Editorial / Conto
Jornal de Espiritismo nº 89 · Abril 2018Página 23 min
EDITORIAL / CONTO A afabilidade e a doçura são redondas como um sorriso. Fazem bem à alma, contagiam, mas confesso ser difícil tê-las sempre no seu melhor. É próprio de um trabalho milenar que se estende para trás e se adivinha muito mais para diante. Mesmo assim, são clareiras que se abrem nos múltiplos afazeres do dia a dia sobretudo quando encontramos pessoas que gostamos muito de rever. Esse dado é conquista ganha no roteiro já percorrido, nada de mais.
O desafio, porém, encontra-se bem descrito nas boas notícias que Jesus de Nazaré nos deixa quando, de forma desconcertante, nos pede não só que gostemos(!) mas que amemos os inimigos. Se assim não for, como ficar à altura de sermos filhos da “inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”? A gente fica a pensar… O desiderato não é pêra doce, mas está na pauta de serviço. Como reagimos quando alguém não percorre a mesma cartilha de opinião que em dado momento consideramos ser a nossa?
A resposta é individual e qualquer que ela seja, desde que honesta, é reveladora. “Amigo não é o que pensa como eu, mas o que pensa comigo”, ouvi há algumas décadas, e retive. É mesmo isso. “Amigo não é o que pensa como eu, mas o que pensa comigo” Entre inteligir, raciocinar, compreender no patamar das ideias e interiorizar há caA sombra do burro minho escarpado a percorrer. Trabalho, mesmo assim, inadiável, pois mais à frente começa a perceber-se uma paisagem luminosa bordada de imensurável beleza.
Encantamento. Não no sentido da ilusão, da fantasia, mas da valorização dos testes e das oportunidades que todos os dias visitam o ser humano e o convidam a entrever as discretas e suaves luzes que invariavelmente lhe acompanham os passos. Peso que não ajuda, atrofia, é a culpa. O erro não pede punição mas sim o talento de aprender a retirar o ensinamento justo que sempre aquele traz consigo. Qual embalagem a pedir pronta reciclagem, na economia da alma, oferece a alegria de entender que a vida trará, a breve prazo, ensejo de repetir com sinal positivo os mesmos testes.
Por isso, felizes ao escrevermos e ao lermos as ideias grafadas, fazemos votos sinceros de que este roteiro imenso de aprendizagens em cascata abram cada vez mais, na medida do que evolução a momentânea consente, os melhores sentimentos, para que em vez de esperarmos a luz dos seres tão maiores que nós próprios, acendamos a nossa própria luminosidade interior e sigamos, com bom ânimo, as pegadas dos numes que já nos iluminaram fartamente a vida.
Boa leitura! A Redação foto pixabay Certa vez, promovendo uma assembleia pública em Atenas para tratar de altos interesses da pátria grega, Demóstenes viu-se apupado pela turba impaciente, que fazia menção de retirar-se sem o ouvir. Então, elevando a voz, disse que tinha uma história interessante a contar. Obteve, assim, silêncio e atenção, e começou: – Certo jovem, uma vez que precisava de ir de sua casa até Mégara durante o auge do verão, alugou um burro, pondo - -se a caminho.
Quando o sol ficou a pino, ardente, tanto o moço como o dono do animal alugado tiveram vontade de sentar-se à sombra do burro, e começaram a empurrar-se mutuamente, a fim de ficar com o lugar. Dizia o dono do animal que apenas alugara o burro e não a sua sombra, e o outro afirmava que tendo pago o aluguer do burro, pagara também o da sua sombra, pois tudo quanto pertencia ao burro lhe fora alugado com ele… Por essa altura, Demóstenes levantou - -se e fez menção de retirar-se.
A multidão protestou, desejosa de ouvir o resto da história. Foi então que o prodigioso orador, erguendo-se em toda a sua altura, e encarando com firmeza o auditório, declarou, a voz trovejante: – Atenienses! Que espécie de homens sois, que insiste em saber a história da sombra de um burro e recusais tomar conhecimento dos fatos mais graves que vos dizem respeito? Só então pôde fazer o discurso que pretendia, para um auditório envergonhado e atento, que, afinal, ficou sem saber o fim da história da sombra do burro.
Por António F. Rodrigueslivro: Antologia Espírita e Popular “Mensagens dos Mestres” Fontehttps://srggomes.wordpress. com/mensagens-e-poemas-espiritas/ contos-espiritas JULHO.AGOSTO.
