobre como lá se chega. Seria possível o planeta viver em paz a curto prazo, sim, mas com outros habitantes. A maioria de nós teria de partir numa transmigração para outra parte qualquer do Universo e outros seres mais pacíficos povoassem a Terra.

Mas que diferença faria? A Terra seria um lugar mais pacífico mas o Universo seria? Os que fossem daqui espalhariam o conflito noutro local qualquer e nesse outro local viver-se-ia sem paz. Então não serve de muito esta preocupação massificada de que “o Planeta” viva em Paz. A única solução é que a Paz reine dentro de mim. Este planeta é um mundo de provas e expiações e sê-lo-á por muito tempo. Fantasias sobre um mundo de regeneração global à escala planetária não será para os nossos dias.

A evolução é um processo individual que se fortalece e potencializa coletivamente pela soma das partes. O melhor mesmo é que cada um se ocupe de si e não se preocupe com os outros. Se cada um se ocupar de si não precisará que outros se preocupem com ele. Então, preciso ser mais seletivo com o que consumo, mais objetivo nas minhas considerações, mais calmo nas minhas apresentações e mais brando nas minhas abordagens. Jesus dizia, “Bem-aventurados os brandos e pacíficos”.

Os grandes pacifistas nunca se manifestaram com agressividade. Nunca estiveram contra os seus agressores. O que fizeram e fazem é apontar outro caminho, outra postura, outras alternativas aos comportamentos menos positivos que possam conduzir o homem à paz, procurando encontrar o equilíbrio na vivência da sociedade baseados nos princípios defendidos pela revolução francesa da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.

O pacífico pacifista faz da paz a sua vivência, a sua forma de ser, sem amargura ou inquietação. Jesus, Gandhi, Luther King, Buda viveram todos assim. Os aspirantes a pacifista combatem a violência. Já é um mau início. Demonstram, muitas vezes, uma atitude agressiva, a roçar a presunção, mais a apontar defeitos do que soluções. Jesus disse para falar para quem tem ouvidos para ouvir, mostrar a quem tem olhos para ver.

Disse ao rico que largasse tudo se o quisesse seguir e perante a vacilação do mesmo, virou costas e pôs-se a caminho, sem tentar convencê - -lo a toda a força que o seguisse. Não demonstrou ressentimento, rancor ou desilusão. Apenas deixou o outro com as suas escolhas e continuou com a sua caminhada. Porque entendia que cada um só dá o que tem para dar. Impossível exigir a um aluno do 1.º ano que resolva equações de 3.

º grau só entendíveis por alunos de ciclos mais avançados. Impossível exigir a um Espírito inferior classificável nos mais baixos degraus da escala espírita que se comporte como um Espírito mediano. Por muito que ele quisesse, ele não sabe como fazê-lo. Mas o homem quer paz sem fazer pela paz. Na maioria, ensina aos mais novos a ser competitivo. Nem sequer a ser democrático, quanto mais cooperante. E a cooperação é a melhor de todas as atitudes.

Num mundo cooperativo, cada um contribui com a sua parte, procurando acrescentar ao sistema algo de si, sem se preocupar em retirar para si. Num mundo cooperativo todos trabalham em função do que é melhor para todos à moda dos mosqueteiros. Eu trabalho por todos, e não apenas por mim, e ao mesmo tempo todos trabalham por todos – eu incluído. Em determinados desportos coletivos, como no atletismo ou no ciclismo, nas provas chamadas de fundo, dois atletas correm ou pedalam sempre mais rápido e com mais eficiência do que se forem sozinhos.

O esforço coletivo repartido custa sempre menos ao indivíduo do que o esforço individual em si mesmo. Vai chegar sempre mais longe ou ser sempre mais rápido se apoiar o seu esforço individual num esforço coletivo cooperante. E a evolução, a vida, é uma prova de fundo. Há uns dias uma jovem adolescente abordava-me sobre uma questão que era tema de estudo na disciplina de Filosofia do 10.º ano. Foi desafiada a opinar sobre a questão da autodefesa, questionando-me acerca do que propõe o Espiritismo acerca deste assunto.

Remeti-a para “O Livro dos Espíritos” que desresponsabiliza a morte do agressor pelo agredido em caso de legítima defesa, caso esse seja o único meio que lhe garanta a sobrevivência. A sua reação foi de espanto: “-A sério? Eu preferia morrer a ter de matar alguém.” Vi que eu estava um passo atrás apoiado naquilo que o Espiritismo entende até aceitável, só aceitável, de facto, num mundo como o nosso, povoado por Espíritos imperfeitos.

Voltei a lembrar-me de Jesus. Não foi isso que ele fez? Morrer sem que tivesse feito qualquer esforço para além da persuasão através da palavra? Em nenhum momento foi agressivo com os seus agressores ou atentou contra a vida dos outros para salvaguardar a sua. Esta jovem deu-me uma autêntica lição de pacifismo e de constatação que um mundo pacífico só se faz povoado com pessoas pacíficas. Poderíamos pensar ao ler este texto que não precisamos fazer nada em prol da paz.

Nada mais falso. Se é certo que não conseguimos ser pessoas pacíficas, que possámos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para podermos estar em paz o maior tempo possível até que um dia, pelo treino e experiência, o deixemos de estar para apenas o ser. Por Ulisses Lopes No final das últimas Jornadas de Cultura Espírita que versou o tema da Paz, uma pequena insatisfação assolou a minha alma. Como se houvesse uma incoerência entre aquilo que o Espiritismo propõeea forma como tratamos o tema no evento.

O esforço coletivo repartido custa sempre menos ao indivíduo do que o esforço individual em si mesmo. JULHO.AGOSTO.