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Opinião (pág. 15)

Jornal de Espiritismo nº 86 · Março 2018Página 154 min

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Quando falamos às pessoas sobre as EQM, normalmente mencionam-se os casos em que as pessoas se sentem a flutuar acima do seu corpo, passam por um túnel em direção a uma luz e entram em contacto com amigos ou familiares já falecidos, surpreendendo-os uma sensação de paz e alegria, num hálito de plenitude que nunca haviam experimentado antes. Mas por vezes, normalmente com alguma cautela, alguém pergunta se não existem outro tipo de relatos, referindo-se a EQM desagradáveis.

Embora a grande maioria das EQM sejam de harmonia e promovam boas sensações, algumas são marcadas pela perturbação, tendo como emoções predominantes o medo, a raiva, a solidão, o vazio e a culpa. Existem investigadores que acreditam que o número de casos de EQM perturbadoras pode mesmo estar subavaliado, defendendo que as pessoas que passam por elas sentem um estigma acrescido que as inibe de as partilharem. É um dado muito seguro que as EQM perturbadoras ocorrem em menor número que as agradáveis mas, a sua frequência exata ainda não pode ser estimada com segurança.

Em 2014, Bruce Greyson, professor de psiquiatria e ex-director da “Division of Perceptual Studies” da Universidade da Virgínia nos EUA publicou o artigo “Distressing near-death experiences: the basics” em que procurava conhecer melhor estes casos. Ele dividiu as várias EQM perturbadoras em três tipos: Inversas, vazias e infernais. No primeiro caso, as pessoas reagiam de uma forma ansiosa e aflita à EQM devido ao caracter inusitado da experiência.

Um homem que caiu do seu cavalo, sentindo-se a flutuar à altura de uma árvore e vendo os paramédicos tentando reanimá-lo, sentiu-se agoniado: “Não! Isto não está certo! Tirem-me daqui!” Depois foi sugado por um túnel até a uma luz brilhante, onde encontrou seres que o aguardavam e que se assemelhavam a familiares já falecidos. Incapaz de compreender o que estava a acontecer, o senhor entrou em pânico. Nada havia na experiência que se relacionasse com algo tenebroso mas isso não o impediu de reagir com medo e ansiedade.

Outro tipo diferente de experiências são as consideradas “vazias”, tratando-se de sensações percebidas de isolamento, de devastadora solidão. Um homem que tinha sido atacado por um viajante percebeu-se a sair do corpo: “De repente eu estava rodeado por total escuridão, flutuando em nada a não ser espaço negro, sem cima, baixo, esquerda e direita. Parece que passou uma eternidade e eu vivia plenamente aquela miséria. Só me era permitido pensar e reflectir.

” Usando a divisão feita por Greyson, o último tipo de EQM desagradáveis são as infernais, sendo também as mais raras. Uma mulher que tentou o suicídio percebeu o seu corpo a ser empurrado para um ambiente frio, escuro e húmido: “Quando atingi o fundo, parecia a entrada de uma caverna cheia de teias penduradas. Ouvi choros, lamentos e gemidos, bem como um permanente ruído de dentes a ranger. E vi seres que se assemelhavam a humanos na forma da cabeça e do corpo mas que eram grotescos.

Eles estavam assustados e pareciam estar em grande agonia.” No livro da Dr.ª Barbara Rommer, “Blessing in Disguise: Another side of the near-death experience”, ela procurou analisar 300 casos que recolheu de EQM perturbadoras. A partir da sua investigação, ela concluiu que este tipo de experiência ocorria de forma homogénea por sexo, idade, nível social e educacional, orientação sexual, crença espiritual ou religiosa e experiências de vida.

Identificou um padrão relacionado com o tipo de morte, evidenciando que existe uma grande prevalência de EQM perturbadoras em pessoas que cometeram suicídio mas aponta a existência de pessoas que tentaram o suicídio e que tiveram uma EQM agradável e, por outro lado, pessoas a todos os níveis irrepreensíveis que tiveram uma EQM perturbadora. Ela menciona ainda alguns casos em que pessoas que tiveram mais do que um episódio de EQM ao longo da sua vida, por vezes têm uma experiência agradável e outra perturbadora.

A Dra. Barbara explica esta situação afirmando que as pessoas que estão num estado mental mais ansioso e desequilibrado no momento da sua Experiências de Quase-morte perturbadoras Nas EQM agradáveis, as pessoas saem delas mais enriquecidas, com um sentido de vida mais definido, um menor receio da morte, com maior capacidade de valorizar o que de bom a vida lhes proporciona. foto pixabay Desde que em 1975, o professor Raymond Moody Jr.

publicou as suas investigações no livro “Vida Após a Vida”, as experiências de quase-morte (EQM) tornaram-se um fenómeno global, relatado por milhares de pessoas em todo o mundo, sendo alvo de investigações e pesquisas científicas sérias nas suas diferentes dimensões, tendo como principal objectivo a compreensão do fenómeno. quase-morte ou aqueles que foram educados a esperar algum tipo de perturbação durante a morte, deverão ter mais probabilidades de ter uma EQM perturbadora.

Nas EQM agradáveis, as pessoas saem delas mais enriquecidas, com um sentido de vida mais definido, um menor receio da morte, com maior capacidade de valorizar o que de bom a vida lhes proporciona. Quando às EQM perturbadoras, a Dr. Barbara refere que, embora no curto prazo exista normalmente um agravamento do medo da morte e um conflito interior pela perturbação sentida na EQM, no longo prazo essas experiências produzem benefícios, funcionando como pontos de reflexão, mecanismos de alerta e contribuindo para uma transformação de comportamentos diante da vida.

As experiências de quase - -morte são episódios intensos e muito marcantes na vida daqueles que passam por elas. Mais importante ainda do que serem uma evidência da imortalidade da alma que importa compreender e investigar, é fundamental que essas pessoas possam ser ajudadas a interpretá-los de uma forma construtiva e enriquecedora, de modo a que esses vislumbres do outro lado da vida funcionem como uma alavanca onde possam sustentar a sua transformação pessoal e a harmonia interior.

Por Carlos Miguel JANEIRO.FEVEREIRO.