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Editorial / Conto

Jornal de Espiritismo nº 84 · Setembro 2017Página 25 min

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EDITORIAL / CONTO No livro “Obras Póstumas”, no Projeto de 1868, lemos escritos de Allan Kardec em que o codificador da doutrina espírita afir- mava ser útil um curso para “desenvolver os princípios da ciência e difundir o gosto pelos estudos sérios”. Considero esse curso – dizia Kardec – como de natureza a exercer capital influência so- bre o futuro do Espiritismo e sobre suas con- sequências. No movimento espírita atual há vários cur- sos, todos decerto gratuitos.

Dizer que uns são melhores que outros pode bem ser uma falsa questão, já que cada um deles de- pende também de quem o apresenta. Pre- paração dos conteúdos a expor, sentido de objetividade, espírito de serviço a quem se inscreve são algumas das muitas variáveis que redundam em maior ou menor êxito do serviço em pauta. A Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal (ADEP) expõe o Curso Básico de Espiritismo, a partir de matrizes adaptadas que surgiram no nosso país na década de 1970, com a chancela do Centro Espírita Luz Eterna, de Paraná, Brasil.

A equipa que o gizou, sobretudo com base em «O Livro do Espíritos», incluía na equipa de trabalho ho- mens de valor como por exemplo o Dr. Ale- xandre Sech, hoje já desencarnado. Uma das virtudes que é apontada ao Curso Básico de Espiritismo é a de que é conciso e consegue num ano letivo dar a qualquer pessoa que o frequente, seja essa pessoa espírita ou não, uma ideia dos vórtices do pensamento espiritista, que se baseia em factos.

O miúdo do restaurante Considero esse curso – dizia Kardec – como de natureza a exercer capital influência sobre o futuro do Espiritismo e sobre suas consequências. Esta formação não dispensa, obviamente, que cada um mediante o seu interesse pro- cure boa bibliografia e proceda à sua instru- ção pessoal por iniciativa própria durante e depois deste curso. De qualquer modo, tudo indica que este curso deva ser da maior conveniência para qualquer uma das várias tarefas de colabo- ração existentes numa associação espírita.

Caso não o conheça, e no fito de ter uma ideia mais concreta sobre ele, nunca antes publicada neste jornal desta maneira, esco- lhemo-lo para tema das páginas centrais. Esperamos que goste! A Redação foto ulisses.com.pt Entrei apressado e com muita fome no restau- rante. Escolhi uma mesa afastada do movimen- to, porque queria aproveitar os poucos minutos que dispunha naquele dia, para comer e acertar alguns bugs de programação num sistema que estava a desenvolver, além de planear a minha viagem de férias, coisa que há tempos que não sei o que são.

Pedi um filete de salmão com alcaparras em manteiga, uma salada e um sumo de laranja, afinal de contas fome é fome, mas regime é re- gime, não é? Abri o meu portátil e apanhei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim: - Senhor, não tem umas moedinhas? - Não tenho, menino. - Só uma moedinha para comprar um pão. - Está bem, eu compro um. Para variar, a minha caixa de entrada está cheia de e-mails. Fico distraído a ver poesias, as formatações lin- das, rindo com as piadas malucas.

Ah! Essa música leva-me até Londres e às boas lembranças de tempos áureos. - Senhor, peça para colocar margarina e queijo. Percebo nessa altura que o menino tinha ficado ali. - Ok. Vou pedir, mas depois deixas-me trabalhar, estou muito ocupado, está bem? Chega a minha refeição e com ela o meu mal- -estar. Faço o pedido do menino, e o empregado pergunta-me se quero que mande o menino ir embora. O peso na consciência, impede-me de o dizer.

Digo que está tudo bem. Deixe-o ficar. Que traga o pão e mais uma refeição decente para ele. Então sentou-se à minha frente e per- guntou: foto ulisses.com.ptSenhor o que está fazer? - Estou a ler uns e-mails. - O que são e-mails? O meu pai está na cadeia há muito tempo, mas imagino sempre a nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos e eu a estudar na escola para vir a ser um médico um dia. Isto é virtual não é senhor?

- São mensagens eletrónicas mandadas por pessoas via Internet (sabia que ele não ia enten- der nada, mas, a título de livrar-me de questio- nários desses): - É como se fosse uma carta, só que via Internet. - O sr. tem Internet? - Tenho sim, essencial no mundo de hoje. - O que é Internet? - É um local no computador onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, apren- der.

Tem de tudo no mundo virtual. - E o que é virtual? Resolvo dar uma explicação simplificada, sa- bendo com certeza que ele pouco vai entender e deixar-me-ia almoçar, sem culpas. - Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos tocar, apanhar, pegar... é lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer. Criamos as nossas fantasias, transfor- mamos o mundo em quase como queríamos que fosse. - Que bom isso.

Gostei! - Menino, entendeste o significado da palavra virtual? - Sim, também vivo neste mundo virtual. - Tens computador?! - exclamo. - Não, mas o meu mundo também é vivido des- sa maneira... virtual. A minha mãe fica todo dia fora. Chega muito tar- de, quase não a vejo. Enquanto fico a cuidar do meu irmão pequeno que vive a chorar de fome, dou-lhe água para ele pensar que é sopa. A mi- nha irmã mais velha sai todo dia também, diz que vai vender o corpo, mas não entendo, por- que ela volta sempre com o corpo.

O meu pai está na cadeia há muito tempo, mas imagino sempre a nossa família toda junta em casa, mui- ta comida, muitos brinquedos e eu a estudar na escola para vir a ser um médico um dia. Isto é virtual não é senhor? Fechei o portátil, mas não fui a tempo de impe- dir que as lágrimas caíssem sobre o teclado. Esperei que o menino acabasse de literalmente devorar o prato dele, paguei, e dei-lhe o troco. Retribuiu com um dos mais belos e sinceros sor- risos que já recebi na vida e com um “Brigado senhor, é muito simpático!

”. Ali, naquele instante, tive a maior prova do vir- tualismo insensato em que vivemos todos os dias, enquanto a realidade cruel nos rodeia de verdade e fazemos de conta que não per- cebemos. Autor: desconhecido (em circulação na in- ternet). SETEMBRO.OUTUBRO.