Crónica
Jornal de Espiritismo nº 86 · Março 2018Página 176 min
Este representante do movimento filosófico conhecido como Estoicismo buscou os ensinamentos que tinham florescido na Grécia com Cleantes de Assos e Crísipo de Solis, difundidos em Roma a partir do ano 155 a.C. por Diógenes da Babilónia. León Denis na sua obra Cristianismo e Espiritismo lembrou que nos finais do século I, os cristãos nascentes receberam a influência do pensamento grego, identificando uma profunda proximidade entre a mensagem de Cristo e o Logos de Platão, ou seja, a ideia de razão universal.
São sintomáticas as palavras de León Denis na mesma obra, corroborando a de outros autores, ao enunciar que o Evangelho de João expressa claramente a condição de Cristo incorporar o Logos. Esta tinha sido uma ideia central do pensamento estóico para explicar como a divindade se relacionou com o Universo. Neste encadeamento de ideias, não oferecem dúvidas acerca da influência que o Estoicismo teve na maturação do Cristianismo e, seguindo a afirmação constante no Evangelho Segundo o Espiritismo de que o «Cristianismo e o Espiritismo ensinam a mesma coisa», concluiu-se assim, que o Estoicismo e o Espiritismo têm uma identidade recíproca, que é particularmente visível nas Meditações de Marco Aurélio.
O Estoicismo sugere um propósito moral em consonância com as leis da Natureza e promove um estado de indiferença em relação a tudo o que é exterior ao Ser, porque tudo é intrínseco ao Ser. É notória a influência do pensamento de Sócrates no movimento estóico, através da máxima «Conhece-te a ti mesmo», um filósofo considerado como um dos precursores do Cristianismo. Por outro lado, Emanuel através de Francisco Cândido Xavier, em «A Caminho da Luz», exortou o estatuto moral e espiritual de Marco Aurélio, sublinhando a nobre missão que recebera do Alto para deter a corrente de forças que vitimavam os cristãos, sem contudo, ter alcançado tão sublime objetivo.
É também nesta obra que o espírito Emanuel encoraja a qualidade dos estóicos, buscando o exemplo dos mahatmas, no tempo dos Vedas na Índia, os quais desenvolveram uma atmosfera espiritual impregnada de amor, de esperança e de estoicismo resignado. Marco Aurélio ao escrever as suas «Meditações» ou «Pensamentos de Mim» deixou-nos um tratado de Ética com cariz prático, de como controlar os desejos e as emoções, libertando o Ser Humano da dor e dos prazeres próprios do mundo material.
É segundo esta perspetiva que se estabelece uma comparação entre esta obra, da autoria de um dos expoentes da filosofia estóica, com a filosofia espírita presente na Codificação de Allan Kardec. Marco Aurélio identificou a necessidade de venerarmos o mais elevado que existe dentro de nós, escavando interiormente a fonte do bem que fluirá continuamente. Considerou o quão ridículo é não conseguirmos fugir da nossa própria maldade e, tentarmos fugir do mal dos nossos semelhantes, sugerindo que não desperdicemos mais tempo a debater como deve ser um Homem bom mas antes de tudo sermos um deles, um pensamento bem patenteado no conhecimento de si mesmo.
E continua Marco Aurélio no contexto desta análise comparada, afirmando o valor da conservação da simplicidade, tal como vem expresso na lei da adoração, na qual é referido que Deus ama a simplicidade em tudo. No âmbito da perfeição moral da Codificação, Marco Aurélio elegeu a bondade, a pureza, a seriedade, a modéstia, o amor da justiça e da religiosidade, assim como a honra e a devoção ao dever. Estes atributos não devem ser desmentidos e, se por algum momento ficarmos privados deles, então não percamos tempo para a sua recuperação.
Atente- se às palavras de Marco Aurélio sobre os caracteres do Ser Humano de bem e a sua correspondência na questão 918 de «O Livro dos Espíritos». Assinalou que ninguém nos pode impedir de vivermos em sintonia com as leis da natureza individual e nada nos pode acontecer em oposição às leis da Natureza- Mundo, porque o verdadeiro prazer do Ser Humano é mostrar boa vontade para com os seus semelhantes, pois só assim conseguirá ultrapassar os impulsos dos sentidos e discernir as aparências das realidades, em convergência com a prossecução do estudo da Natureza e das suas obras.
Em complemento deste princípio, Marco Aurélio sintonizou com a questão 8 de «O Livro dos Espíritos», referindo que a Natureza Universal criou um mundo bem ordenado, onde tudo o que acontece, segue uma sequência lógica, sendo tão importante este princípio para nos auxiliar a encarar muitas adversidades de forma serena. O filósofo estóico lembrou que mesmo assim, a nenhum Ser Humano pode acontecer algo, que não esteja em sintonia com a sua própria natureza e que não tenha capacidade para suportar.
Tal pensamento está em harmonia com a escolha das provas da filosofia espírita. Paralelamente, sobre este mecanismo da escolha das provas, Marco Aurélio escreveu que o que acontece no momento seguinte está sempre profundamente relacionado com o que ocorreu no momento precedente, não configurando um desfile de acontecimentos isolados, mas que seguem uma linha de continuidade racional. Este princípio está intrínseco à pluralidade das existências, acrescentando o autor das «Meditações» que «Aquilo que me acontece, tenho de o aceitar tendo como referência os deuses e aquela fonte universal donde provém toda a corrente das circunstâncias».
Mesmo perante a morte, Marco Aurélio vislumbra que esta não seja escopo de desprezo, porque representa uma libertação das sensações, dos impulsos, dos desvios do pensamento e do serviço da carne. Alinhado com a filosofia da natureza das penas e dos gozos futuros, este espírito dotado de tão elevado estatuto moral, diz- nos que devemos sorrir à chegada da morte, porque ela faz parte da vontade da Natureza. Marco Aurélio acentuou a necessidade de tomarmos como referência, o serviço da humanidade, porque considera como objetivo único, a harmonia de todos, a predestinação em fazer bem ao semelhante e sobretudo ser indulgente para com ele.
A existência terrena é curta e deve concentrar a sublimidade na conceção de uma santidade interior e simultaneamente, de uma ação exterior desinteressada. São princípios éticos perfilados com o amor ao próximo, a féea caridade, tão bem explorados na mensagem dos Evangelhos interpretados pela doutrina espírita. O imperador estóico enalteceu a lei da liberdade ou do livre-arbítrio, lembrando que esta é uma dádiva da Natureza, insistindo na supressão de todas as fantasias da alma, porque está nas mãos de cada Ser Humano o afastamento dos vícios, da cupidez ou da agitação de qualquer natureza que possa alojar-se nas suas almas.
Adianta que está ao nosso alcance o entendimento de todas as coisas na sua verdadeira luz, evitando a cada instante que a ignorância e a vaidade sejam mais fortes do que a sabedoria, tal como preconiza a lei do progresso. Sugere- nos então, que não nos deixemos levar pelos sonhos de ter aquilo que não temos, mas sobretudo pensarmos nas bênçãos mais elevadas que de facto possuímos, para nos lembrarmos com gratidão, de como as desejaríamos se as não tivéssemos.
Rematou esta reflexão com a prudência que é necessário ter, não vá o deleite que obtemos pela posse dessas bênçãos, destruir a nossa paz interior em face da ideia da sua perda. Claramente que Allan Kardec já tinha mencionado que muitos filósofos antigos e modernos, convictamente discutiram a ciência psicológica, sem que tenham chegado ao conhecimento da verdade. Kardec sublinhou o papel destes homens como precursores da ancestral doutrina espírita, referindo também que foram eles que prepararam os caminhos da luz e, acrescentou que jamais fora feita a afirmação de que esta doutrina era uma invenção moderna.
Marco Aurélio legou-nos um conjunto de pensamentos éticos tão atuais que o situam na senda da sabedoria, da luz e da verdade. Texto: Carlos Paiva Neves Marco Aurélio: estóico na linha da filosofia espírita Marco Aurélio, imperador romano, filósofo e guerreiro viveu no século II quando o Cristianismo ensaiava os primeiros passos como religião do império de Roma. foto arquivo JANEIRO.FEVEREIRO.2018 IMPRESSÃO DIGITAL O estado de perturbação por que passam os Espíritos nos instantes que se seguem à morte do corpo físico é de duração muito variável, situando - -se em algumas horas, meses, ou até anos?
