Opinião (pág. 16)
Jornal de Espiritismo nº 87 · Maio 2018Página 164 min
Pela mesma época, o filósofo grego Anaxágoras intuía as revelações quânticas de dois milénios e meio mais tarde: “o que vemos é materialização do que não vemos; o que não vemos é, o que vemos não é”. Também antes de Cristo, o Eclesiastes ponderava como tudo é vão, fora da vida espiritual, clamando: Vanitas vanitatum! Vaidade das vaidades! E nos alvores do século XX, Albert Einstein evidenciava que no Universo material tudo é relativo.
Jesus de Nazaré, Sol benfazejo de sempre, instruía (João 6:63): “a carne para nada aproveita, o Espírito é que vivifica” (diversidade dos relativos pressupõe referencial uno, total, incriadoo Absoluto). Um psiquiatra católico descreve alguns casos dos seus ficheiros clínicos (“A Neurose Cristã”, Pierre Solignac, 1977 Europa-América). Ressalta neles a influência perniciosa duma educação dita “cristã”, pedagogia de inculpação e intimidação da qual resultaram transtornos psíquicos requerendo atuação médica.
Uma incongruência, quando Cristianismo é libertação, inspiração, superaçãoo mesmo livro ilustra-o, relatando em apêndice um notório caso verídico da época, de cura instantânea pela oração. Quanto a Espiritismo, trata-se também de Cristianismo; não porém cristianismo romanizado, de mitos, sumptuosidades, ânsia de brilho e poder mundanos. Cristianismo em espírito e verdade, o Espiritismo realiza o Consolador prometido por Jesus para restabelecer a Verdade do seu magistério, libertadora da materialidade e ostentação com queEle previadeterioraríamos a pureza da mensagem crística.
Codificado por Allan Kardec, Espiritismo exsuda intenso teor crístico; liberta da lógica do bezerro de ouro, de matrizes dogmatistas, de aparato ritual. Livre, universalista, discerne a essência válida de todas as formas de humanismo; não se atém a ideias formatadas e formalismos rígidos, não proscreve diferenças de perspetiva ou de práxis. Mas libertação, criatividade, não se alcançam com apenas o rótulo de espiritismo; menos ainda, amarrado a ancestralidades que obstruem o despertamento, renovação, libertação.
A liberdade do Consolador envolve renúncia à paixão de abraçarmos pontos de vista próprios, sem empatia com a perspetiva dos alheios. Sendo óbvio que sempre teremos pontos de diferença e de divergência, cumpre não os fazermos pomo de discórdia, buscando sempre diálogo, união, metas comuns, consensos para as atingir. Recorde-se o notável cristão e eclesiástico Martinho Lutero (1483-1546), admirado e enaltecido hoje por sumidades de Teologia (cardial Ives Congar, padres Carreira das Neves, Bento Domingues), e também por Hermínio Miranda, prestigioso confrade nosso.
Confrange, pois, a tristíssima história de anátemas e violência com que, no século 16 e seguintes, fustigámos o valoroso monge Agostinho e adeptos. Ele almejava reformar as cúpulas da cristandadedepois, intenção também do Concílio de Trento (1545 a 1563). A grande figura conciliar do nosso Frei Bartolomeu dos Mártires, clamou então pela “eminentíssima e reverendíssima reforma” de que careciam os cardiais eminentíssimos e reverendíssimos.
Também dela necessitaria hoje, no movimento espírita, a mentalidade formatada, pouco livre, com que por vezes fazemos uma leitura dogmática de Kardecdo libérrimo Kardec, típico homem de ciência, de abertura e racionalidade modelares. Desaproveitando lições da História e o exemplo sadio do Codificador, o nosso movimento intoxica-se em acrimónias estéreis que deveriam ser antes diálogos produtivos, fraternossem divisão, sem dispersão de energias, sem empobrecimento de resultados.
A respeitável sabedoria antiga, o progresso científico hoje atingido e, sobretudo, a excelsa pedagogia messiânica de Jesus, advertem sobre a relatividade das nossas cómodas “certezas”. Lúcido e prudente, Kardec negou ser detentor da última palavra em Espiritismo, e considerou de rejeitar qualquer ponto doutrinário nosso que a ciência provasse errado. Não honramos a sua memória nobre com o desnecessário tom azedo de intervenções públicas que até seriam valiosas, se portadoras duma didática construtiva.
Sendo a veneranda Federação Espírita Brasileira instituição centenária, a que mais fomenta o Espiritismo no Mundo (agradeço corrigirem, se erro), será justo e razoável interpelá-la desprimorosamente, por se discordar de teses doutrinais que acolhe? Importando analisar e corrigir práticas consideradas desajustadas (por exemplo, no passe), será útil ridicularizar publicamente, sem pedagogia nem caridade, métodos diferentes dos que utilizamos?
A liberdade do Consolador envolve renúncia à paixão de abraçarmos pontos de vista próprios, sem empatia com a perspetiva dos alheios. Certas palavras (Roustaing, apometria, reiky…) parecem “malditas” a estimados confrades nossos. Nada teem que assuste. E não as seguir nunca justifica azedumes ou não prezar e escutar quem as defende. Escolhamos com Paulo “não sufocar o espírito, examinar tudo e reter o que for bom” (I Tess.
5: 20, 21). O Bom Pastor dissuadiu os discípulos de repreenderem um estranho, por também expulsar demónios: “Não o proibais, pois é por nós quem não é contra nós” (Lucas 9: 50). A aula cósmica dada à Humanidade pelo Mestre dos Mestres resume-se em nos amarmos (João 13:35). Sim, o fundamental é amarmo-nos, fundir a imensidão das nossas diferenças na semelhança, mais: na unidade, de todos nós com o Pai de infinito amor (João 17:10).
No efémero teatro de cada vida terrena, amarmo-nos é sabedoria e realismo, pois dulcifica e leveda o desígnio cósmico da nossa evolução. Resolve todas as ninharias que a perceção mundana nos faz mascarar de sérios problemas e conflitos. Amarmo- nos consola, liberta. Por João Xavier de Almeida foto arquivo O Consolador/Libertador Quatro séculos antes de Cristo, cantava o Bhagavad Gita, poema hindu da autorrealização: “tudo é ilusão (“maya”), a única verdade é o espírito”.
