Crónica
Jornal de Espiritismo nº 87 · Maio 2018Página 124 min
Partir desta vida sem saber Este facto ressurge invariavelmente nas anotações que costumamos fazer. Uma primeira quantificação devidamente anotada, preto no branco, revelou nos idos de 2016 que em 70 casos registados 20 dos Espíritos comunicantes necessitados de auxílio (29%) sabiam ter partido da vida material enquanto 50 (71%) ainda se julgavam nela e, mais, não foram poucos os que acharam absurdo o que lhes estava a ser dito com jeitinho, em modo de esclarecimento suavizado, para não entrarem em pânico.
Na verdade, os supostos “mortos”, quando se apercebem, podem ter tanto medo da morte como o que tinham quando da sua passagem pela vida terrena, ainda que esta já tenha ficado para trás. Importa referir que, um ano mais tarde, numa amostra de 220 casos anotados, no poster intitulado «Reuniões mediúnicas: uma análise estatística», que está disponível no site da Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal, face a este mesmo padrão os resultados expõem o seguinte: 152 Espíritos desencarnados necessitados de auxílio não tinham noção de que já tinham desencarnado (68,7%) e 67 (30,3%) sim.
Ambas as análises foram feitas com um somatório de médiuns psicofónicos no serviço habitual de esclarecimento semanal numa associação espírita e depois em duas associações distanciadas mais de 200 quilómetros, mas nunca contámos estes dados com especificação dos médiuns em causa. Ora, e não será esta uma boa altura para organizar os dados disponíveis neste momenNas reuniões que decorrem em regra semanalmente na maior parte das associações espíritas, na vertente do transe mediúnico, é notável a desproporção entre os Espíritos necessitados de auxílio que sabem que já partiram da vida material e os que ignoram esse facto, mergulhados intensamente nas suas impressões subjetivas.
to e partilhar consigo os resultados num gráfico de colunas? Centrámo-nos apenas na reunião mediúnica de que temos mais dados e deve ser sublinhado que os três médiuns em causa são, um deles, masculino e os outros dois femininos, sendo certo que não estiveram necessariamente todos ao mesmo tempo nos mesmos dias de reunião. A médium (Mf) de que temos ainda escassos dados até esta altura contraria um pouco o que temos vindo a dizer, já que é mais suave a desproporção dos Espíritos que foram ajudados através dela, no que diz respeito ao facto de estarem conscientes da sua situação de desencarnados e os outros não.
Contudo, no caso do médium masculino (Qm) – de que temos mais dados anotados – são 111 casos que não sabiam estar desencarnados para 33 que sabiam. No outro médium do género feminino (Rf) também se vê uma grande desproporção, pois foram 100 os Espíritos que não sabiam estar desencarnados e apenas 8 os que sabiam. Seria interessante, a nosso ver, que outros grupos de serviço mediúnico semelhantes fizessem as suas contagens com base em registos rigorosos, mas vistos os dados apurados até agora, se falarmos disto a quem está habituado a colaborar nas reuniões mediúnicas as palavras que escrevemos não são propriamente uma novidade.
A experiência empírica dá alguma noção desta realidade. Isso, porém, não acontece se reunirmos estes mesmos dados numa pergunta colocada hipoteticamente a quem passa na rua. Os resultados descritos vão configurar-se para foto arquivo estas pessoas indiferenciadas tão inverosímeis como parecem, de facto, aos Espíritos que, desligados do corpo físico, consideram impossível já não estarem na vida material. Afinal como podem ter morrido se estão ali a falar connosco?
Têm corpo (espiritual, é certo, sem saberem) e tudo! Que disparate. Alegam: «Como seria isso possível?», não se terem apercebido de algo tão importante como a morte do corpo material? Dizem por vezes algo assim: «Não me faças rir! Como posso ter morrido? Então morre-se assim sem se saber?». Posto isto, que hipóteses serão de considerar para compreender melhor este fenómeno recorrente? Elas são ensaiadas, na prática, durante as tranquilas conversas de esclarecimento.
Uma das elucidações que nos parece mais compreensível será esta: o fenómeno é parecido até certo ponto com o que acontece quer a mim quer aos leitores todas as noites ao adormecer. É certo que sabemos distinguir com clareza o momento em que acordamos, mas o instante certeiro que o antecede, em que caímos impercetivelmente no sono, fica sempre por apurar nas margens indefinidas de qualquer introspeção. Tudo indica que, muitas vezes, os momentos de desligamento irreversível do corpo físico, por efeito da morte deste, é igualmente difuso, o que até apresenta vantagens, pois – embora nem sempre seja assim – dispensa muita confusão inerente à turbulência emocional própria do decesso.
Outro elemento que se destaca nas conversas de esclarecimento destes Espíritos em confusão, que ignoram já estar na vida espiritual, é que parecem estar fora do tempo. Podem ter passado meses, uma dúzia de anos, ou bastante mais até, e para eles é como se estivessem a horas de um evento confuso, que normalmente precede a morte corporal, quando se dão conta dele. Num dos casos atendidos, tomámos nota quando foi perguntado oportunamente em que ano achava que estávamos naquele dia de 2016: «Dois mil e dezasseis?
Não é possível!». E a seguir: «Ui, meu Deus! Tantos anos… Nós estamos em 1927». A mente plasma uma realidade subjetiva e o ser espiritual desencarnado, em estado alterado de consciência, detém ali, demorada, a sua atenção, alienado do que se passa em volta até que, mais tarde ou mais cedo, cede à intervenção benfeitora dos amigos espirituais que, luminosos e esclarecidos, o reabilitam para prosseguir na interminável caminhada de aquisição sucessiva de maior estatura de amor e sabedoria.
Texto: J. Gomes MARÇO.ABRIL.
