Opinião
Jornal de Espiritismo nº 87 · Maio 2018Página 155 min
A televisão exibia em surdina as notícias do telejornal da tarde e mostrava uma legenda garrafal: “30% das crianças de agregados familiares carenciados têm insucesso escolar.” Um dos meus parceiros de refeição fez uma careta aborrecida, afirmando que “já não tinha pachorra para este choradinho”. De seguida, discorreu sobre o que se passava na escola do seu filho, onde existiam alunos que apesar de terem várias negativas, estavam a passar de ano por diretiva do Ministério da Educação.
Segundo ele, aquela situação era “profundamente injusta para os meninos que se esforçam para tirar boas notas e vêm os outros passarem de ano sem o merecerem.” Aquele comentário incomodou-me e trocamos alguns argumentos sobre o tema. O assunto não me largou durante alguns dias e inspirou-me a esta reflexão. Num relatório recente sobre o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), a Comissão Europeia concluiu que os alunos portugueses estão a aproximar-se da média europeia, sendo cada vez maior a percentagem dos que demonstram competências de elevada complexidade.
No entanto, quase um terço dos estudantes portugueses chumbam, sendo que 52% dessas reprovações dá-se entre os estudantes da classe mais baixa. Estes números revelam que o ambiente escolar, que deveria ser um dos primeiros locais de diminuição das desigualdades e promoção da equidade, está a acentuar ainda mais as diferenças sociais. A doutrina espírita aponta rumos para a batalha de transformação do mundo. Como escreveu Herculano Pires no livro “O Espírito e o Tempo”: “O próprio Espiritismo é um gigantesco esforço de educação do mundo, para que a humanidade regenerada de amanhã possa substituir, o quanto antes, a humanidade expiatória de hoje.
” Quando lemos os textos de Allan Kardec, ficamos com a sensação de que a chegada dessa sociedade justa e igualitária estaria iminente. Ele entendia que a reencarnaçãoea confirmação da imortalidade da alma seriam o ponto de apoio, que Arquimedes falava, capaz de levantar o mundo e promover as mudanças necessárias. Kardec era um optimista e, estava tão fascinado por tudo aquilo que tinha descoberto, que é natural ter-se deixado levar pelo entusiasmo.
Apesar das conquistas sociais que fizemos ao longo deste século e meio, ainda estamos longe dessa sociedade que Allan Kardec idealizou. O conceito de igualdade plena só faz sentido dentro de uma sociedade justa onde todos possam participar ativamente e tenham as mesmas oportunidades para desenvolver o seu potencial. Apesar dos avanços significativos alcançados em muitas áreas, ainda vivemos numa época de boas intenções, daquelas que o ditado diz “estar o inferno cheio”.
A igualdade de direitos e oportunidades está consagrada na constituição mas não nos nossos comportamentos, ideias e palavras. Existem cada vez mais seres humanos que vivem à margem da sociedade, existem cada vez mais pessoas que se atrasam de forma irremediável tornando-se párias dos tempos modernos, repelidos e ignorados para que não incomodem. A igualdade, tal como a conhecemos, ainda é uma igualdade parcial onde, em teoria todos, têm os seus direitos consagrados pela lei mas, na realidade, as oportunidades são diferentes em virtude do lugar em que se nasceu, do nível económico ou da conformidade evidenciada com o que é “normal”.
É uma igualdade que não tem em consideração as diferenças. Ainda somos uma sociedade de classes extremamente desigual e injusta em que realidades distintas entram em conflito, onde os privilégios instituídos, as cunhas e a corrupção minam as relações sociais promovendo cada vez mais desigualdades. A equidade é um conceito distante, ainda entendido por muitos como injusto e protetor da insolência. Uns mais iguais do que outros foto ulisses.
com.pt O almoço era de trabalho mas desenrolava-se num ambiente descontraído. Esclarecidas as questões profissionais que nos tinham ali reunido, a conversa foi divagando por quase todo o espectro da tagarelice de café. A reprovação escolar não pode ser um castigo da sociedade, nem sequer um instrumento administrativo de quem faz contas ao número de negativas. Deve ser acima de tudo um exercício de lucidez sobre qual é o melhor interesse para o futuro daquela criança em particular.
A escola precisa de ser o primeiro lugar de inclusão, que esteja atento às singularidades de cada um e que procure dar oportunidades a todos de construírem um futuro melhor, independentemente das suas condições específicas. A retenção deverá ser usada como uma ferramenta educativa ao serviço do melhor interesse da criança em vez de ser um mecanismo punitivo ou de agudização das diferenças. E não será isso injusto para os meninos que se esforçam para tirar boas notas?
Uma das maiores aprendizagens que podemos conquistar na vida é a interiorização de que o esforço é uma ferramenta de construção do nosso futuro individual e coletivo. Esse esforço, deverá estar alavancado na motivação de sermos melhores hoje do que fomos ontem e não na vontade de parecermos melhores do que alguém. Essa ganância que vê no outro sobretudo um concorrente, alimenta a inveja, a exclusão, o elitismo, a indiferençaeo individualismo, perseguindo de forma voraz esta sociedade tão marcada pelo materialismo e pela competição avassaladora.
A vida não é uma competição entre nós e os outros, mas um caminho que vamos fazendo juntos, cada um com as suas particularidades, cada um com os seus condicionalismos, todos à procura do melhor, para nós e em benefício da comunidade em que vivemos. O conceito de igualdade plena só faz sentido dentro de uma sociedade justa onde todos possam participar ativamente e tenham as mesmas oportunidades para desenvolver o seu potencial.
A ideia de justiça está limitada ao grau de miopia que ainda possuímos. À medida que compreendermos melhor o mundo e a vida, passaremos a ver as situações com maior lucidez, percebendo que a protecção aos mais desfavorecidos não é a esmola que atiramos para a calçada ou o saco de comida que entregamos ao banco alimentar contra a fome. Essa protecção passa sobretudo pela disponibilidade moral e espiritual para compreender as diferenças que existem e ter a coragem de prescindir de algo para atenuá-las.
Os alunos que compreenderem isto, para além de futuros profissionais talhados para o sucesso, tornar-se-ão certamente melhores seres humanos. Estamos a precisar deles. Orientemo-los nesse sentido. Por Carlos Miguel MARÇO.ABRIL.
