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Entrevista (pág. 9)

Jornal de Espiritismo nº 88 · Maio 2018Página 97 min

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rio. E como essas práticas não eram nada parecidas com as tradicionais e supersticiosas crenças religiosas, as pessoas sentiam-se modernas. Mas as mesas girantes foram um fenómeno muito popular. Lynn SharpSim. Eu argumento no meu livro que uma das razões para se ter tornado tão popular em França foi o momento político da altura. Em 1851, deu-se o golpe de Estado de Louis Napoleon Bonaparte e isso desencadeou uma repressão política, silenciando as sempre enérgicas discussões sobre as paixões políticas.

Assim, o fenómeno das mesas girantes acabou por funcionar como um entretenimento e uma forma de matar o tempo. O Espiritismo é um filho do Iluminismo? Lynn SharpO Espiritismo só pôde difundir-se como um movimento por causa do Iluminismo. A grande inovação de Allan Kardec foi transformar o que era uma brincadeira em algo sério, persistindo na ideia de que as mensagens dos espíritos eram uma evidência empírica da existência de espíritos e que os seus seguidores deveriam usar a razão para interpretar as suas mensagens.

Observação empírica, lógica e interpretação cuidadosa, deram à comunicação dos espíritos, anteriormente supersticiosa, uma forma de partilhar os valores e princípios do Iluminismo. No seu livro, defende que, na forma de pensar de Allan Kardec, a reencarnação era a essência da doutrina espírita. Algumas pessoas argumentam que essa essência é a comunicação com os espíritos. Pode clarificar a sua perspetiva? Lynn SharpA sua pergunta toca num ponto muito interessante.

Claro que sem a comunicação com os espíritos não haveria Espiritismo, por isso, sim, a um nível profundo terá de ser a comunicação com os espíritos. A chave para “O Livro dos Espíritos” e para os ensinamentos de Kardec foi a sua habilidade e persistência em pegar nas palavras dos espíritos e transformá-las numa doutrina. Mas, na minha opinião, o coração dessa doutrina é a reencarnaçãoeo reconhecimento de que devemos viver boas vidas, não só para ajudar a fazer do mundo um lugar melhor para viver, mas também para progredirmos nessa jornada individual.

Esse é um dos pontos mais importantes e que torna o Espiritismo diferente do espiritualismo anglo-saxão: a ênfase nas vidas sucessivas e no progresso. No século XIX, o Espiritismo foi um movimento popular na Europa? Lynn SharpBem, sim e não. O Espiritismo chegou a todas as classes sociais, era discutido com grande interesse durante as conversas das pessoas e até nos jornais, mudando a forma como milhares de pessoas compreendiam o mundo.

Os grupos espíritas prosperaram sobretudo na França, mas também em Inglaterra, Alemanha e Itália, mantendo as suas reuniões privadas em casa e orientando as suas vidas de acordo com os princípios espíritas. Pequenas publicações espíritas surgiram e desapareceram, depois surgiram outras, as ideias espíritas foram-se espalhando na Europa. Alguns pensadores também promoveram essas ideias e elas acabaram por influenciar ainda outros movimentos que nasceram mais tarde, como o Ocultismo e o Simbolismo.

A Revolução Francesa foi um processo desafiador e de desestabilização do catolicismo, evidenciando que as pessoas estavam à procura de novas respostas que explicassem o mundo. Culturalmente, o Espiritismo foi de grande importância. No entanto, se nos restringirmos apenas aos números, o movimento espírita manteve-se relativamente pequeno em todos os países, e as grandes instituições, como as igrejas instituídas e os partidos políticos, rejeitaram essas ideias e, em alguns casos, perseguiram quem as praticava acusando-os de fraude.

A Igreja Católica em França esforçou-se bastante para convencer os crentes que o Espiritismo poderia ser perigoso, publicando folhetos antiespiritismo e pregando contra ele nos sermões das missas. Eu diria que o Espiritismo era bastante conhecido mas não foi muito popular, no sentido de que a sua aceitação social foi reduzida. Um dos factos mais curiosos que a Lynn aponta no seu livro é que um dos insultos mais frequentes que se fazia ao Espiritismo passava por acusá-lo de ser uma prática feminina.

No século XIX, houve alguma ligação entre o Espiritismo e o movimento feminista? Lynn SharpSem dúvida. O termo “feminismo” só foi cunhado por volta de 1890 mas, antes disso, os espíritas já promoviam a ideia da igualdade da mulher. Tanto os homens como as mulheres espíritas já criticavam abertamente as normas de género existentes. Podemos encontrar essas críticas em todo os recantos das publicações espíritas, desde a “Revista Espírita” até aos periódicos de pequenos grupos que se encontravam espalhados pelo país.

A declaração em “O Livro dos Espíritos” sobre a igualdade de todas as almas e de que os homens poderiam encarnar como mulheres e vice-versa, parece um desafio às ideias inatas sobre as funções masculina e feminina. No entanto, os mais famosos ativistas do feminismo francês não mostraram grande interesse no Espiritismo e poucos espíritas defenderam objetivos específicos, como o direito ao voto. Olympe Audouard foi uma honrosa excepção, combinando uma luta intensa pela completa igualdade e pelos direitos civis das mulheres, com um comprometimento com o Espiritismo.

Muitos espíritas, especialmente em Paris, defendiam as ideias de 1830 dos socialistas românticos, de que as mulheres deveriam poder participar ativamente na sociedade com os mesmos direitos dos homens. No livro “Viagem Espírita” de 1862, Kardec defendeu que o triunfo dos ideais espíritas levaria à emancipação da mulher e que todos os espíritas deveriam reconhecer a igualdade entre os géneros. O Espiritismo também contribuiu para o Feminismo oferecendo à mulher oportunidade para escrever, liderar e falar como autoridade.

Embora muitos homens assumissem posições de liderança no movimento espírita francês, as mulheres médiuns também tiveram papeis-chave especialmente em pequenos grupos espalhados pelo país. As mulheres podiam falar com autoridade quando falavam as palavras dos espíritos. Outros historiadores abordaram extensivamente este assunto: Alex Owen escreveu o livro “The Darkened Room: Women, Power and Late Victorian England” e Nicole Edelman “Voyantes, Guérisseuses et Visionnaires en France, 1785-1914”.

Depois da morte de Allan Kardec, não existindo dogmas e sem uma figura consensual que ditasse o que era certo e errado, o Espiritismo deixou um campo aberto para diferentes interpretações sobre as suas ideias-base. Pensa que isso foi a causa principal para o surgimento de alguns desvios relevantes, tais como a sedução por doutrinas esotéricas e por ideias religiosas e conservadoras? Lynn SharpKardec queria juntar o espiritual ao científico.

Se isso foi algo muito difícil de concretizar em qualquer tempo da história, era-o especialmente difícil no século XIX quando a ciência e a religião se encontravam em lados políticos completamente opostos, fruto da divisão republicana/católica. As pessoas que queriam seguir o Espiritismo tinham de ir contra a religião dominante e viam-se muitas vezes ridicularizadas pela corrente cultural dominante, influenciada sobretudo pelos jornais.

Para se defenderem desta exposição, muitos espíritas refugiaram-se em grupos restritos, constituídos muitas vezes apenas por pessoas de total confiança. Estes grupos eram a base do movimento. Sem Kardec, estes grupos começaram a desfazer-se – algo que é muito comum nas filosofias e religiões jovens. Para além disso, depois de 1871, o Governo francês começou a reprimir as práticas espíritas que se julgavam fraudulentas, tornando - -as, naturalmente, mais difíceis de praticar.

O conforto de uma comunidade que a suporte é uma das bases mais importante da prática religiosa. Outra questão que importa esclarecer é a seguinte: a promessa de um mundo melhor e a prova sobre coisas que transcendem este mundo, aquilo que no meu livro eu chamo de “encantamento”, é chave para as doutrinas religiosas. Quando retiramos o maravilhoso do fenómeno da comunicação dos espíritos, tornamo-lo demasiado terrestre e perde-se um pouco da magia, do mistério e até a sensação de estamos a ir para além do véu da morte, facto que atraiu tantas pessoas ao início.

Kardec conseguiu manter um equilíbrio perfeito entre razão e encantamento, mas muitos outros falharam. O esoterismo, o ocultismo e até as ideias religiosas conservadoras, de diferentes formas, conseguiram renovar esse mistério. Para além disso, ao rejeitarem a igualdade como um princípio, fazendo dos seus seguidores parte de um grupo de eleitos, aqueles que estariam mais próximos de Deus, tornaram-se mais sedutoras: na viragem para o século XX, o Elitismo tornou-se popular e muitas pessoas viam a insistência na igualdade social como um fator suspeito de ligação ao socialismo, caído em desgraça depois da Comuna de 1871 e do crescimento dos partidos marxistas.

Mas no Brasil, o Espiritismo acabou por ter uma excelente implantação. Lynn SharpEu não sou especialista no desenvolvimento do Espiritismo no Brasil. Suspeito que algumas das coisas que identifiquei anteriormente funcionaram de forma diferente lá. Ao contrário da cultura europeia, a cultura brasileira desenvolveu aquilo que os estudiosos chamam de religiões “sincréticas”, que foram capazes de combinar várias tradições e rituais de diferentes tipos.

Julgo que essa habilidade estará relacionada com o grande sucesso do Espiritismo no Brasil, especialmente no campo da cura. Esses sucessos, talvez tenham oferecido a oportunidade de recrutar cada mais gente, mas não posso aferir isso com grande autoridade. O Espiritismo no Brasil conseguiu definitivamente manter uma combinação entre “encantamento” e razão, de féeação, que o movimento espírita francês perdeu. De que forma o fez?

Imagino que muitos dos seus leitores conseguirão responder a esta pergunta muito melhor do que eu. Texto: Carlos Miguel MAIO.JUNHO.