Consultório
Jornal de Espiritismo nº 86 · Março 2018Página 74 min
foto loucomotiv Consumo de drogaparte 1 Pergunta: «Dr.ª Gláucia, tenho 22 anos e sinto-me impelido a consumir drogas recreativas. Sou de uma família espírita e já tive uma psicose, quando tinha 20 anos. Disseram-me no centro que poderia estar obsidiado: o que devo fazer?» Gláucia Lima: «Caro leitor, há uma estreita relação entre o consumo de drogas recreativas e as drogas que causam maior adição. Também são muitos os fatores que levam a pessoa a sentir o desejo de consumir uma droga e ficar “agarrado” a essa substância.
Entretanto, vamos iniciar a resposta que pediu, definindo o que é uma droga. Droga é toda e qualquer substância, natural ou sintética que, introduzida no organismo modifica suas funções. “As drogas naturais são obtidas através de determinadas plantas, de animais e de alguns minerais”. Porém, este é um conceito muito anglo-saxónico, no qual quer um comprimido quer a substância de abuso são considerados droga. O termo droga presta-se a várias interpretações, mas, frequentemente suscita a ideia de uma substância proibida, de uso ilegal e nocivo ao indivíduo, que lhe modifica as funções cognitivas, as sensações, o humor, o comportamento e o estado de consciência.
São de vária ordem as perturbações induzidas pelas substâncias e dependem de muitos fatores, entre eles, a vulnerabilidade do próprio indivíduo. Por exemplo, sabe-se que há pessoas que consomem toda a vida a Cannabis sativa , em várias formas (haxixe, erva, maconha) e não tem uma “descompensação psicótica” e outras para as quais a substância ativa da Cannabis (THC – Tetrahidrocanabinol) é um veneno! Refiro-me à descompensação psicótica – a um estado no qual o indivíduo fica fora da sua realidade objetiva, podendo ter neste estado sintomas esquizofreniformes (tipo esquizofrenia).
A questão que se põe é esta: por que umas pessoas descompensam e outras não? O que se sabe é que há uma vulnerabilidade nas pessoas que têm uma descompensação psicótica secundária ao uso de drogas, e isso pode ser o gatilho para uma psicose de outra ordem (tipo Esquizofrenia). Na realidade, não se pode precisar em que medida essa pessoa viria ou não mais tarde a ter uma psicose, ainda que não consumisse a droga. Também o que é facto é que algumas drogas recreativas são alucinógenas, e isso quer dizer que essas drogas desorganizam a mente.
Para além do haxixe, outras drogas recreativas muito utilizadas entre os jovens são os estimulantes. Contam-se entre eles a cocaína, as anfetaminas, MDMA, que podem induzir estados psicóticos. O álcool é uma das drogas recreativas mais utilizadas na atualidade pelos jovens, pelo seu efeito desinibidor a nível social, socialmente aceite, mas, apesar de ser uma droga depressora do sistema nervoso central (SNC), não tem por si um potencial alucinogénico.
Apesar do álcool, não ser indutor de psicose, sabe-se que é das substâncias mais nocivas para o indivíduo e para as pessoas à sua volta. A severidade das consequências do álcool depende do uso concomitante com outras drogas, de fatores genéticos e da presença ou não de outras patologias mentais. Psiquiatra que nos seus tempos livres estuda desde jovem a doutrina espírita, Gláucia Lima* dá continuidade a esta página e responde a uma indagação que lhe foi colocada.
Dessa forma, o indivíduo torna-se presa muito fácil para uma influência espiritual nociva, nomeadamente obsessiva. Na maior parte dos casos, inicia-se um consumo que se pretende seja pontual e com o objetivo recreativo e passa-se para um consumo habitual e por dependência à substância. “Há uma estreita continuidade entre o consumo de substâncias socialmente integradas (álcool, tabaco, drogas de clube, cocaína) eonível em que os comportamentos se tornam disruptivos.
Ocorrem mecanismos de reforço que conduzem o indivíduo a organizar-se em torno destes objectos de prazer”. Felix et al., 2014. Também é importante definir-se o conceito de “dependência” – que está relacionado com o conceito de Tolerância – que é quando a ingestão repetida resulta a necessidade de doses cada vez maiores para a produção do efeito desejado. Diz-se então que o indivíduo está dependente. Podemos comparar o estado de dependência ao estado da paixão!
“Tal como a paixão interrompe o fio quotidiano e lhe confere uma nova significação e uma nova hierarquia de prioridades, também os objectos motivacionais alvo das dependências conduzem a um estilo de vida marcado pela necessidade da omnipresença desse objecto”. Felix et al., 2014. Entende-se, assim, que o objeto de interesse central da vida da pessoa passe a ser a droga, que deixa de ser usada somente com a função de recreação, mas, como uma necessidade.
(continua e conclui na próxima edição) Referências bibliográficas: Abuso de Drogas e Dependências, Moller et al, 2011.| A Obsessão e suas Máscaras – Marlene Nobre. Editora FE |“Alcoolismo”. Ismail, F. et al. Manual de Psiquiatria Clínica. Cap. 21. Ed. LIDEL, 2014 | Além do Véu – Jorge Gomes. Editora FEP | Constelação Familiar – Divaldo Franco. Editora FEP | Conflitos Existenciais – Divaldo Franco. Editora FEP | Conectando Ciência, Saúde e Espiritualidade – Associação Médica Espírita do Rio Grande do Sul | “Dependências”- Costa, F et al.
Manual de Psiquiatria Clínica. Cap. 20. Ed. LIDEL. 2014 | Políticas e Dependências – Luís Patrício- Editora Veja | Sexo e Destino – André Luiz. Editora FEP. JANEIRO.FEVEREIRO.
