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Entrevista (pág. 9)

Jornal de Espiritismo nº 86 · Março 2018Página 97 min

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mo. Ele procurava ampliar a sua base de dados empíricos utilizando diversos médiuns, muitas vezes desconhecidos uns dos outros. Enfatizava a descriçãoea interpretação do conteúdo das mensagens obtidas durante o transe mediúnico, comparando semelhanças e diferenças entre elas em busca de informações úteis que pudessem integrar a sua teoria. Kardec dava uma grande ênfase na análise do conteúdo das informações, sendo menos relevante a autoria das mensagens.

No decorrer da sua pesquisa, contou com um número cada vez maior de correspondentes que foi de grande importância para a multiplicação dos relatos mediúnicos com os quais ele criou, desenvolveu e reformulou os seus princípios acerca do mundo espiritual. A “Revista Espírita” foi um espaço destacado de debates com os seus correspondentes, contribuindo para o amadurecimento das ideias a respeito do espiritismo. Pesquisador ativo, Kardec também utilizava casos históricos acerca dos fenómenos mediúnicos e também de pesquisas de campo, visitando médiuns e locais onde as manifestações espirituais se davam.

Do conjunto de informações obtidas, ele desenvolveu a teoria espírita. Que contribuições pode trazer à ciência uma melhor compreensão da metodologia do espiritismo? Marcelo Gulão Pimentel – Pode contribuir para o debate académico acerca dos fenómenos anómalos que envolvem experiências conhecidas como espirituais, psíquicas ou mediúnicas. Investigações históricas não só do método de Allan Kardec, mas também de outros pesquisadores que conduziram pesquisas sobre o tema poderiam retomar teorias e metodologias fomentadoras de novas abordagens empíricas, bem como tornar mais bem conhecida uma longa tradição de investigações no campo da mediunidade.

No nosso grupo temos um doutorando, Alexandre Sech Júnior, que está investigando outro pioneiro, William James. Há um crescente interesse no meio académico sobre as relações entre espiritualidade e ciência. Porquê? Marcelo Gulão Pimentel – Cada vez mais têm surgido em diversas partes do mundo estudos sobre os impactos positivos da espiritualidade na saúde do ser humano e as suas implicações em diversos ramos da sociedade.

Na sua dissertação, defende o caráter progressivo da pesquisa de Kardec. Por que isso aconteceu? Marcelo Gulão Pimentel – Kardec via o espiritismo como uma ciência, portanto passível de ser aprimorada e modificada. Num primeiro momento, contava com um número restrito de médiuns (cerca de dez). Contudo, à medida que esse número foi ampliado, devido à repercussão da sua obra em diversas regiões do mundo, ele passou a recolher uma base maior de dados, o que permitiu o aprofundamento de aspetos de sua teoria.

É o que se pode perceber com a leitura do “Ensaio teórico das sensações dos Espíritos”, publicado na segunda edição de “O Livro dos Espíritos”. O ensaio é resultado de uma pesquisa que pode ser acompanhada desde a primeira edição de “O Livro dos Espíritos”, passando pelas edições da “Revista Espírita” de 1858 até ao mês de dezembro, quando Kardec publica o artigo “Sensações dos Espíritos” em que apresenta as suas primeiras conclusões sobre o tema.

Este artigo ainda recebe algumas modificações baseadas na análise das informações dadas pelos médiuns entre 1859 e 1860 até à sua publicação na segunda edição de “O Livro dos Espíritos”, em 1860. Acredita ser necessário retomar os estudos sobre os aspetos históricos e filosóficos das pesquisas científicas sobre as relações entre espiritualidade e saúde? Marcelo Gulão Pimentel – Sim. Os estudos atuais nesse campo têm tido uma grande repercussão no meio académico e na sociedade em geral.

Contudo, pouco se sabe sobre a história dessas pesquisas. Estudos que busquem investigar as suas tradições podem fortalecer essa área academicamente e fomentar novos trabalhos. E na área da metodologia científica: isso poderia provocar uma revisão de teorias? Marcelo Gulão Pimentel – Como historiador, é difícil medir o impacto desse estudo na área de metodologia científica. Nos seus aspetos históricos, acredito que sim.

Apesar da repercussão que o espiritismo teve entre pesquisadores renomados da Europa na segunda metade do século XIX, e na história da saúde mental no Brasil, o método de Allan Kardec é pouco conhecido. Acredito que com mais discussão e estudos académicos sobre Kardec e o seu método de investigação a academia possa inseri-lo como um dos pioneiros das pesquisas psíquicas, em especial, da mediunidade. O espiritismo não foi suficientemente explorado em seu aspeto metodológico de investigação.

Além disso, Kardec não buscou apresentar os seus estudos sobre espiritismo no ambiente académico. Por que Kardec afirmava que o espiritismo não poderia ser enquadrado no mesmo ramo das ciências tradicionais, como a química eafísica, mas sim como uma nova ciência? Marcelo Gulão Pimentel – Kardec oferece diferentes definições do espiritismo enquanto ciência ao longo de sua obra. Uma das mais citadas está na obra “O que é o espiritismo?

” em que ele definiu o espiritismo como “uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal”. Parece-nos que a principal razão para ele não enquadrar o espiritismo entre as ciências tradicionais diz respeito à delimitação do seu objeto de estudo. Para ele, o mundo relatado pelos espíritos não era metafísico, e sim uma parte do mundo natural ainda pouco explorado.

Enquanto a física e a química têm como base a investigação da matéria, o espiritismo investiga o ser pensante, o espírito. Além disso, para Kardec, o método quantitativo e as experiências laboratoriais praticados por essas modalidades científicas não seriam adequadas para a investigação dos fenómenos inteligentes gerados pelo espírito. O espiritismo continua um “grande desconhecido”, como já observara J. Herculano Pires?

Marcelo Gulão Pimentel – Acredito que falta uma leitura mais criteriosa e aprofundada da obra de Allan Kardec, notadamente em seu aspeto metodológico. Principalmente o conhecimento que pode ser obtido a partir da leitura da “Revista Espírita”. Defendeu que a análise do conteúdo da “Revista Espírita” pode revelar importantes aspetos da construção teórica e metodológica do espiritismo. Pode dar um exemplo? Marcelo Gulão Pimentel – Um bom exemplo é o da evolução do entendimento sobre a possessão.

No começo, Kardec nega a possibilidade da possessão, como está expresso em “O Livro dos Médiuns” (1861). Contudo, no livro “A Génese”, de 1868, admitiu a existência da possessão para alguns casos de obsessão. O processo de convencimento de Kardec só pode ser observado na “Revista Espírita”. Em março de 1862, ele tomou conhecimento de uma série de fenómenos mediúnicos chamados pela imprensa de “Os possessos de Morzine”.

Durante um ano, Kardec publicou uma ampla pesquisa sobre o evento, totalizando seis artigos, onde afirmava ter evocado espíritos por diferentes médiuns, promovendo entrevistas sobre o tema; promoveu estudos do tema com os membros da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas; analisou casos semelhantes registados na história; comparou com fenómenos semelhantes enviados pelos seus correspondentes de diferentes lugares; analisou artigos publicados pela imprensa sobre a possessão em Morzine; leu diversos relatórios oficiais e académicos sobre a epidemia de possessão; observou casos de possessão em várias localidades e realizou uma viagem de campo a Morzine para avaliar os casos de possessão.

Por fim, os dados analisados contribuíram para que ele, em dezembro de 1863, se convencesse da possibilidade da possessão. O que descobriu de novo e como esse material foi utilizado no seu trabalho? Marcelo Gulão Pimentel – Durante o mês em que estivemos na França, tivemos a oportunidade de conversar com diversos pesquisadores académicos, como Marion Aubrée, Guillaume Cuchet e Renaud Evrárd, bem como pesquisadores e estudiosos da história do espiritismo, como Charles Kempf, Jérémie Philippe e Pierre Etienne.

Visitámos diversos arquivos públicos e bibliotecas francesas em busca de fontes históricas sobre a vida de Allan Kardec e sobre o espiritismo entre 1857 e 1869. Com a valiosa ajuda de Charles Kempf, visitámos os arquivos da Union Spirite Française et Francophone, em Tours, na França, e conseguimos coletar diversas cartas, diplomas e outros documentos que serviram de fontes de informação para conhecermos melhor a vida de Hippolyte Rivail, onde foi possível constatar a sua vasta erudição como professor, escritor e membro de diversas sociedades científicas.

Também conseguimos acesso a algumas cartas de Kardec aparentemente nunca publicadas. Ainda estamos a analisar o conteúdo dessas cartas e pretendemos apresentá-las juntamente com a sua análise em um trabalho futuro. Qual o papel de Kardec, na vinda do “Consolador Prometido”, com relação à equipa do Espírito da Verdade? Marcelo Gulão Pimentel – Kardec foi muito mais que um compilador ou secretário dos espíritos na constituição do espiritismo.

Ele foi um pesquisador ativo em busca das informações que permitiram que ele constituísse a sua obra. Kardec afirmava que o espiritismo seria o trabalho de uma dupla revelação: a divina ou espiritual, por ter sido a partir das informações dos espíritos que ele teria realizado a sua obra, mas também pela revelação científica, onde o seu papel como pesquisador foi fundamental na elaboração dos princípios que compõem o espiritismo.

Texto: Eliana Haddad. Publicado no jornal “Correio Fraterno”, São Paulo/Brasiledição 456, março/abril 2014. JANEIRO.FEVEREIRO.