Historiadora norte-americana estuda o espiritismo no séc
Jornal de Espiritismo nº 88 · Maio 2018Página 84 min
Historiadora norte-americana estuda o espiritismo no séc. XIX Lynn Sharp é uma historiadora americana, professora associada do Whitman College em Washington, EUA, tendo como foco do seu trabalho de investigação, o século XIX em França. foto arquivo
Em 2006, publicou o livro “Secular Spi- Descobri, então, que Bergson tinha sido não foi exatamente um movimento. Foi peça-chave nas suas ideias: Pierre-Simon rituality: Reincarnation and Spiritism in presidente da British Society for Psychical mais uma convergência de muitas linhas Ballanche, Pierre Leroux e Jean Reynaud. Nineteenth-Century France” ainda não Research através de uma ligação com a de pensamento similares e interconecta- O primeiro era um filósofo, os outros dois editado em língua portuguesa, que deta- sua irmã Mina, casada com o ocultista das que se direcionaram para um mesmo eram reformadores sociais simpatizantes lha de forma preciosa a ascensão e de- MacGregor Mathews, e que Richet fora ponto.
O meu livro explica a questão com do Saint-Simonismo. Todos eles acredigeneração da ideia da reencarnação e do um ávido investigador dos fenómenos me- maiores detalhes mas posso tentar sinte- tavam que as múltiplas vidas ofereciam Espiritismo em França. Após a sua leitura diúnicos, com especial notoriedade para tizar. os meios de progresso que conduziria à e, entendendo melhor as minúcias das as leituras em que participou, em 1885, A Revolução Francesa foi um processo perfeição social e individual.
As ideias de condições sociais, políticas e culturais e a com a médium italiana Eusapia Palladino desafiador e de desestabilização do ca- Reynaud, focando-se mais no indivíduo do sua influência na ideia de reencarnação e com a médium Marthe Béreaud, na Ar- tolicismo, evidenciando que as pessoas que na sociedade, acabaram por ter grane no movimento espírita da altura, surgiu gélia. estavam à procura de novas respostas de influência em Kardec e noutros espíria oportunidade de entrevistar a Dr.
ª Lynn Quanto mais eu lia, mais fascinada fica- que explicassem o mundo. A Primeira tas do século XIX. para o «Jornal de Espiritismo». Afável e va. Num primeiro momento, fiquei mesmo República já trouxe à tona uma sociedamuito divertida, mostrou-se desde o pri- surpreendida por descobrir a extensão do de completamente renovada e motivada A crença nos fenómenos mediúnicos é meiro momento completamente disponí- interesse no Espiritismo durante o século para a ideia da igualdade.
Se é verdade muito antiga, mais associada à populavel para falar connosco e conversar um XIX e, mais tarde, intrigaram-me os elos que o projeto falhou, isso não significa que ção rural e não instruída. Como é que a pouco sobre o interesse que partilhamos de afinidade entre Espiritismo, reencarna- as pessoas tenham desistido desse obje- mediunidade emergiu como um fenómesobre o tema. ção e também algumas formas de socia- tivo.
Nos primeiros anos do século XIX, o no urbano e popular em Paris, o coração lismo. Por isso, continuei a ler de forma Ocidente descobriu também os grandes do Iluminismo? De onde nasceu o seu interesse pela his- ávida, pesquisando e fazendo perguntas. textos védicos, como o Ramayana, que Lynn SharpEu julgo que a forma como tória da reencarnação e do espiritismo? De todo esse trabalho, nasceu a minha compreendia a vida como uma série de os médiuns atuavam nos centros urbanos Lynn SharpNo verão que se seguiu à dissertação de doutoramento e, mais tar- encarnações e o Romantismo dos anos durante o século XIX não foi assim tão minha formatura, descobri uns textos do de, um livro.
20 e 30 trouxe um forte fascínio pela in- diferente para se tornar uma coisa nova. início do século XX, do filósofo Henri Ber- dividualidade, pela essência interior, pela Agora, alguém poder participar no fenógson e do médico Charles Richet, sobre Depois da Revolução de Julho, em Fran- alma, incorporando a reencarnação na li- meno, isso sim era algo novo. No início, médiuns e as suas habilidades. ça, a ideia da reencarnação, incentivan- teratura popular.
foi a novidade do fenómeno que o tornou Na altura, eu julgava que o Espiritismo era do à igualdade e transformação do ser Os primeiros socialistas românticos deram popular. Uma família burguesa poderia um assunto para gente supersticiosa e humano através de um ciclo de vidas o mote para o que seguiu porque viam a chamar os amigos e, juntos, falariam com pouco instruída. Por isso, fiquei intrigada consecutivas, emergiu na França como reencarnação como uma forma de aper- os espíritos dos seus entes queridos ou sobre as razões que teriam levado aque- um movimento político e revolucionário.
feiçoar a sociedade enquanto ativamente de pessoas famosas. Era muito excitante les dois homens famosos, talentosos e De onde é que isso apareceu? transformavam o mundo. Três pensado- e criava uma grande expectativa por estainstruídos a dissertarem sobre a matéria.

