Entrevista
Jornal de Espiritismo nº 88 · Maio 2018Página 84 min
Em 2006, publicou o livro “Secular Spirituality: Reincarnation and Spiritism in Nineteenth-Century France” ainda não editado em língua portuguesa, que detalha de forma preciosa a ascensão e degeneração da ideia da reencarnação e do Espiritismo em França. Após a sua leitura e, entendendo melhor as minúcias das condições sociais, políticas e culturais e a sua influência na ideia de reencarnação e no movimento espírita da altura, surgiu a oportunidade de entrevistar a Dr.
ª Lynn para o «Jornal de Espiritismo». Afável e muito divertida, mostrou-se desde o primeiro momento completamente disponível para falar connosco e conversar um pouco sobre o interesse que partilhamos sobre o tema. De onde nasceu o seu interesse pela história da reencarnação e do espiritismo? Lynn SharpNo verão que se seguiu à minha formatura, descobri uns textos do início do século XX, do filósofo Henri Bergson e do médico Charles Richet, sobre médiuns e as suas habilidades.
Na altura, eu julgava que o Espiritismo era um assunto para gente supersticiosa e pouco instruída. Por isso, fiquei intrigada sobre as razões que teriam levado aqueles dois homens famosos, talentosos e instruídos a dissertarem sobre a matéria. Historiadora norte-americana estuda o espiritismo no séc. XIX Descobri, então, que Bergson tinha sido presidente da British Society for Psychical Research através de uma ligação com a sua irmã Mina, casada com o ocultista MacGregor Mathews, e que Richet fora um ávido investigador dos fenómenos mediúnicos, com especial notoriedade para as leituras em que participou, em 1885, com a médium italiana Eusapia Palladino e com a médium Marthe Béreaud, na Argélia.
Quanto mais eu lia, mais fascinada ficava. Num primeiro momento, fiquei mesmo surpreendida por descobrir a extensão do interesse no Espiritismo durante o século XIX e, mais tarde, intrigaram-me os elos de afinidade entre Espiritismo, reencarnação e também algumas formas de socialismo. Por isso, continuei a ler de forma ávida, pesquisando e fazendo perguntas. De todo esse trabalho, nasceu a minha dissertação de doutoramento e, mais tarde, um livro.
Depois da Revolução de Julho, em França, a ideia da reencarnação, incentivando à igualdade e transformação do ser humano através de um ciclo de vidas consecutivas, emergiu na França como um movimento político e revolucionário. De onde é que isso apareceu? Lynn SharpBem, é engraçado, porque não foi exatamente um movimento. Foi mais uma convergência de muitas linhas de pensamento similares e interconectadas que se direcionaram para um mesmo ponto.
O meu livro explica a questão com maiores detalhes mas posso tentar sintetizar. A Revolução Francesa foi um processo desafiador e de desestabilização do catolicismo, evidenciando que as pessoas estavam à procura de novas respostas que explicassem o mundo. A Primeira República já trouxe à tona uma sociedade completamente renovada e motivada para a ideia da igualdade. Se é verdade que o projeto falhou, isso não significa que as pessoas tenham desistido desse objetivo.
Nos primeiros anos do século XIX, o Ocidente descobriu também os grandes textos védicos, como o Ramayana, que compreendia a vida como uma série de encarnações e o Romantismo dos anos 20 e 30 trouxe um forte fascínio pela individualidade, pela essência interior, pela alma, incorporando a reencarnação na literatura popular. Os primeiros socialistas românticos deram o mote para o que seguiu porque viam a reencarnação como uma forma de aperfeiçoar a sociedade enquanto ativamente transformavam o mundo.
Três pensadores incorporaram a reencarnação como peça-chave nas suas ideias: Pierre-Simon Ballanche, Pierre Leroux e Jean Reynaud. O primeiro era um filósofo, os outros dois eram reformadores sociais simpatizantes do Saint-Simonismo. Todos eles acreditavam que as múltiplas vidas ofereciam os meios de progresso que conduziria à perfeição social e individual. As ideias de Reynaud, focando-se mais no indivíduo do que na sociedade, acabaram por ter grande influência em Kardec e noutros espíritas do século XIX.
A crença nos fenómenos mediúnicos é muito antiga, mais associada à população rural e não instruída. Como é que a mediunidade emergiu como um fenómeno urbano e popular em Paris, o coração do Iluminismo? Lynn SharpEu julgo que a forma como os médiuns atuavam nos centros urbanos durante o século XIX não foi assim tão diferente para se tornar uma coisa nova. Agora, alguém poder participar no fenómeno, isso sim era algo novo.
No início, foi a novidade do fenómeno que o tornou popular. Uma família burguesa poderia chamar os amigos e, juntos, falariam com os espíritos dos seus entes queridos ou de pessoas famosas. Era muito excitante e criava uma grande expectativa por estarem a ir para além dos limites do mistéLynn Sharp é uma historiadora americana, professora associada do Whitman College em Washington, EUA, tendo como foco do seu trabalho de investigação, o século XIX em França.
